Qual é a função do narrador esportivo?

Ilustração de Reinaldo Figueiredo para a revista Piauí

Ilustração de Reinaldo Figueiredo para a revista Piauí

No domingo assisti a dois eventos esportivos em sequência – não é tão raro de isso acontecer mas, não sei o motivo, desta vez me peguei encafifada com uma questão. Ou talvez eu saiba, já que tou injuriada com o cara desde as 500 Milhas de Indianapolis no mês passado.

Naquele dia fiquei com a sensação final de que a corrida tinha sido tediosa [cheguei a cochilar na metade]. Daí estava a ler as notícias posteriores e percebi que não foi; o que me aborreceu foi a narração. Eu gosto de FIndy, mas não tenho tempo de acompanhar tudo o que é publicado a respeito.

Gosto de assistir à prova na TV e ser informada do que está acontecendo: desde os pequenos detalhes mecânicos até a informação mais prosaica que cheire a fofoca, tipo quem namora quem. Conversas de bastidores, estatísticas, fatos históricos e geográficos, análises de performance comparada, conhecimento trivial, cultura pop relacionada… Esse é o tipo de coisa que vi muito nas transmissões de futebol americano e da Nascar.

Daí chega o cara nas 500 Milhas [ou no jogo da seleção conta a Itália, por exemplo] e se limita a apenas narrar o que acontece com os pilotos brasileiros, torcer e se lamentar, apoiando-se mal e porcamente no pouco que é fornecido pelo comentarista e pelo repórter de campo nas escassas oportunidades que lhes concede.

Tá, se a gente pensar etimologicamente [eita! isso existe?], a função do narrador é narrar, verbalizar aquilo que ele vê. Mas se o cidadão não quer informar/analisar, que também não torça, cáspite.

Acho que essa questão ficou fermentando na cabeça caus que ouvi a narração do Celso Miranda para o GP de Iowa logo antes do futebol e gostei. Ele não usa bordões nem chavões, não berra [aleluia, irmão!] e usa seu conhecimento na área para repassar informação de forma clara para quem entende do assunto e didática para pessoas distraídas como eu.

Reconheço que, neste caso, ele leva uma ligeira vantagem competitiva sobre o outro porque o Celso Miranda é repórter especializado em velocidade, enquanto o outro narra qualquer evento esportivo. Por outro lado, o narrador acha que essa versatilidade significa que ele sabe tudo sobre todos os esportes que narra e se expõe a dizer bobices.

Jogo de futebol Brasil x Itália. Narrador onisciente indignadíssimo com a falta cometida pelo jogador adversário:

Lá vem o juiz! Ele vai tirar o cartão, não, não deu cartão, ISSO É FALTA PRA CARTÃO!!!, não é, ex-árbitro comentarista ranqueado pela FIFA?

Ex-árbitro comentarista ranqueado pela FIFA responde na lata:

Não.

Sem um gelol, sem um “não, foi jogada normal”, “não, o jogador não teve má intenção”. Mais no gênero “não, tá doido?” E aí o narrador onisciente disfarça e dá uma patada no outro comentarista, ex-jogador de futebol, dizendo que ele tem que tornar as informações mais didáticas para as mulheres conseguirem entender. Engraçado. Eu sou mulher e entendo o ex-jogador, mas não entendo o narrador onisciente.

Ainda bem que encontrei este artigo da revista Piauí que traduz o que os narradores esportivos querem dizer quando ligam o gerador de lero-lero:

Quando o narrador garante que o time precisa tocar mais a bola – é porque o narrador não sabe absolutamente do que o time precisa. [Blog Produção de rádio]

Mas, voltando à questão inicial, e aí: qual é a função do narrador esportivo?

Fonte da imagem: Produção de rádio

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10 comentários sobre “Qual é a função do narrador esportivo?

  1. A função do narrador…

    De todos eu não sei, mas do Galvão Bueno eu tenho certeza de que é me irritar. Ele me irrita tanto quanto a ansiedade pelo jogo, ai eu fico xingando ele e esqueço um pouco a tensão pela ansiosa vitória.

