Uma Janela Para O Amor / A Room With a View

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Ou: Da desnecessidade de refazer o que já estava bom.

Enquanto vasculhava a filmografia do ator Mark Williams no iMDB para o post da nova adaptação de Sense and Sensibility, tropecei com uma informação bombástica [pra mim, quero dizer]: em 2007 fizeram uma nova versão também de Uma janela para o amor [A room with a view] de 1985. Desta vez não foi em forma de minissérie e sim um telefilme para o canal ITV, mas o roteirista era o mesmo Andrew Davies responsável pelas minis Orgulho e Preconceito [1995] e Razão e Sensibilidade [2008] da BBC. Da primeira eu gostei muito, da segunda nem tanto, então fui conferir qual era a do cara.

Para ser justa e evitar o efeito espelho [comparar as duas obras] não reassisti o filme original de James Ivory e Ismail Merchant antes de ver o telefilme dirigido por Nicholas Renton.

Ignore o fato de que o filme é um dos meus Top Favoritos Foréva, já o vi umas quinze vezes e quase sei os diálogos de cor.

Helena Bonham-Carter (1985) e Elaine Cassidy (2007)

Lucy Honeychurch: Helena Bonham-Carter (1985) e Elaine Cassidy (2007)

Primeiro problema detectado: não criei empatia com os personagens. Eles falam demais por não ter nada a dizer [salve Legião]. Falando especificamente da atriz que interpreta a heroína Lucy Honeychurch, achei a interpretação de Elaine Cassidy chichê, clichê, clichê. A expressão corporal é histriônica, às vezes até meio descontrolada. Tudo é soletrado, ela não consegue se expressar a não ser por palavras. Esse problema se repetiu com os outros personagens, era uma tagarelice irritante.

Outro problema foi o ator que tentou encarnar o filosófico excêntrico questionador George Emerson. Rafe Spall é filho de Timothy Spall [o Peter Pettigrew de Harry Potter e que substituiu Denholm Elliott no papel do pai de George], a ele falta um não sei quê, que nasce não sei onde e dói não sei por quê [senquis, Camões]: falta-lhe poesia, sutileza e sensualidade. Se tivesse trocado de papel com o Laurence Fox ficaria mais convincente como o esnobe misógino e pernóstico Cecil Vyse e vice-versa; Fox apareceu mais fazível do que Spall.

Rafe Spall também está no elenco de Wide Sargasso Sea, que é uma prequela de Jane Eyre escrita por Jean Rhys e conta a história de Antoinette [Bertha] Mason, primeira esposa de Edward Rochester. Sim, Rafe Spall no papel de Edward Rochester. Eu não vou assistir porque não quer ter meu coração partido irremediavelmente.

Julian Sands (1985) e Rafe Spall (2007)

George Emerson: Julian Sands (1985) e Rafe Spall (2007)

As novas interpretações das personagens Charlotte Bartlett e Eleanor Lavish são razoáveis – seriam OK se Sophie Thompson e Sinéad Cusack não precisassem competir com Dames Maggie Smith e Judi Dench, é até covardia. Eu gostei em parte do novo Mr. Beebe, o reverendo que adora uma fofoca – de certa forma, Mark Williams repetiu o papel mais tarde em Sense and Sensibility, mas desgostei imensamente da insinuação que Davies deixou transparecer sobre suas preferências.

Dando pitaco ainda em área que não me compete, achei também que a fotografia não favoreceu nem a Toscana, onde se passa a primeira metade da história, nem o pequeno vilarejo inglês da segunda parte. O planos são fechados, na maioria das vezes, e as cores são monótonas. Lembro que pensei “sinfonia de bege” logo na cena inicial. A única parte que se salva é Roma, onde Lucy reencontra Cecil.

Momento da fofoca: Laurence Fox é pai do filho de Billie Piper, a Rose de Doctor Who.

