Um crime real, ocorrido no Brasil com uma família americana de Massachussets, acabou colocando Lizzie Borden na imprensa nacional em 2003 por causa da similaridade entre os casos. Era o assassinato do casal Staheli em sua residência no Rio de Janeiro, ele executivo da Shell; o delegado responsável pelo caso na época era Álvaro Lins e Anthony Garotinho o secretário estadual de Segurança.
A filha mais velha do casal chegou a ser considerada suspeita e o FBI foi acionado mas a solução só foi descoberta com a confissão do caseiro de uma propriedade vizinha, que foi preso pelos seguranças do condomínio depois de invadir a residência do cônsul da Grécia, também vizinho dos Staheli.
Esse crime mudou meu jeito de ler. Eu conhecia o nome Lizzie Borden dos livros de Agatha Christie mas achava que era personagem de ficção, alguém inventado; saber que era real foi uma reviravolta na minha cabeça! A partir daí passei a pesquisar o que podia toda vez que terminava um livro, dela e de outros autores. De certa forma, foi o germe que acabou gerando o blog A Casa Torta.
E é por isso que tenho um certo “carinho” por Lizzie Borden – ou melhor, por sua história.
Lizzie Borden took an axe
And gave her mother forty whacks.
And when she saw what she had done,
She gave her father forty-one.
[Rima criada pelos vendedores de jornal que as crianças depois repetiam]
Lizzie Andrew Borden nasceu em 1860. Ela e sua irmã Emma Leonora, nove anos mais velha, foram criadas pelo pai, o Dr Andrew Jackson Borden, e pela madrasta Abby Durfee Gray Borden, já que a mãe biológica era falecida [Sarah Anthony Morse]. Andrew e Abby casaram-se quando Lizzie tinha três anos de idade. A família residia na Second Street No. 92 Fall River, Massachusetts [cerca de 50 milhas ao sul de Boston].
Em 1892, quando Lizzie estava com 32 anos e Emma com 41, a situação familiar na casa dos Borden era tensa: as irmãs usavam apenas a parte da frente no andar inferior e seus quartos subindo as escadas; seus pais ficavam com a parte de trás e o segundo andar. As irmãs não faziam as refeições com seus pais. O conflito chegou a este ponto por causa da decisão do Dr Andrew de legar a maior parte de sua fortuna para Abby e parentes de Abby [meio milhão de dólares na época - mais ou menos dez milhões de dólares em dinheiro de hoje - mais propriedades].
John Vinnicum Morse, irmão da primeira esposa de Andrew, estava hospedado na casa dos Borden para finalizar a transferência de uma fazenda para o seu nome; no ano anterior Andrew já doara um duplex para a meia-irmã de Abby, Sarah Whitehead. Tio John testemunhou em tribunal que o cunhado expressou a intenção de fazer um testamento no qual deixaria um legado de 25 mil dólares para cada filha e todo o restante para a esposa Abby.
Maggie went out of doors to wash the windows and father came out into the kitchen and said he did not know whether he would go down to the post office or not. And then I sprinkled some handkerchiefs to iron. [Lizzie Borden, transcrito do seu depoimento no julgamento]
Alguns dias antes de 4 de agosto Lizzie tentou comprar ácido prússico [cianureto] para limpar um casaco de peles, segundo justificou ao farmacêutico Eli Bence. No dia 3 os residentes da casa sofreram o que o Dr. Seabury W. Bowen, médico da família, identificou como intoxicação alimentar que atingiu inclusive Bridget “Maggie” Sullivan, empregada dos Borden, mas não Emma, em visita à cidade vizinha de Fairhaven. No dia seguinte, Maggie ouviu Lizzie gritando por ela, dizendo que alguém assassinou seu pai.
O Dr Andrew estava recostado no sofá com as pernas calçadas no chão e o rosto levemente virado para o lado, como se dormisse. A cabeça foi atacada com algum objeto cortante, diversas vezes – mas não quarenta e uma, como na rima. Uma vizinha deles, a Sra Adelaide Churchill, entrou na sala ao ouvir os gritos e enviou seu ajudante em busca do Dr Bowen. Enquanto acalmavam e consolavam Lizzie, a Sra Churchill e Maggie saíram à procura da Sra Borden, Abby, que foi encontrada no quarto de visitas, morta da mesma maneira – de novo, não com quarenta machadadas. Apenas dezenove.