    Como fala besteira o Sr. Galvão.

    Ouvi dizer que ele veio em BH para o jogo da seleção e não foi muito bem recebido não, eu não o receberia de braços abertos. Bairrista, Galvão disprestigia com vontade times que não sejam do Rio e SP.

    Não assisto a Indy, já assisti F1, agora eu sou do vólei, e geralmente nem me importo muito com o narrador, fico ligada nos comentaristas, que geralmente são ex-jogadores, estão sempre ligados e muito informativos.

    bjs

  2. Você já assistiu um futiba sem narrador, mas com trilha sonora?

    Aprendi a fazer isso com a TV Cultura dos anos 80, onde tinha o programa Vitória, domingos à noite depois da rodada e mostrava os gols como se fossem clipes. Rolava ac/dc, ramones, barão vermelho, geral.

    Are You Experienced?

    Vai lá e diz.

    Besos!

  3. Eu ando meio desasimada com a qualidade da TV, e em especial com as transmissões esportivas. Nada a comentar sobre o Sr. GB, até porque podem cair por aqui de paraquedas e te causar problemas.

  4. Lemberi de um tio meu, que tava no estádio, aí um torcedor do lado perguntou ao outro, que tava com o rádio no ouvido, se o rádio tava dizendo que o time estava jogando bem…

    Com o advento da TV os narradores perderam a função, aí tentaram fazer qualquer coisa. Ou então fariam como faz Silvio Luiz: “hoje é dia da madame fazer aquela macarronada… olho no laaaanceeeeeeeeeee… Aquela macarronada com um franguinho pra acompanhar… NO PAU…”
    Mas o onisciente/onipresente/onipotente/onidemente sempre acha que sabe alguma coisa a mais do que qualquer um, ainda que esse “um” seja de fato um especialista.
    Aí uma pessoa, do meu naipe, que já não gosta de futibó basta ouvir “a voz” pra sair desembestado ladeira abaixo…

  5. A comunidade masculina não gosta das fofocas, as trivialidades do cotidiano que a comunidade feminina adora.
    Moral da história? Galvão Bueno não é bem quisto pela comunidade masculina. Eles querem só ouvir sobre as técnicas e nada mais.

    No papo – rolava o jogo da Libertadores – e o Galvão nada! Acho que estava na Band…
    Eu já tinha dito para eles desse perfil a ser atendido: a comunidade feminina.
    E, lá ficava eu admirando as cores dos uniformes. E, lá pelas tantas vejo o juiz de verde refletivo e comento.
    Eles ficaram felizes!
    Porque preferiram os comentários femininos ditos pela voz feminina do grupo. :lol:

    Quem sabe nas demais transmissões não rola esse estresse?! ;)

  6. Pingback: Quebra de compromisso, narrador esportivo, comentarista: enlouquecendo com a Olimpíada de Inverno « Batata Transgênica

  7. Pingback: Indy500 2010 « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  8. O mais ‘engraçado’ é o narrador que começa a antever as coisas antes delas acontecerem de fato…. Por exemplo, o time precisa ganhar e começa com 1×0 e então, começam as conjecturas… daí há pouco, o adversário vira o jogo e eles ficam com cara de tacho…. Fora isso, os chavões “tem muito jogo pela frente”, “Esse time tem muita tradição”, “Vai fazer história” e outras bobagens vão sendo ditas durante a transmissão.
    Questões que afrontam a lógica também… Exemplo: “o time TAL joga por resultados iguais” – pela lógica, se ele perder duas vezes pelo mesmo placar deve classificar, né?
    Outra: Numa falta dizem que “jogadores estão atrás da linha da bola…” Ora, só a bola em movimento descreve uma linha, a saber, a sua trajetória…
    Meu Deus!!! quanta besteira…

  9. Pingback: Indy 500 | 100 Anos « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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