Desafio Literário | Auto da Compadecida

Sinopse
A peça teatral de Ariano Suassuna é uma comédia em três atos que mescla elementos da literatura de cordel nordestina e da tradição religiosa em uma história que envolve a avareza humana, a fé e mesmo algum teor fantástico com as aparições de Jesus Cristo, Nossa Senhora e o Diabo.

Considerada um clássico e aclamada pela crítica tão logo foi encenada pela primeira vez, a trama de “Auto da Compadecida”, que conta a história dos malandros João Grilo e Chicó, ganhou novo fôlego de popularidade recentemente ao ser adaptada para a televisão e para o cinema em produções homônimas.

Capa do livro

Capa do livro

Eu gosto tanto da minissérie e do filme adaptados desta obra que um de meus gatos se chama João Grilo, por ser amarelado – não amarelo, e sim cinza amarelado [e pensei em chamar Nestor de Chicó, mas acabou pegando Nestor mesmo]. Por muito tempo, ainda, peguei a mania de responder “Não sei, só sei que foi assim” com a mesma entonação do Selton Mello, e quando a coisa apertava eu soltava um “Ai como eu sofro!” ao estilo do Matheus Nachtergaele.

Devo ter irritado muita gente. :lol:

O filme de 2000 é muito fiel ao livro [que na verdade é uma peça teatral] exceto por alguns personagens: Rosinha, o Cabo Setenta e o valentão Vicentão não são desta peça [a historinha da porca é contada na peça O Santo e a Porca], também de Ariano Suassuna; o roteiro do diretor Guel Arraes ainda excluiu três personagens do livro na adaptação [o palhaço, o sacristão e o frade], mas, fora isso, os diálogos não tiveram muita alteração. Eu lia o livro e “ouvia” os atores recitando suas falas na minha cabeça, foi bem legal.

João Grilo: Ah, isso é comigo. Vou fazer um chamado especial, em verso. Garanto que ela vem, querem ver? (Recitando.) Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré! A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer. A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé. Já fui barco, fui navio, mas hoje sou escaler. Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher.
Encourado: Vá vendo a falta de respeito, viu?

Um auto é uma representação teatral “em que se tematizam situações de caráter religioso, moral ou cômico. [...] Na tradição de língua portuguesa, os autos mais conhecidos parecem ser os de Gil Vicente, como por exemplo, o Auto da Barca do Inferno, em que desfilam diante de um diabo e um anjo uma série de pessoas recém-falecidas que se apresentam e recebem seu destino final: o paraíso ou o inferno.” [Glossário Brasil Brasis]

Regina Duarte em A Compadecida [1969]


Link http://www.youtube.com/watch?v=Ns3CZMuKyL0

“Segundo o autor, a peça nasceu da fusão de três folhetos de cordel: O enterro do cachorro, O cavalo que defecava dinheiro e O castigo da soberba” [Livros - Análises], ele criou-lhes uma narrativa, uma história. O palhaço é o personagem que representa o autor, ele narra a história para o público, chama a atenção para algum detalhe ao mesmo tempo em que participa da ação na peça. Os outros personagens representam categorias ou grupos de pessoas ou práticas que serão criticadas. Embora os autos sejam vinculados a uma moral católica, algumas críticas desta peça têm um caráter universal e não apenas religioso, como a subserviência aos poderosos [coronelismo], a sovinice e a falta de compaixão, o racismo, o abuso de poder, a exploração dos mais pobres, etc.

O grande aspecto positivo, IMHO, foi mostrar como a relação entre o homem e Deus é simples e desspojada, alegre até. Nada de rituais ou de solenidade.

A Compadecida: Não, João, por que iria eu me zangar? Aquele é o versinho que Canário Pardo escreveu para mim e que eu agradeço. Não deixa de ser uma oração, um invocação. Tem umas graças, mas isso até a torna alegre e foi coisa de que eu sempre gostei. Quem gosta de tristeza é o diabo.
João Grilo: É porque esse camarada aí, tudo o que se diz ele enrasca a gente, dizendo que é falta de respeito.
A Compadecida: É máscara dele, João. Como todo fariseu, o diabo é muito apegado às formas exteriores. É um fariseu consumado.

Que é, afinal, o resultado obtido: apesar do tema [Bem x Mal], do enfoque religioso e da crítica social, a obra é divertida, faz pensar enquanto se ri. Eu não sei qual a opinião dos adeptos de outras religiões [e os ateus e agnósticos] ao ler este livro, mas, se me permite dizer, dê-lhe uma chance. É uma obra-prima da literatura brasileira.

Os Trapalhões no Auto da Compadecida [1987] – primeiros 10 minutos


Link http://www.youtube.com/watch?v=ozz9fy6l21I

Ariano Suassuna é advogado, professor universitário, poeta e dramaturgo, fundador do Movimento Armorial, dedicado a pesquisar e difundir as formas de expressão populares tradicionais nordestinas. Foi calvinista, agnóstico e mais tarde converteu-se ao catolicismo. É membro da Academia Brasileira de Letras desde 1990.

