The Mirror Crack’d from Side to Side / A Maldição do Espelho

Daiquiri

Encha uma coqueteleira com cubos de gelo, adicione duas doses de rum Bacardi [branco], uma colher de sopa de açúcar e o suco de um limão. Agite bem. Coe e despeje sobre gelo raspado ou triturado num copo curto [o de martini serve], que deverá ter sido deixado gelando meia hora antes.

Existem variações feitas com o rum escuro, com licor no lugar do açúcar ou com frutas – morango, maracujá, banana – mas não se recomenda adicionar remédios, drogas ou venenos. Os efeitos colaterais dessa mistura são indesejáveis.

 

 

Marina Gregg: Elizabeth Taylor (1980), Claire Bloom (1992) e Lindsay Duncan (2010)

 

“Fora a teia se abria e esvoaçava;
O espelho quebrou de lado a lado:
‘A maldição se abateu sobre mim’,
gritou a Lady de Shalott.”

Agatha Christie foi educada em casa pela própria mãe, uma mulher que seguia as tendências da época, mas sempre teve contato com os clássicos [Charles Dickens era um de seus autores favoritos]. Além do poema A Lady de Shalott de Alfred Tennyson, que abre o post, a autora faz referência a outras obras culturais e personagens históricos neste livro, como Maria Rainha dos Escoceses, Elizabeth Imperatriz da Áustria, um quadro do pintor renascentista Giacomo Bellini.

O primeiro livro estrelado por Miss Jane Marple foi Assassinato na Casa do Pastor [1930]. Miss Marple já era, então, uma solteirona de cabelos brancos e faces rosadas que entretinha-se tricotando, cuidando do jardim e observando pássaros: passatempos muito úteis para bisbilhotar a vida no povoado de St. Mary Mead onde morava. Seu método de investigação é parecido com o de Hercule Poirot – ouvir e observar – mas ela acrescenta a experiência de vida na solução dos casos.

Miss Marple não poderia ser uma detetive amadora jovem ou mesmo de meia-idade. Seu conhecimento acumulado da natureza humana é que permite estabelecer paralelos entre as espécies de pessoas e os tipos de comportamento e crimes que são propensas a cometer. Segundo ela,  as pessoas tendem a seguir um padrão.

 

Miss Marple: Angela Lansbury (1980), Joan Hickson (1992), Julia McKenzie (2010

Miss Marple: Angela Lansbury (1980), Joan Hickson (1992), Julia McKenzie (2010

 

Tinha-se que encarar o fato: St. Mary Mead não era mais o mesmo lugar. Em certo sentido, naturalmente, todas as coisas tinham mudado. Você poderia culpar a guerra (as duas) ou a nova geração, ou as mulheres trabalhando fora, ou a bomba atômica, ou apenas o governo, mas o que realmente fazia sentido era o simples fato de que se estava envelhecendo. [Agatha Christie, A Maldição do Espelho, trad. Ana Maria Mandim. Nova Fronteira, 2005]

Algumas pessoas chegaram a sugerir que Agatha Christie teria se inspirado em si mesma para criar Miss Marple – talvez baseados nas fotos mais divulgadas da escritora, já idosa – mas quando o primeiro livro da velhinha mexeriqueira foi publicado em 1930 Agatha tinha apenas 40 anos. Ela também negou ter se inspirado completamente na figura da avó, embora admita que Miss Marple se parece em alguns pontos com a avó e as amigas dela.

A Maldição do Espelho é o último caso de Miss Marple em St. Mary Mead e se passa de novo em Gossington Hall, a maior propriedade do vilarejo, que já teve um cadáver em Um Corpo na Biblioteca. Dolly Bantry, a antiga dona, vendeu a propriedade após a morte do marido e a atual dona é uma atriz de cinema e seu novo marido diretor, Marina Gregg e Jason Rudd.

O casal oferece uma festa para arrecadar fundos e a secretária da associação beneficiada é envenenada durante a recepção. A essa altura todo mundo se lembra que a escritora trabalhou em dispensários farmacêuticos de hospital durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, ocasiões em que aprendeu muito sobre venenos e drogas, certo?

 

Agatha Christie com a filha Rosalind (1930)

 

Assim como aconteceu em Assassinato no Expresso do Oriente, Agatha Christie usou um caso real como pano de fundo na criação da trama, o caso do bebê Daria, filha da atriz Gene Tierney  e do designer de moda Oleg Cassini. E, assim como em Orient Express e outros livros da autora, a vitimologia é importante na solução do caso – a dúvida que fica aqui é saber quem é a vítima.

Miss Marple já “nasceu” velha, conforme comentei acima, e sua carreira transcorreu por mais de 45 anos, então Agatha Christie teve de fazer o tempo andar mais devagar para ela – mas, mesmo lentamente, o tempo não deixava de passar. Em A Maldição do Espelho, Miss Marple medita sobre as mudanças que duas guerras mundiais e a revolução dos costumes provocaram na sociedade e nos hábitos.

A seu modo, Agatha Christie foi uma boa cronista de uma determinada classe social de um determinado lugar em uma determinada época – ela escrevia sobre sua vila.

