Testemunha de Acusação

Já tinha lido diversas resenhas sobre este filme, todas positivas. Até Rubens Ewald Filho concedeu-lhe cinco estrelas e, dizem, era a única adaptação de um livro seu de que Agatha Christie gostou. Quem me conhece, no entanto, sabe que não dou a mínima pras críticas especializadas e às vezes até prefiro ir na contramão – das opiniões estabelecidas, não da via expressa caus que não sou suicida.

Não foi o que aconteceu desta vez: Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution, EUA/1957) é um filme ótimo!

Não é um whodunnit tradicional como aqueles pelos quais a escritora tornou-se famosa: a grande pegunta aqui não é “quem é o culpado?” e sim “será que ele é culpado?”

Ele, no caso, é Leonard Vole, interpretado por Tyrone Power, um homem acusado de assassinar uma senhora e que é levado a julgamento em Old Bailey.

Leonard Vole: But this is England, where I thought you never arrest, let alone convict, people for crimes they have not committed.
Sir Wilfrid: We try not to make a habit of it.

Seu álibi depende exclusivamente do testemunho de sua esposa Christine, a maravilhosa Marlene Dietrich, que é quem finalmente convence o advogado Sir Wilfrid a defendê-lo pessoalmente [dizem também que foi ela quem convenceu Billy Wilder a assumir a direção]. E o filme é todo do ator que o interpreta, Sir Charles Laughton.

Desde a primeira cena ele me cativou totalmente como o convalescente de um ataque cardíaco que luta para driblar a enfermeira [Elsa Lanchester, excelente também], ranzinza, sem papas na língua… O tom passa do grave ao divertido ao dramático em segundos.

Miss Plimsoll: How lucky you lawyers are… I almost married a lawyer once. I was in attendance when he had his appendectomy and we became engaged as soon as he could sit up. Then peritonitis set in, and he went like that.
Sir Wilfrid: He certainly was a lucky lawyer.

Como adaptação de uma peça teatral, o filme manteve as características de uma montagem com toda a ação se passando em apenas três cenários [o escritório de Sir Wilfrid, a corte de julgamento de Old Bailey e um bar clandestino alemão na Segunda Guerra], sem nada de efeitos especiais nem truques com a sonorização. Toda a tensão ficou a cargo da interpretação.

O que me chamou mais a atenção neste filme foi a idéia de como é fácil manipular a opinião pública, representada pelo júri. É um assunto pra se dormir em cima e meditar bem, quando a gente vê até evidência criminal sendo colocada como prova fora de contexto de acordo com o interesse particular da polícia, do promotor ou da defesa.

Gil Grissom afirma que a evidência não mente; o problema é que a evidência é manejada por pessoas e, citando Gregory House, pessoas mentem. A dificuldade de separar mentira e verdade é o ponto central de Testemunha de Acusação.

Quanto à fidelidade da adaptação, eu li as duas versões faz muito tempo [novela e roteiro para peça teatral] e, embora ainda lembre da solução, o filme conseguiu surpreender da mesma forma e com originalidade. Vale totalmente a pena.

Curiosidade: O ator que interpretou Mayhew é o mesmo que fez o papel de Mr. Brocklehurst no Jane Eyre de Orson Welles.

4 Comentários

  1. Sofia disse,

    Terça-feira, Junho 3, 2008 às 11:55

    Naomi, Lu.

    Eu vi este filme na tv um tempão atrás, na verdade foi a única
    adaptação que eu gostei – não dá nem pra piscar de tão bom.

    beijo procê.

  2. Quarta-feira, Junho 11, 2008 às 14:11

    [...] outra série [o Turk e a Carla, de Scrubs] – e era mesmo – e segundo porque o desfecho me lembrou Testemunha de acusação. Não posso contar porque é um baita dum spoiler, mas quem assistiu ambos deve ter percebido a [...]

  3. Terça-feira, Março 17, 2009 às 14:59

    [...] mudou tem o uso de toga e peruca na corte. Eu estava acostumada a ver isso em filmes antigos como Testemunha da Acusação, então nem foi um choque tão grande… embora ainda seja um pouco engraçado, mesmo assim. [...]

  4. Terça-feira, Junho 9, 2009 às 17:48

    [...] Post relacionado Testemunha de Acusação [...]


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