A primeira adaptação de Auto da Compadecida para cinema data de 1969. Nesta versão Armando Bógus era João Grilo, Antônio Fagundes era Chicó e a Nossa Senhora era Regina Duarte [tinha também Felipe Carone e Ary Toledo no elenco de A Compadecida, título desta versão]. Em 1987 saiu a versão do grupo cômico Os Trapalhões no Auto da Compadecida, com Didi e Dedé nos papeis principais, Zacarias como padeiro e Mussum como o frade e Jesus.

A minha versão preferida é O Auto da Compadecida de Guel Arraes para a TV Globo em 1998; a minissérie foi editada para o cinema em 2000, com 100 minutos a menos. A dupla João Grilo e Chicó é interpretada por Matheus Nachtergaele e Selton Mello, a Compadecida é Fernanda Montenegro, o Diabo é Luís Melo, Marco Nanini interpreta Severino, e… Nossa, o elenco todo é uma delícia de se ver atuando, dizendo as falas de Suassuna, dando vida aos personagens duma tal forma que eu me apeguei a eles e lhes relevava os pecados por simpatia – e olhe que de compadecida eu não tenho é nada!

E agora fiquei com vontade de rever o filme pela 37ª vez. :)

Então, ao escrever o Auto da Compadecida, em 1955, o senhor ainda não tinha consciência do problema racial brasileiro?
Isso mesmo. Tanto que na primeira versão o Cristo era branco. A mudança na cor da pele foi um momento de indignação meu motivado pelo comportamento dos americanos. Tinha visto na revista Life a foto e a notícia de um comício contra a inclusão das primeiras crianças negras nas escolas brancas dos Estados Unidos. Em primeiro plano na foto tinha uma mulher segurando um cartaz que dizia: “Deus foi o primeiro segregacionista ao criar raças diferentes”. Atribuir a Deus uma coisa tão odiosa quanto o racismo me deu uma raiva tão grande que na mesma hora mudei o texto e transformei o Cristo num negro. [Ariano Suassuna em entrevista para a Nova Escola jun/2007, via Planeta Sustentável]

O Auto da Compadecida [2000] trailer


Link http://www.youtube.com/watch?v=a3o1Y8491mA

Auto da Compadecida foi traduzido para alemão, espanhol, francês, italiano, polonês e holandês.

Serviço
Contexto histórico e obra no hotsite da Folha
Perfil do autor no site da Academia Brasileira de Letras
Verbete na Wikpedia

Auto da Compadecida no Google Livros

Para comprar o DVD da adaptação de Guel Arraes no Submarino.


Nota: 5

(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2010 [v. lista de livros agendados], tema Livro Adaptado Para Cinema.

Blog do Desafio Literário

Título: Auto da Compadecida [Brasil, 1955]
Autor: Ariano Suassuna [arianosuassuna.com.br]
Coleção: Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros
Editora: Folha de S.Paulo
Ano: 2008
ISBN: 978-85-9989-643-3
Especificações: Capa dura | 212 x 145 | 152 páginas

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28 comentários sobre “Desafio Literário | Auto da Compadecida

  1. Ariano quando era professor da ativa, na velha u-efe-pê-é, tinha as aulas mais disputadas da Universidade, a moçada amontoava bancas para assistir as aulas dele até nos corredores do Centro de Artes e Comunicação, assistia até quem não tinha nada a ver com a cadeira (meu caso, que nem no prédio estudava, e sim no prédio ao lado, de filosofia e ciências humanas, e no da frente, o bar do bigode… :D).

  2. Creio que quando li esse livro, estava no 1º ano do EM. Quando a professora pediu a gente que lesse, fiz cara feia, achava que seria um grande porre, mas a história acabou se tornando tbém uma das minhas favoritas.

    Parabéns pela resenha!

      • Minha flor, não li, não!
        Entre um livro e um filme existem adaptações que não me agradam.
        Bem verdade que eu perdoo sempre o diretor e o roteirista do filme!
        Passei por essa em Brumas de Avalon – uma saga com 4 livros e dois vídeos – e em Ayla a filha do clã das cavernas ou do Ayla a filha do clã dos ursos – a adpatação foi só do primeiro livro.
        Agora eu escolho, e quase sempre fico com o filme! ;)

  3. Sua resenha ficou ótima, muito bem escrita. Também foi muito legal você ter feito um levantamento dos filmes adaptados ou inspirados no livro.

    Adoro o filme, nunca tive o prazer de ler o livro. Vou tentar encontrá-lo e me deliciar na leitura.

    Bjoo.

  4. Pingback: Follow Friday Blogs #14 | Garota It

  5. Eu nunca li o livro, mas confesso que gosto do filme, que e muito engraçado!
    Adorei a resenha, e pelo que vi essa historia sofreu varias adaptaçoes…
    Deve ser interessante ler o livro, acho que vou tentar…

  6. Linda participação. O que me chama atenção é a forma como o texto e a imagem se entrecuzam formando esse cenário riquíssimo de pura arte. Essa história é divertidíssima e fico contente que figure entre os livros lidos no Desafio Literário.

    Beijocas

  7. Pingback: Blogagem Coletiva | Desafio Literário 2010 « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  8. Pingback: Retrospectiva Literária 2010, Top 5, Bottom 3 « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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