Este romance policial foi dedicado à atriz Margaret Rutherford, que interpretou Miss Marple em cinco filmes na década de 1960 – sendo que apenas um, Quem Viu Quem Matou? [adaptação de A Testemunha Ocular do Crime], antes do lançamento do livro A Maldição do Espelho.

Miss Marple não era, de modo algum, um retrato de minha avó; era muito mais atarantada e tinha suas manias de solteirona, o que não era o caso de minha avó. Havia entre elas, porém, algo comum: apesar de serem pessoas alegres, esperavam sempre o pior de todo mundo e de tudo, o que, com quase assustadora exatidão, sempre se provava certo. [Agatha Christie, Autobiografia, trad. Maria Helena Trigueiros. São Paulo: Círculo do Livro, 1989]

 

 

Madonna and the child, 1980

Madonna with the child, Giacomo Bellini, no filme de 1980 (Kim Novak)

 

The Mirror Crack’d / A Maldição do Espelho

Essa foi a terceira das quatro adaptações produzidas pelo genro de Lord Mountbatten [as outras foram Assassinato no Expresso Oriente 1974, Morte Sobre o Nilo 1978 e Assassinato num Dia de Sol 1982, todas estreladas por Hercule Poirot]. O roteiro de Jonathan Hales e Barry Sandler é pouco fiel ao livro, muitos nomes de personagens foram modificados, personagens e situações desapareceram. Agatha Christie descreveu Jason Rudd como o homem mais feio que já tinha visto, e o ator escalado para o papel foi o galã Rock Hudson.

Angela Lansbury, que participara de Morte Sobre o Nilo, interpreta uma Miss Marple fumante, segura de si e de suas conclusões, mas o filme é um veículo para Elizabeth Taylor, é ela quem domina o tempo de tela como Marina Gregg. Na verdade, a trama toda é uma batalha entre os famosos olhos de Elizabeth Taylor e os globos não-oculares de Kim Novak, num figurino bastante decotado.

Diz a lenda que o departamento de publicidade dos estúdios EMI cometeu uma falha imperdoável na divulgação do filme ao anunciar que determinada estrela do elenco interpretaria pela primeira vez uma pessoa que comete assassinato.

Esta foi a única vez que Angela Lansbury interpretou Miss Marple, mas a partir de 1984 ela homenageou Jane Marple no papel da escritora de romances policiais e detetive amadora Jessica Fletcher em dois episódios da série Magnum que depois ganhou série própria: Murder, She Wrote [Assassinato por Escrito, no Brasil] – uma brincadeira com o título do livro 4.50 from Paddington, que nos EUA foi lançado com o título Murder, She Said.

[Se tudo der certo, 4.50 from Paddington será o próximo desta série de posts.]

Eu assisti a A Maldição do Espelho pela primeira vez na TV Bandeirantes, dublado, na década de 1980. Em algumas lojas ainda é possível comprar o DVD – com a mesma ausência de material extra e legendas em inglês dos outros filmes lançados pela Universal.

 

Madonna with the child ou Greek Madonna, Giovanni Bellini, no episódio de 1992

 

Agatha Christie’s Miss Marple: The Mirror Crack’d from Side to Side

[Rosalind Hicks] kept a firm distance from “merchandise” and, like her mother, disapproved of most film dramatisations, though she felt that David Suchet as Poirot and Joan Hickson as Miss Marple had come closer to the looks and spirit of their characters than any other actors. [Memory Of - Rosalind Hicks (1919-2004)]

O roteiro de T. R. Bowen neste episódio da série da BBC estrelada por Joan Hickson é extremamente fiel ao livro e a mais longa das três adaptações abordadas neste post [1h55min, contra 1h45min em 1980 e 1h20 em 2010]. Para quem leu o livro, chega a ser reconfortante reconhecer tanto os personagens quanto a atmosfera geral com a luz do interior rural.

A atriz Margaret Courtenay interpretou Mrs. Bantry na versão de 1980 e retornou aqui no papel de Miss Knight, a dama de companhia que o escritor Raymond West arranjou para sua Tia Marple, que estava convalescendo de uma doença. O próprio roteirista Bowen apareceu numa ponta como Raymond West.

Barbara Hicks participou dos filmes Morte Sobre o Nilo 1978 e Assassinato num Dia de Sol 1982, e ela repetiu o papel de Miss Hartnell duas vezes na série da BBC.

Este foi o último episódio da série da BBC, que se iniciou em 1984. Das três adaptações deste post, é a que resolveu melhor o conflito ético do final do livro.

 

Madonna and child 4, Giovanni Bellini, no episódio de 2010

Madonna and child 4, Giovanni Bellini, no episódio de 2010

 

Agatha Christie’s Marple: The Mirror Crack’d from Side to side

Eu não havia assistido a nenhum episódio da nova fase da série da ITV com a atriz Julia McKenzie no papel de Miss Marple, substituindo Geraldine McEwan. De modo geral, acho que as adaptações da ITV tomam liberdades modernizadoras que não combinam com o gênero cosy da escritora, além de apelar para uma fotografia sombria nos episódios recentes.

