Sempre passei as férias escolares em Pedra Lascada, quando era criança, na granja de meu avô. E “trabalhava” [devo dizer que, olhando pra trás hoje em dia, acho que o verbo correto é atrapalhava].
Acompanhava o pessoal na catação; nas granjas onde a galinhagem rolava solta [isto é, as aves ficavam soltas num barracão espaçoso e tinham apartamentos individuais forrados de palha, pra botar os ovos] a gente usava baldes de estanho pra recolher a produção. Minhas primas não entravam nem a pau, de medo das bichinhas. Eu sempre fui esse anjo da boa-vontade desde cedo, então ajudava-as a superar a fobia açulando as galinhas pra cima delas.
Não funcionou, claro… Por isso não segui a carreira da psicologia.
Tinha também granja de bateria. Hoje em dia isso não é politicamente correto, mas eu gostava mais de trabalhar nelas porque se usava um carrinho pra recolher os ovos. Esse carrinho tinha rolos de madeira giratórios nas laterais, pra não enroscar quando batesse nas gaiolas. Claro que a diversão era subir no carrinho e bater nas gaiolas em alta velocidade.
Vem daí meu gosto por automobilismo.
Mas o que eu gostava mesmo era da máquina de lavar e classificar. A gente colocava os ovos [ahá! pensou que ia dizer botava, né? quem botava era a galinha. perdeu, preibói] numa esteira rolante, o ovo sumia por uma abertura, era lavado e passava por um – como chama aquilo? Uma peneira com vários tamanhos de furos em sequência: os menores caíam numa raia, os maiores na segunda, os mais maiores numa terceira… tinha umas cinco ou sete graduações.
Na frente ficavam as bandejas de papelão, dessas de 2 dúzias e meia, que iam sendo empilhadas e encaixotadas até o próximo recolhimento do caminhão da cooperativa [CASB, Cooperativa Agrícola Sul-Brasil, hoje extinta]. Tinha uma técnica para colocar os ovos na bandeja, a ponta tinha que ficar sempre pra baixo.
O pessoal que trabalhava lá girava meia dúzia de cada vez, mas eu só conseguia segurar dois ovos em cada mão; mesmo assim não quebrei mais do que oito ou dez na minha vida inteira. E gostava de ficar na raia dos maiores – por um questão estratégica: eram menos, então mesmo eu sendo mais lenta e girando menos por virada não tinha o perigo deles transbordarem.
Em boa parte, dichan foi responsável por eu ter boas lembranças da infância pra contar. Hoje ele completa 88 anos. Ele sempre disse pros netos que, quando chegou ao Brasil, os brasileiros ficaram tão contentes que o aniversário dele passou a ser feriado. E ele sempre disse pra mim que, quando eu nasci, ele mandou uma carta para o Japão pra avisar que a neta dele tinha nascido, e o governo do Japão instituiu um feriado pra mim.
Por isso que os livros de História podem dizer que 21 de abril é aniversário de morte de Tiradentes até cansar, que pra mim hoje é dia de comemorar o nascimento de meu avô.

PreDatado disse,
Segunda-feira, Abril 21, 2008 às 18:28
Belos tempos em que nem se falava de gripe aviária.
Hoje « Pensamentos de Uma Batata Transgênica disse,
Quarta-feira, Junho 4, 2008 às 09:36
[...] por naomi em Junho 4, 2008 Meu avô, aquele da máquina de lavar ovos, atravessou o [...]