Blogagem coletiva | E meu Oscar vai para… O Homem que Não Vendeu Sua Alma

Blogagem coletiva

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Este post faz parte da blogagem coletiva proposta pela Vanessa do Fio de Ariadne. O objetivo é comentar filmes que venceram o Oscar e meio que defender a escolha da Academia, isto é, explicar por que você acha que determinado filme mereceu ganhar a estatueta. Eu vou comentar O Homem Que Não Vendeu Sua Alma, mas não sei se cumprirei o requisito. Vejamos.

No século 16, o rei da Inglaterra Henrique 8º [Henry, para os íntimos] estava aflito para gerar um filho homem e perpetuar a dinastia Tudor. Ele era casado com Catarina de Aragão, a viúva de seu irmão primogênito, que era neta dos reis espanhois Fernando de Aragão e Isabel de Castela [Tratado de Tordesilhas, alguém?] e, portanto, prima do Imperador Carlos 5º da Espanha, todos muy católicos e com enorme influência sobre Roma graças aos laços abertos das suas bolsas de couro.

Acontece que Catarina gerou uma menina [Mary] e depois não conseguiu mais levar uma gravidez adiante. Henry estava apavorado com a possibilidade de ser o último governante Tudor. Ele então mexeu todos os seus pauzinhos para conseguir a anulação do casamento com Catarina para estabelecer novos laços matrimoniais [eita nóis] com Ana Bolena [aka Anne Boleyn]. Acontece que o Papa da época devia muita grana influência lealdade ao primo de Catarina e negou a anulação. Além disso, com a expansão do movimento reformista luterano pela Europa, ele não podia se arriscar.

Capa do DVD

Capa do DVD

Irado, Henry cortou relações com a Igreja Católica Apostólica Romana [que, ademais, tinha papel dominante nas decisões governamentais, de Justiça, participação nos lucros dos impostos, etc. - falemos de Estado laico, sim?], incitado especialmente pelo seu Primeiro-Ministro Thomas Cromwell, protestante. Porém, em vez de converter-se à religião de Lutero, Henry funda sua própria Igreja, a Anglicana. Anula o casamento com Catarina e declara Ana Bolena a nova Rainha da Inglaterra.

Parênteses: pensei no Jonathan Rhys-Meyers todo o tempo em que escrevi o parágrafo anterior. Bless you.

Em tais decisões, Henry contou com a oposição feroz do Arcebispo da Cantuária [por motivos óbvios], o Cardeal Wolsey, e do próprio Lorde Chanceler, Sir Thomas More.

Lorde Chanceler é o título do presidente da Câmara dos Lordes, que desempenha, simultaneamente, a função de ministro da Justiça e de presidente do Tribunal da Chancelaria. [Wikipedia]

Até aí, qualquer pessoa que se lembre das emboloradas aulas de História ou que tenha assistido às duas primeiras temporadas da série The Tudors sabe.

Pôster original

Pôster original

Sir Thomas More [ou Morus, em sua forma latinizada] era um católico praticante e passional, um filósofo com trabalhos publicados defendendo a aplicação intransigente dos dogmas e princípios de Roma. Ele e Cromwell batiam de frente em todas as questões possíveis, tornando o reinado de Henry um inferno. Com a vitória da posição de Cromwell na questão do casamento, More acabou preso num dilema de consciência: deveria ele reconhecer Anne Boleyn com sua Rainha legítima ou manter-se fiel a Catarina?

Primeiro ele tentou uma solução tucana e manteve-se em silêncio mas, como diz a capa do DVD, “seu silêncio era mais poderoso do que as palavras”. Então o Rei tentou dobrá-lo e instituiu o Juramento de Supremacia obrigatório, sob pena de alta traição a quem se negasse a tomá-lo.

Adivinha quem se negou?

Não faço mal a ninguém; não falo mal de ninguém; não penso mal de ninguém. E se isso não é suficiente para que um homem possa viver, de boa-fé eu não desejo viver. [Thomas More, em seu julgamento]

Tadá!

Vanessa Redgrave e Robert Shaw

Vanessa Redgrave e Robert Shaw

O filme O Homem Que Não Vendeu Sua Alma [A Man For All Seasons, Inglaterra/1966] conta a história pela perspectiva de Sir Thomas More, interpretado pelo ator Paul Scofield, que fez o mesmo papel na peça homônima de Robert Bolt. O próprio Bolt escreveu o roteiro do filme dirigido por Fred Zinnemann. Orson Welles ficou com o papel do deformado Cardeal Thomas Wolsey e diz ter dirigido a si mesmo em suas [poucas] cenas. Quanto disso é verdade e quanto é fanfarronice do ator, só Deus sabe. Em todo caso, tanto Welles quanto Scofield foram escolhas do diretor, contra os produtores que queriam Alec Guinness e Laurence Olivier para os seus personagens.