Daniel Day-Lewis (1985) e Laurence Fox (2007)

Cecil Vyse: Daniel Day-Lewis (1985) e Laurence Fox (2007)

Mas esses detalhes sozinhos não me fariam detestar esse remake, no máximo me deixariam indiferente. O grande problema foi uma invenção do roteirista que, além de infiel ao livro, é un-canon! Um epílogo do tipo “dez anos depois” que mata todo o espírito da obra! O filme de 85 termina como o livro, cê sabe, Spoiler –> Lucy e George no mesmo quarto com vista em Florença em momento sensual, conversando sobre Charlotte <– Fim do Spoiler.

O remake tem essa parte – e, assim como em S & S, com cenas de nudez e fornicação gratuitas – mas insere uma Spoiler –> Lucy sozinha em Florença, em 1918, refazendo passeios que tinha feito em 1908 com George. George morreu como soldado na Primeira Guerra Mundial. Ela reencontra Paolo, o condutor de charrete, que ele não interpretou errado quando ela lhe perguntou sobre o “buoni uomini”, que a levou até George no piquenique na primeira viagem à região, e ele explica que não foi por engano <– Fim do Spoiler Foi outro Momento Soletrando desnecessário – digo, foi necessário porque o roteirista ou o diretor ou os atores não conseguiram transmitir isso apenas pela atuação.

Espero que o escritor E. M. Foster mande uma Maldição Vexatória no responsável pelo epílogo. Como diz meu tio, filosoficamente, o cara cagou e sentou em cima. Perdoe o latim.

Aqui, veja, perceba a diferença. Repare na economia de palavras, na precisão da expressão corporal, na fotografia, no encaixe perfeito da música na versão de James Ivory e me diga: precisa de epílogo pra explicar esta cena?

Link http://www.youtube.com/watch?v=CVNDBda6MgI

Um quarto com vista é uma comédia de costumes que conta a história da jovem Lucy Honeychurch. Ela é de família rica mas não da alta sociedade, sem pedigree nem tradição. Mrs. Vyse despreza a mãe e o irmão de Lucy pelas maneiras simplórias, mas concorda que seu filho Cecil a peça em casamento porque a moça tem talento e alguma graça. Lucy o rejeita duas vezes e viaja para a Itália na companhia de uma prima pobre, Charlotte Bartlett.

Na pensão Bertollini encontram-se com outros turistas ou expatriados ingleses: Mr. Emerson, um socialista; George Emerson, filho dele e livre-pensador; as irmãs Alan, solteironas que viajam muito; Mr. Beebe, vigário da paróquia da família Honeychurch, e Eleanor Lavish, escritora de romances.

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Essa temporada na Itália é uma oportunidade para Lucy conhecer a si mesma e a seus desejos. Quando retorna à Inglaterra, fica dividida entre eles e as convenções sociais. A história se passa em 1908, durante o reinado de Edward 7º, filho da rainha Victoria.

A longa Era Vitoriana foi marcada pelo controle das emoções e disciplina dos desejos, além do respeito às convenções e separação de classes [como a prima Charlotte]. Edward liderava a elite em sua apreciação pela arte e pelas viagens ao continente europeu com o objetivo de apreciar a arte [como Cecil]. O Período Eduardiano coincidiu com o novo século e foi marcado por transformações sociais e a ascenção do proletariado [como George!].

Este período só terminou com a 1ª Guerra Mundial em 1918, já no reinado de seu filho George 5º, o que em parte explica a opção de Andrew Davis de… fazer o que fez no epílogo. Mas eu não perdoo. Ele ainda tem um crédito comigo por O diário de Bridget Jones e Bridget Jones: No limite da razão [além da mini Pride an Prejudice], mas tá gastando bem rápido.

George Emerson: He’s the sort who can’t know anyone intimately, least of all a woman. He doesn’t know what a woman is. He wants you for a possession, something to look at, like a painting or an ivory box. Something to own and to display. He doesn’t want you to be real, and to think and to live. He doesn’t love you. But I love you. I want you to have your own thoughts and ideas and feelings, even when I hold you in my arms.

