Desafio Literário | Os Pequenos Homens Livres

Sinopse
Com apenas uma frigideira e seu bom senso, Tiffany Dolorida, jovem futura bruxa de 9 anos, é tudo o que há entre os monstros do Reino das Fadas e o Giz, sua terra natal. Forçada a seguir rumo ao Reino das Fadas para recuperar seu irmão sequestrado. A senhora do Reino das Fadas pretende dominar o mundo ao eliminar a barreira que separa realidade e sonhos. Com isso, monstros e vilões dos pesadelos e histórias da carochinha irão invadir o Disco e apenas Tiffany poderá impedi-la.
O único problema é que, apesar de toda sua coragem e determinação, Tiffany ainda não sabe usar seus poderes, que certamente serão necessários para salvar o mundo. Ela se alia aos Nac Mac Feegle, também conhecidos como Pequenos Homens Livres, um clã de pequenos seres azuis que adoram beber e se meter em uma boa briga. Juntos terão de enfrentar muitos perigos e desafios até o encontro com a Rainha.
A grande questão é: será que Tiffany conseguirá desenvolver seus poderes inatos até o confronto final com a Rainha?

Capa

Eee começamos o Desafio Literário 2011 com o pé direito! Não apenas é um livro de Terry Pratchett, mas também é um livro excelente – pode parecer redundância, e é mesmo.

A história se passa no Discworld, o mundo achatado como uma pizza nas costas de quatro elefantes que se apoiam sobre o casco da tartaruga interestelar Grande A’Tuin, porém não faz parte da série regular. É um livro para leitores mais jovens, assim como O Fabuloso Maurício e Seus Roedores Letrados, e portanto pode ser lido isoladamente, sem nenhum conhecimento prévio do universo criado por Pratchett.

Tiffany Dolorida é uma personagem adorável, muito estranha, que usa o próprio irmão caçula como isca para atrair Jenny Dentes-Verdes, um ser folclórico criado para manter as crianças longe de rios e lagos. Ela derrota Jenny, mas no dia seguinte seu irmão desaparece e ela é tomada por um enorme sentimento de culpa porque se ressentia dele por tomar seu lugar de caçula e por ser o único menino numa família com seis filhas. O remorso e a raiva pela petulância de raptarem seu irmão são o combustível que movem Tiffany, armada e perigosa.

Nunca subestime o poder de uma frigideira bem aplicada.

Tiffany é neta da única bruxa do Giz, só que não sabe disso porque o Barão proibiu a bruxaria depois que seu filho desapareceu um ano antes. O Giz não parece ser um lugar propício para formar uma bruxa, é macio demais – isso é o que pensa a Senhorita Carrapato, a bruxa estrangeira que identifica a existência de uma passagem entre o Reino das Fadas e o Disco e a potencialidade da menina.

Quem está familiarizado com o monomito ou a jornada do heroi já deve ter percebido o padrão aqui, né? Mas não é a Senhorita Carrapato que acompanhará Tiffany na jornada, e sim seu sapo e os Nac Mac Feegle [os Pequenos Homens Livres], seres que vivem para beber, brigar, roubar, beber e brigar. Os Nac Mac Feegle carregam uma espada que emite um brilho azul na presença do inimigo mais temido: advogados.

Caramba! Estou lendo Terry Pratchett

Na primeira metade do livro eu ria tanto que às vezes perdia o fio da meada; o humor bizarro e o jogo de palavras de Pratchett estão afiados aqui, além da mania de distorcer lugares-comuns de um jeito que faz a gente repensar todas as nossas certezas. “Ouça seu coração”, por exemplo, serve muito bem para as pessoas comuns, mas uma bruxa escuta todas as partes do corpo. Você não imagina o que o rim tem a dizer.

Já a segunda metade é tensa, me deixou acordada até as 4h30 porque não conseguia largar. A batalha final retoma a ideia de que o que devemos temer mais é o nosso próprio medo, um conceito que já foi explorado em outras séries de fantasia mas que não fica velho.

Para leitores jovens o livro deixa mensagens importantes: questione sempre; não se deixe levar pelas aparências; fale por aqueles que não têm voz; lute pelo que é certo, mesmo se estiver com medo; pense por si mesma. Não são muitos autores que têm essa coragem. :)

A edição brasileira ficou bem bonita, com um projeto gráfico estiloso [tem Nac Mac Feegles nos rodapés de todas as páginas] e ilustrações muito bem feitas em cada capítulo. Não tem o crédito das ilustrações na ficha catalográfica, mas como são do mesmo estilo da capa eu suponho que sejam do mesmo artista. A tradução deve ter sido um baita desafio, porque Pratchett usou escocês arcaico para o idioma dos Nac Mac Feegles e no dialeto da Vovó Dolorida, mas a transposição manteve o ritmo e o espírito do original. É claro que há perdas; duas que me lembro assim de cabeça é o trocadilho no nome da Senhorita Carrapato ["Miss Tick"] e uma referência ao Mágico de Oz [um sapo amarelo porque está meio doente = yellow sick toad].

Eu mencionei lá em cima que Os Pequenos Homens Livres pode ser lido independentemente da série, mas sugiro que leia também Lords and Ladies [aliás, fiquei com a impressão de que se trata da Rainha dos Elfos e não das Fadas - e além disso Vovó Cera do Tempo e Tia Ogg fazem uma participaçãozinha especial aqui]. Outra leitura que recomendo é The Folklore of Discworld, que desvela as referências mitológicas, religiosas e folclóricas presentes neste e em outros livros do Discworld.

A série de histórias centradas em Tiffany Aching incluem A Hat Full of Sky, Wintersmith e I Shall Wear Midnight.

Para saber mais
Anotações no fórum L-Space
Verbete na Wikipedia
No site da editora brasileira


Nota: 5

(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2011 [v. lista de livros agendados], tema Livro Infanto-Juvenil, e Desafio de Férias 2010/2011 [v. post].

Blog do Desafio Literário e Desafio de Férias 2010/2011

Título: Os Pequenos Homens Livres
Título original: The Wee Free Men [Inglaterra, 2003]
Autor: Terry Pratchett
Ilustrações: ?
Tradução: Ludimila Hashimoto
Editora: Conrad
Ano: 2010
Páginas: 264

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O Fabuloso Maurício e Seus Roedores Letrados
Lords and Ladies

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28 comentários sobre “Desafio Literário | Os Pequenos Homens Livres

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  2. Báh eu ganhei esse livro no natal e dia 26 já tinha terminado, muito bom mesmo. Ano passado foi o ano em que me apaixonei perdidamente pelo Pratchett, comecei com Fabuloso Maurício e agora estou caçando tudo que puder para ler.
    Adorei tua resenha, assim como tu, eu ri como se não houvesse amanhã na primeira parte do livro, tu conseguistes sintetizar a essência da obra, do jeito que eu queria fazer se tivesse cérebro :P

    “Para leitores jovens o livro deixa mensagens importantes: questione sempre; não se deixe levar pelas aparências; fale por aqueles que não têm voz; lute pelo que é certo, mesmo se estiver com medo; pense por si mesma. Não são muitos autores que têm essa coragem.” #ameiisso

    estrelinhas coloridas…

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