Ao assistir a esse episódio [o segundo da quinta temporada], tive a impressão que o roteiro de Kevin Elyot baseou-se mais no filme de 1980 do que no livro em si. Nomes diferentes, foco concentrado em Marina Gregg em vez de Miss Marple, personagens e tramas ignoradas.

Das três adaptações que assisti para escrever este post, foi a mais fraquinha. Vale pela participação de Lindsay Duncan [a Servilia dos Junii da série Roma] e Charlotte Riley [a Cathy da versão 2009 de O Morro dos Ventos Uivantes].

Curiosidade: As duas adaptações também se iniciam do mesmo jeito, usando metalinguagem. Cenas de filme abrem cada adaptação. Em 1980 é “Murder at Midnight” e a cena lembra o dénouement dos trabalhos anteriores em que Poirot reúne todos os suspeitos numa sala e passa a acusar um por um. Em 2010 é uma cena do filme “Marie Antoinette”, estrelado por Marina Gregg. As três versões usam reproduções de Giacomo Bellini [que pintou diversos quadros com o mesmo tema] para a cena da Virgem com a Criança, mas nenhuma parece ser a da Madonna Risonha mencionada no livro.

Comparativo de elenco
Os números após o nome de cada artista x indica alteração do nome do personagem em relação ao livro.

Personagem 1980 1992 2010
Miss Marple Angela Lansbury Joan Hickson Julia McKenzie
Cherry Baker Wendy Morgan Anna Liland Olivia Darnley
Mrs. Bantry Margaret Courtenay Gwen Wartford Joanna Lumley
Miss Knight não existe Margaret Courtenay não existe
Miss Hartnell não existe Barbara Hicks não existe
Raymond West não existe T. R. Bowen não existe
Reverendo Hawes Charles Lloyd Pack Christopher Good não existe
Dr. Haydock Richard Pearson não existe Neil Stuke
Inspetor Craddock Edward Fox John Castle Hugh Bonneville 1
Superintendente Slack não existe David Horovitch não existe
Sargento Lake não existe Ian Brimble Samuel Barnett 2
Heather Badcock Maureen Bennett 1 Judy Cornwell Caroline Quentin 3
Arthur Badcock não existe Christopher Bancock não existe
Marina Gregg Elizabeth Taylor Claire Bloom Lindsay Duncan
Jason Rudd Rock Hudson Barry Newman Nigel Harman
Ella Zielinsky Geraldine Chaplin Elizabeth Garvie Victoria Smurfit 4
Hailey Preston não existe não creditado Brennan Brown
Giuseppe Charles Gray 2 John Cassady não creditado
Gladys Dixon Carolyn Pickles 3 Rose Keegan Lois Jones 5
Dr. Gilchrist não existe Norman Rodway não existe
Margot Bence Marella Openheim Amanda Elwes Charlotte Rilley
Lola Bewster Kim Novak Glynis Barber Hannah Waddingham
Ardwick Fenn Tony Curtis4 Constantine Gregory Martin Jarvis 6
“Jamie” Pierce Brosnan não existe não existe

1980 [1] Miss Babcock; [2] Bates; [3] Miss Giles; [4] Martin N. Fenn

2010 [1] Inspetor Hewitt; [2] Sargento Tiddler; [3] Miss Badcock; [4] Ella Blunt; [5] Primrose Dixon; [6] Vincent Hogg 

O duelo de palavras entre Marina Gregg e Lola Brewster [1980]


Link http://www.youtube.com/watch?v=PudXY9dYvjs

Episódio de 1992 em inglês sem legendas

Link http://v.youku.com/v_show/id_XMzUxOTc0Mjg=.html

Masterpiece Mystery! Agatha Christie’s Marple: The Mirror Crack’d from Side to Side


Link http://www.youtube.com/watch?v=5vYeS2CJWqc

Para saber mais
The Mirror Crack’d from Side to Side na página oficial de Agatha Christie
Verbete na Wikipedia
Artigo biográfico sobre a atriz Gene Tierney [alerta de spoiler]
Poema A Dama de Shalott, de Tennyson, traduzido por Leandro Dias
Poema The Lady of Shalott, de Alfred Tennyson, em inglês
Dicas para evitar o azar depois de quebrar um espelho
Quadro Madonna With the Child [presente em 1980 e 1992]
Outros quadros de Giovanni Bellini [inclusive o utilizado em 2010]

Agradecimentos especiais à @lukytuk e à @ratobiblioteca pelos links.

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8 comentários sobre “The Mirror Crack’d from Side to Side / A Maldição do Espelho

  1. Oi titia!

    Desculpe a demora pra comentar, mas aqui estou. Gostei muito da resenha, como sempre bem completa e interessante.

    Só vi a adaptação de 1980, e não cheguei a ler o livro, e não lembro dos detalhes da história, só lembro que não gostei muito de Angela Lansbury como Miss Marple, prefiro vê-la como Jessica Fletcher, que era uma série bem gostosinha de ver. Com base em sua análise, vou assistir a versão de 1992 da BBC (e ler o livro, claro).

    Sua série de artigos sobre AC está ótima, estou adorando!

    Beijos, e bom domingo :-)

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