Se um dia você assistir ao telefilme A room with a view de 2007, plis, eu lhe peço um favor: assista ao filme de 1985 logo em seguida, que é pra enxaguar o sabor amargo que ficou. Ou leia o livro! Eu tive que fazer as duas coisas.

Personagem 1985 2007
Mrs. Honeychurch Rosemary Leach Elizabeth McGovern
Lucy Honeychurch Helena Bonham-Carter Elaine Cassidy
Freddy Honeychurch Rupert Graves Tag Stewart
Charlotte Bartlett Maggie Smith Sophie Thompson
Reverendo Beebe Simon Callow Mark Williams
Mr. Emerson Denholm Elliott Timothy Spall
George Emerson Julian Sands Rafe Spall
Mrs. Vyse Maria Britneva Christine Kavanagh
Cecil Vyse Daniel Day-Lewis Laurence Fox
Eleanor Lavish Judi Dench Sinéad Cusack
Catharine Alan Fabia Drake Sheila Reed
Teresa Alan Joan Henley não creditado
Reverendo Eager Patrick Godfrey Timothy West
Signora Bertolini Amanda Walker Gilda Gradi

Serviço
Entrada do livro no Wikipedia, em inglês
Download do livro no Project Gutenberg, em inglês
Hotsite do filme no site MerchantIvory
Hotsite do telefilme no ITV
Trailer do filme [1985] no Dailymotion
Trailer do telefilme [2007] no Youtube

V. artigo de Aramis Millarch escrito em 1987 para o filme.

V. post Guia Baedeker no blog A Casa Torta.

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16 comentários sobre “Uma Janela Para O Amor / A Room With a View

  1. Grande lição de história social! Adoro filmes que retratam a Inglaterra vitoriana que James Ivory tão bem sabe fazer. Adoro tbém aquele ar esnobe dos aristocratas, que não pode faltar nos contos da época! Vou ver se aqui tbém vai pssar esta nova versão.

  2. Posso te fazer uma perguntinha? Como vc faz para assistir essas adaptações inglesas? (Agatha Christie, Jane Austen, etc) Eu vivo atrás mas nunca acho.
    Lembro que assisti aquela com o Rupert Penry-Jones (Persuasion, eu acho) no youtube! Mas não lembro muito bem.
    Queria muito ver Casanova, mas não acho em canto algum para baixar.
    Como vc assiste?

  3. Outro bom artigo e análise, Naomi! Comparando os dois elencos, é mesmo covardia competir com a turminha de 1985! Só tem fera ali!

    Aliás, cá pra nós, pra quê refazer o que já está bom? Depois de Psicose o povo já devia ter aprendido…

    Beijocas!

    Cris

  4. HÉIN???
    Refilmaram ‘A Room with a View”? Aquele maravilhoso com a Elena Boham Carter com cara de gente? Julian Sands liiiiiiiiiiindo pré-Warlock? Daniel Day-Lewis mais bocó, impossivel? JURA?
    Caracas… imperdoável. Como é que um cerumano tem coragem de fazer isso?

    Quantas perguntas, né? Mas é por causa do estado de choque, dá um descontinho, vai…

    Que tristeza.

    O original também está entre os meus top “10 Romances of all times” e não dá para imaginar a docura do clima e do elenco original numa refilmagem.

    Ai, fiquei triste agora.