Last winter when I was coming home from church one Thursday evening, I saw somebody run around the house again. I told my father of that. [do depoimento de Lizzie Borden]
A investigação feita pela polícia apontava para Lizzie como a mais provável de ter cometido o crime, embora muitos acreditassem que poderia ser qualquer pessoa visto que o Dr Andrew não era benquisto na comunidade.
A investigação e o inquérito são considerados até hoje como tacanhos e repletos de equívocos de ambas as partes. O julgamento durou de 5 a 20 de junho de 1893 e o júri, formado apenas por homens de meia-idade, fazendeiros e comerciantes, levou uma hora para deliberar e concluir que o crime fora cometido por pessoa ou pessoas desconhecidas, não incriminando Lizzie Borden.
Este foi o primeiro caso de assassinato a ficar famoso em todos os EUA – vale lembrar que embora muitos o chamem de “crime vitoriano” ele não tem relação alguma com a Inglaterra, ao contrário, por exemplo, do caso do Dr Crippen [que ocorreu na Era Eduardiana, em todo caso; os EUA declararam independência em 1776, mais de um séculos antes desses fatos!] e permanece na cultura popular norte-americana como um dos casos sem solução mais célebres e que gera ainda muitas teorias sobre a real identidade do assassino.
I don’t know what I have said. I have answered so many questions and I am so confused I don’t know one thing from another. I am telling you just as nearly as I know. [do depoimento de Lizzie Borden]
Cinco semanas após o julgamento, Lizzie e Emma mudaram-se para uma casa na French Street N. 306, numa área mais nobre de Fall River. Lizzie batizou a casa de “Maplecroft” e tornou-se reclusa, afastada do convívio até dos vizinhos. Em 1904 ela ofereceu uma festa à atriz e amiga Nance O’Neil e sua trupe teatral; isso irritou sua irmã Emma, que desde a época da investigação e julgamento tornou-se ainda mais religiosa.
Os rumores dizem que Lizzie e Nance tiveram um envolvimento romântico, e Emma deixou a casa para viver com a família do Reverendo Buck transferindo-se depois para New Hampshire. Lizzie passou a identificar-se com o nome de Lizbeth e esta é a única indicação que consta de sua lápide. Dois anos depois Lizzie e Nance se separaram.
Lizzie Borden faleceu em 1927 em decorrência de complicações pós-operatórias de uma cirurgia na vesícula biliar. A residência onde ocorreram os assassinatos foi transformada num bed & breakfast [cama e café da manhã]; o senhorio oferece ao hóspede o mesmo menu que a família Borden comeu na manhã do dia em que aconteceram os assassinatos e oferece estadia fechada para grupos até 20 pessoas por apenas 1.500 dólares a diária, ou quartos a partir de 150 dólares na baixa temporada até 250 nos quartos onde os crimes foram cometidos, na alta [foto da casa verde]. Já Maplecroft é residêncial particular, mas seus proprietários a abrem para visitação e tours em temporadas [foto da casa branca].
I thought I would go out, and see if the air would make me feel any better. [do depoimento de Lizzie Borden]
Ao contrário do assassinato dos Staheli, o caso dos Borden não apresentou um culpado à população, o que tornou Lizzie Borden suspeita para sempre. A arma do crime não foi identificada com clareza – encontraram um velho machado no porão com o cabo quebrado, mas não conseguiram ligá-lo aos crimes.
O que foi citado como fatores incriminatórios careciam de evidência física ou eram apenas circunstanciais, suportados meramente pelo depoimento de testemunhas: a tentativa de comprar veneno, o suposto vestido queimado no forno, a intenção do pai de fazer um novo testamento.
Apesar da violência dos golpes, as únicas roupas com manchas de sangue pertenciam a Lizzie, que estava menstruada no dia do crime. A Sra Churchill lavou essas roupas na sua casa.
Seu depoimento no julgamento apresentou inconsistências e contradições, no entanto o júri não acreditou que a mulher religiosa, professora da escola dominical da igreja, filha de família pródiga e tradicional da comunidade, fosse capaz de matar o próprio pai e a madrasta que a criou, dada a insuficiência de provas. Se tivesse sido considerada culpada seria a primeira mulher a ser executada na cadeira elétrica no país.