Robert Shaw faz um Henrique 8º petulante e bufante, enquanto Vanessa Redgrave arrebata como Ana Bolena num papel em que a atriz se recusou a ser paga. Seu irmão Corin aparece como Will, um católico que se converte ao luteranismo. Richard Burton foi convidado para o papel de Thomas More mas recusou. Ironicamente, ele concorreu ao Oscar no mesmo ano [1967] com Quem Tem Medo de Virginia Wolf? Nas seis categorias em que ambos os filmes concorreram diretamente, O Homem Que Não Vendeu Sua Alma venceu quatro [filme, ator principal, diretor e roteiro adaptado] enquanto Quem Tem Medo de Virginia Wolf? bateu o filme de Zinnemann na categoria atriz coadjuvante [ambos perderam a de ator coadjuvante].

Mas, porém, contudo, todavia… Quem Tem Medo de Virginia Wolf? continua a ser lembrado e citado nas listas de filmes clássicos obrigatórios [assim como o George de Richard Burton] enquanto O Homem Que Não Vendeu Sua Alma nem tanto.

Paul Scofield e Susannah York

Paul Scofield e Susannah York

Por um lado, o espectador tem que esquecer muitas coisas a respeito de Thomas More para apreciar devidamente a caracterização quase santificada que o filme faz dele. Tem que esquecer, entre outras coisas, que era um cara que se comprazia em queimar pessoas na fogueira – e não estou falando em sentido figurado, aqui. Ele praticamente riscava o fósforo que acendia o fogo debaixo das pessoas que professavam a fé protestante. Isso não combina muito com o ideal de humanismo e retidão de caráter propostos pelos roteiro, pois pois?

Sir Thomas More: [talking to the witnesses for his execution] I am commanded by the King to be brief, and since I am the King’s obedient subject, brief I will be. I die his Majesty’s good servant but God’s first.
[to the executioner]
Sir Thomas More: I forgive you right readily.
[he gives him a coin]
Sir Thomas More: Be not afraid of your office; you send me to God.
Archbishop Cranmer: You’re very sure of that, Sir Thomas?
Sir Thomas More: He will not refuse one who is so blithe to go to him.
[he kneels and puts his head on the chopping block]

Tem que esquecer também, se for o caso, a sua posição pessoal quanto a alguns dos pontos que ele defendia com tanta intransigência, como a indissolubilidade do matrimônio, pra começar. A palavra-chave é intransigência. Tanto nas questões abertas à interpretação pessoal quanto nas mais filosóficas, referentes à ética e à moral, More era escrupuloso. Não admitia “jeitinho”, não admitia “lei da vantagem” e deveria ter sido um opositor feroz do utilitarismo, se fosse vivo quando esse pensamento surgiu.

Mais ainda, More não se quebrava sob a pressão do poder. Ele nem mesmo se curvava “como o salgueiro”. Podemos não concordar com seus pontos de vista, mas ele merece alguma admiração por manter-se fiel aos seus princípios éticos e morais, colocando não apenas sua cabeça a prêmio mas também todo o bem-estar e segurança da família.

Por outro lado, de certa forma, assistir ao filme me faz lembrar dessa foto:

Tian'anmen, 1989

Tian'anmen, 1989

É por isso que O Homem que Não Vendeu Sua Alma me é um filme inesquecível.

Trailer de A Man For All Reasons com algumas legendas


Link http://www.youtube.com/watch?v=AsPjqn02Z-o

Sinopse do DVD
Vencedor de 6 Oscar® incluindo de melhor ator, melhor diretor e melhor filme! Sir Thomas More (Paul Scofield), um chanceler inglês católico romano, se envolve em uma situação complicada quando o corrupto Rei Henrique VIII (Robert Shaw) o obriga a aprovar seu divórcio com sua esposa e realizar o casamento com sua amante.
Extremamente dividido entre sua consciência e suas obrigações com o rei, Sir Thomas decide permanecer em silêncio, o que provoca a ira do rei. O resultado é uma batalha de poderes repleta de intrigas do palácio, manobras políticas e o destino do Homem, da Igreja e do país. No final, o silêncio dele falou mais alto.