    Beijos

  5. luma, ele tem uma assinatura, né? a gente vê um filme e sabe que é dele sem precisar olhar nos créditos; se ‘atonement’ e ”the duchess’ fossem de james ivory acho que eu já teria assistido :lol:

    mica, xi, é uma luta achar trabalhos não-americanos pra baixar! espia:
    . jane eyre e orgulho e preconceito da bbc peguei no http://www.islifecorp.com.br [rmvb com legenda embutida]
    . razão e sensibilidade peguei o avi no mininova.org e as legendas no legendas.tv; a room with a view tb foi no mininova, mas não achei legenda
    . alguns ep de poirot, marple e sherlock holmes assisti no canal hallmark
    . alguns ep de poirot e marple baixei do megaupload a partir de links num blog que foi fechado :(; rmvb com legenda, uns em pt, uns em espanhol.
    é difícil mesmo de achar, e qdo é em blog eles fecham pouco tempo depois.

    cris, e agora ‘tão falando em refilmar footlose – com o zac efron no papel que foi do kevin bacon! esse povo perdeu o amor à vida, viu… [nem vi o psicose novo, o que vc achou dele?]

    chris, pior que é verdade, cometeram esse sacrilégio [julian sands é um pedaço de homem, né?] essa versão nova só serve de desculpa pra rever o original :)

  6. Naomi, vc ainda tem os arquivos que baixou? Se ainda tiver, quer fazer uma negociata comigo? Grava em DVD e eu te pago os custos de DVD e envio?
    Se não for possível tudo bem….eu faço uma caça às bruxas na internet, nos torrents, nos sites de legendas..hhehhe

    Tem dois filmes que eu quero muito ver (acho que já comentei contigo) que é The Ruby in the Smoke e The Shadow in the North. Já baixei os dois e fiquei postergando assistir para ver se achava legenda em algum canto (a pronúncia da Billie Piper é sofrível), mas não acho em lugar algum. Cheguei até a pensar em encomendar o DVD, mas decidi que vou tentar assistir sem legenda mesmo e, se gostar MUITO eu encomendo os DVDs, caso contrário fico com meu entendimento inglístico capenga mesmo.

    Falando em Julian Sands ser um pedaço de homem, me fez lembrar da vez que eu assisti o filme que o Ripley é o Alain Delon. Meu Deus, como esse homem era lindo quando era novo!

  7. mica, eu tou mesmo precisando liberar espaço no hd pra baixar wuthering heights [quando estiver disponível], aí aproveito e faço 2 cópias. me manda seu endereço por email, ok?

    ah, pode ser em forma de arquivo mesmo, pra rodar no realplayer e no bsplayer? pq eu não sei gravar pra rodar no dvd player, nhai.

    alain delon, taí outro pedaço de homem que é totalmente fazível… e o sands ainda dá um bom caldo, baixei os 2 ep de ghost whisperer em que ele participou e ele continua bem aos 50 :lol:

  8. Ih, Naomi, nem queira saber….

    Psicose 2 aproveitou *todos* os planos e sequências do Hitchcock, não mudaram nadinha… ah, sim, agora é em cores! Um desperdício de tempo e dinheiro. E os atores não são ruins, Anne Heche, Viggo Mortensen, Vince Vaughn, e pontas de Julianne Moore e William Macy.

    (ah, sim, no comecinho – cena do hotel – o casal aparece em trajes um pouco mais à vontade que na primeira versão; pera lá, afinal é um filme ‘moderno’…)

    Ah, mas Footloose com Zac Efron é caça-níqueis descarado, não? Vixe…

    Beijocas,

    Cris

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  12. Olá Naomi

    Só hoje fui descobrir seu Blog através deste post do filme “Uma janela para o amor” que eu adoro!!!

    Gosto de tudo no filme: atores, fotografia, história, trilha sonora, tudo!! O diretor James Ivory é o meu favorito!! Adoro “Maurice”, “Retorno a Howards End”, “Vestígios do Dia”, principalmente!

    Semana passada comprei o CD da trilha original do filme e que é linda!!

    E quanto a refilmagem prá mim foi novidade, Desconhecia que existisse e creio mesmo que tenha ficado a desejar….

    Assim, gostaria de saber como fizeste para ver a segunda versão. Está no You tube ou foi exibida na TV!

    Desde já agradeço pelas informações e parabéns pelo Blog!

    Vladimir
    vladip2000@gmail.com

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