Please take me home, I wish to go home now. [Lizzie Borden, após o veredito]
O fato ter feito um calor extremo no dia dos assassinatos [era o meio do verão no hemisfério norte] e dela estar menstruada deu margem às especulações de ataque epilético que teria provocado violência e amnésia. As teorias eram muitas e a cantiga infantil nunca saiu de moda.
Lizzie conviveu com essas suspeitas até o fim de sua vida; numa ocasião, um entregador de lenha fugiu apavorado quando ela se ofereceu para buscar um machado no porão. A sociedade a mantinha no ostracismo e ela nunca mais teve contato com a irmã, que faleceu dez dias depois da morte de Lizzie. Nenhuma das duas se casou ou teve filhos.
Para quem chegou até aqui eu digo parabéns pela persistência e obrigada pela preferência!, mas também aviso que tudo isso é apenas um resumo do que pode ser encontrado Internet afora: todas as teorias, linhas do tempo, procedimentos investigativos, transcrições do julgamento, até seu testamento, para o leitor julgar por si se ela é culpada ou inocente. É material de estudo pra meses, talvez anos.
I am innocent. I leave it to my counsel to speak for me. [do depoimento de Lizzie Borden]

naomi disse,
Quinta-feira, Julho 10, 2008 às 20:52
antes que pergunte: sim, este post será transcrito na casa torta no futuro, quando chegar a vez de algum livro que cite lizzie borden. são pelo menos uns 4.
rnt disse,
Quinta-feira, Julho 10, 2008 às 21:18
que texto excelente, como vc escreve bem, Naomi, taloco.
;*
ó só, pra eu conhecer agatha cristie (nom conheço, shame on me!) por qual livro começo?
karine disse,
Quinta-feira, Julho 10, 2008 às 22:59
Muito bom esse texto.
Eu conhecia a Lizzie Borden de um livro que eu tenho aqui chamado “Mentes Criminosas e Crimes Assustadores”.
Eu só li 3 livros da Agatha Christie, mas não lembro dela ser mencionada em algum dos três (mas também eum não lembro de muitos detalhes dos livros). Até fiquei curiosa para ler mais livros dela.
karine disse,
Sexta-Feira, Julho 11, 2008 às 13:38
Oi!
Eu não li Depois do Funeral, mas agora eu vou ler.
Esse livro das mentes criminosas é legal, e sempre que aparece um filme, ou dúvida sobre os serial killers eu consulto o livro (como o Zodiaco e o Jack The Ripper). E agora eu vou ler outra vez a historia da Lizzie.
abs!
Marco Y disse,
Sexta-Feira, Julho 11, 2008 às 20:01
O ser humano é muito esquisito… Pagar mais para dormir no mesmo quarto em que ocorreram os crimes é uma loucura. Eu não sei quem é mais doido. Se é o dono do imóvel que concebeu a hospedagem e o café da manhã especial, criando um hotel temático, ou os clientes que procuram este tipo de “atividade cultural”.
O episódio do entregador de lenha, fugindo assustado com a hipótese da Lizzie empunhar um machado é hilário!
abraços e parabéns por este post muito bem escrito
naomi disse,
Sábado, Julho 12, 2008 às 01:38
dona rê, você me apertou com aquela pergunta sobre ac!
bamos lá.
você pode ler os 80 romances policiais na seqüência
ou
ler os romances mais representativos dela [chutando baixo, não são menos que 20].
qualquer que seja sua escolha o começo é o mesmo: “o misterioso caso de styles”.
kaká, eu estou relendo todos os livros na seqüência, conforme eles aparecerem eu te aviso. crippen também tá no mentes criminosas?
marco, lembrei agora de um ep de crossing jordan [se não me engano da 1ª temporada] em que um dos colegas dela arranja um bico de guia turístico. ele ia levar um grupo de alemães para a casa de lizzie borden pra ver o fantasma dela. e cobrava caro!
Marco Y disse,
Segunda-feira, Julho 14, 2008 às 14:19
Hum… mas ver fantasma já é uma coisa mais interessante… ai, sim, justifica o investimento…risos
Mentes Criminosas e Crimes Assustadores « Pensamentos de Uma Batata Transgênica disse,
Sábado, Agosto 23, 2008 às 17:02
[...] Lizzie Borden, conforme comentei no post dedicado a ela, é considerada a primeira criminosa célebre dos EUA [1892] por quebrar vários [...]