Robert Shaw

Robert Shaw

Ficha técnica
O Homem que Não Vendeu Sua Alma
Título original: A Man for All Seasons
Gênero: Drama
Duração: 01h55
Ano de lançamento: 1966
Estúdio: Open Road
Distribuidora: Columbia Pictures
Direção: Fred Zinnemann
Roteiro: Robert Bolt, baseado em peça teatral de Robert Bolt
Produção: Fred Zinnemann
Música: Georges Delerue
Fotografia: Ted Moore
Fireção de arte: Terence Marsh
Figurino: Joan Bridge e Elizabeth Haffenden
Edição: Ralph Kemplen

Elenco
Paul Scofield (Sir Thomas More)
Wendy Hiller (Alice More)
Leo McKern (Thomas Cromwell)
Robert Shaw (Rei Henrique VIII)
Orson Welles (Cardeal Wolsey)
Susannah York (Margaret More)
Nigel Davenport (Duque de Norfolk)
John Hurt (Richard Rich)
Corin Redgrave (William Roper)
Colin Blakely (Matthew)
Cyril Luckman (Arcebispo Cranmer)
Jack Gwillim (Chefe de justiça)
Vanessa Redgrave (Ana Bolena)

Orson Welles e  Paul Scofield

Orson Welles e Paul Scofield

Serviço
Artigo Cinema, Política E Moral: O Homem Que Não Vendeu Sua Alma, de Fabrício Teixeira Neves [PDF]
Crítica de Gilberto Silva Jr. para a revista Contracampo
Crítica de Rubens Ewald Filho à época do lançamento do DVD [4/5]
Ficha no iMDB
Verbete na Wikipedia [em inglês]

Paul Scofield e  Leo McKern

Paul Scofield e Leo McKern

Para saber mais
Artigo Integrity and Conscience in the Life and Thought of Thomas More do Prof. Gerald Wegemer para o site do Thomas More Institute
Ensaio Sir Thomas More: A Man for One Season de James Wood
Fonte de pesquisa sobre a Utopia de Thomas More [em inglês]
Hotste Trial of Sir Thomas More – Faculdade de Direito da Universidade de Missouri-Kansas City
Verbete Saint Thomas More no Índice de Santos Patronos [em inglês]
Verbete St. Thomas More na Catholic Encyclopedia [em inglês]
Post A doença inglesa do suor, do Henderson Bariani

Orson Wlles como Cardeal Wolsey

Orson Wlles como Cardeal Wolsey

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O DVD de O Homem que Não Vendeu Sua Alma foi lançado pela Sony no Brasil, mas já está esgotado/fora de catálogo. Passa pelo menos duas vezes por ano no TCM.

Charlton Heston queria muito o papel principal, mas ninguém lhe deu importância. Em 1988 ele produziu a sua própria versão para TV e trouxe Vanessa Redgrave de volta, desta vez como Alice, esposa de Thomas More. Não assisti.

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8 comentários sobre “Blogagem coletiva | E meu Oscar vai para… O Homem que Não Vendeu Sua Alma

  1. Pingback: E o Oscar foi para… « Cinema é Magia

  2. Uau! Que aula de história e cinema!

    Parabéns pelo excelente artigo, gostei muito e fiquei com vontade de ver o filme. Apesar de lembrar alguma coisa das empoeiradas aulas de história, é outra coisa saber dos detalhes do jeito que você conta.

    Mais um pra minha listinha…

    Beijos!

  3. A versão de Heston não dá nem pra comparar com o time de Scofield, Shaw e Welles… Eu adoro a peça e o filme original, as discussões que a gente tem em sala de aula são fantásticas, justamente pela posição intransigente (mas admiravelmente firme) de Thomas More. Pra mim, o trecho que define tudo é este aqui, onde More discute com seu genro sobre o poder da Lei (“Dou ao Diabo o benefício da Lei para minha própria segurança”). Acho a atuação de Robert Shaw brilhante também, principalmente no diálogo que ele trava com More nos jardins da casa, tentando convencê-lo a aderir à sua causa. Mostra bem o dilema do rei, mas ao mesmo tempo a profunda admiração que tinha pelo amigo, exatamente por este não se dobrar às bajulações da Corte. Realmente um filme imperdível, e bem fiel ao texto e tom da peça.
    Parabéns pela resenha!

  4. Pingback: E Meu Oscar Vai Para… All About Eve / A Malvada « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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