The Young Victoria / A Jovem Rainha Vitória

A Rainha Vitória foi a monarca que reinou mais tempo na Inglaterra, e a monarca mulher que reinou mais tempo no mundo inteiro. Durante seu reinado o Império Britânico expandiu-se a ponto de se dizer que o Sol nunca se punha em seu território. Foi uma época de grande evolução dos direitos sociais e dos trabalhadores, de florescimento das artes e de um código de conduta moral que perdurou por gerações após a sua morte.

Tudo isso a gente sabe [ou deveria saber], se teve um professor médio de História e/ou tem o hábito de ler romances de época. Nesse último caso geralmente se sabe também que o casamento de Vitória com o Príncipe Consorte Albert foi marcado pelo profundo afeto, que ela ficou tão abalada pela morte dele que usou luto pelo resto da vida. A imagem mais evocada é dela com trajes negros, a miniatura de coroa e o véu branco da viuvez.

Emily Blunt

O filme A Jovem Rainha Vitória aborda uma fase mais remota da vida da então Princesa Herdeira. Antes de comentar o filme em si, vejamos um pouco do histórico. Você se lembra do filme As Loucuras do Rei George [The Madness of King George, Inglaterra/1994]? George 3º, o louco, era pai do pai de Vitória – seu avô, portanto. O Príncipe Regente, também chamado George [apelido Prinny], era o irmão mais velho do pai de Vitória e reinou durante a fase final da doença do pai dele. Os livros de Jane Austen foram escritos entre os reinados dos George 3º e 4º com a Regência no meio.

George 4º era um libertino e não gerou nenhum filho em seu casamento com Caroline de Brunswick, com quem vivia brigando e chegando mesmo a proibi-la de comparecer à sua coroação; seu segundo irmão também não gerou filhos legítimos e faleceu antes dele. A coroa passou então para o terceiro filho de George O Louco, William 4º, já com mais de 60 anos de idade. William vivia com uma atriz de teatro com quem teve dez filhos, nenhum dos quais podia herdar a coroa. Ele casou-se então com Adelaide of Saxe-Meiningen, ele com 50 anos, ela com 25, e teve duas filhas, nenhuma das quais sobreviveu.

Emily Blunt e Rupert Friend

Adelaide não apenas criou os filhos naturais de William como também colocou as finanças dele em dia, pagando as dívidas e mantendo a casa até ele receber o trono de George 4º. Isso explica muito uma frase pronunciada por Adelaide [Harriet Walter, de Downton Abbey, outro trabalho de Julian Fellowes], quando ela diz a Vitória que a sobrinha não tem ideia das coisas que ela, Adelaide, fez, e que compreende o desejo de Albert em trabalhar.

Vitória é filha do quarto filho de George O Louco [Edward, que morreu no mesmo ano que o pai, 1920], sendo a única criança nascida de um casamento real na família com condições de herdar o trono. A Grã-Bretanha não segue a Lei Sálica, então uma princesa pode subir ao trono. A mãe de Vitória é irmã do Rei Leopoldo da Bélgica e de Ernest, Duque de Saxe-Coburg and Gotha [título que equivale ao de Rei]. Leopoldo planejou o casamento entre os dois sobrinhos desde cedo, como uma forma de fortalecer sua própria posição na Europa.

Vitória e Albert, 1854

Mas a manipulação da Jovem Vitória não se restringe aos arranjos matrimoniais do tio e dos primos alemães [Albert foi escolhido porque era mais bonito do que o irmão mais velho, para ganhar Vitória pelo romantismo da adolescente]. Após a morte do marido, a mãe de Vitória une-se ao auditor [ou gerente, ou tesoureiro] das finanças da família, Sir John Conroy, e colocam a criança sob o Sistema Kensington: mais do que a segurança da menina, o sistema tinha como objetivo torná-la dependente da mãe e de Conroy e forçá-la a assinar um Ato de Regência.

Pelo Ato de Regência, Vitória só assumiria o reinado aos 25 anos de idade; até lá as decisões seriam tomadas pela mãe, teoricamente – efetivamente, o poder seria de Conroy. Vitória recusou-se a assinar o Ato de Regência.

O filme tenta mostrar essa face da Rainha, seus primeiros passos na política, as influências que moldaram sua vida e que viriam, por sua vez, a moldar a política e o modo de vidas dos ingleses nos anos seguintes. Além, é claro, dos primeiros anos do seu casamento.

Cena do filme

O filme foi coproduzido por Martin Scorses e Graham King, que já trabalharam juntos em outras cinebiografias de época com sucesso, e Sarah Ferguson, ex-duquesa de York, que deve ter aberto a porta de muitos castelos para as filmagens. A filha dela, Princesa Beatrice, fez até uma ponta na cena do casamento.  Os fatos históricos são razoavelmente acurados [a distorção mais gritante é a idade de Lorde Melbourne, que tinha 58 anos e no filme é o Paul Bettany]. A recriação de época foi muito bem feita, o elenco é indubitavelmente talentoso, a atuação não deixa nada a desejar [Emily Blunt está especialmente cativante], a fotografia e a música captam o clima com perfeição, mas…

Mas…

Mas aí o filme terminou e eu fiquei com cara de “ãhn? é isso? é isso?” e fiquei olhando os créditos subirem, esperando alguma coisa acontecer, e nada aconteceu.

É um filme que poderia ser grande, mas acabou se revelando apenas uma crônica no jornal de ontem, a embrulhar o peixe na feira.

Ai que drama.

Resumindo, não chega a ser ruim a ponto d’eu dizer que quero as minhas duas horas de volta e também não é bom a ponto d’eu dar o dvd de presente para alguém. É inócuo.

Praticamente inofensivo.

A Jovem Rainha Vitória trailer


Link http://www.youtube.com/watch?v=ZquJwXMeuIw

Para saber mais
Filme
iMDB
Wikipedia

História
Biografia Victoria
Biografia Albert
The Victorian Web
Kensington System
Bedchamber Crisis

Ficha Técnica
Título: A Jovem Rainha Vitoria
Título original: The Young Victoria
Gênero: Drama
Duração:1h45
Ano: 2009
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Julian Fellowes
Produção: Sarah Ferguson, Tim Headington, Graham King e Martin Scorsese
Música: Ilan Eshkeri
Fotografia: Hagen Bogdanski
Direção de arte: Paul Inglis, Chris Lowe e Alexandra Walker
Figurino: Sandy Powell
Edição: Jill Billcock e Matt Garner

Elenco
Emily Blunt (Rainha Vitória)
Paul Bettany (Lorde Melbourne)
Jim Broadbent (Rei William)
Mark Strong (Sir John Conroy)
Rupert Friend (Príncipe Albert)
Miranda Richardson (Duquesa de Kent)
Thomas Krestschmann (Rei Leopoldo)
Jesper Christensen (Barão Stockmar)
Harriet Walter (Rainha Adelaide)
Jeanette Hain (Baronesa Lehzen)
Julian Glover (Duque de Wellington)
Michael Maloney (Sir Robert Peel)
Michiel Huisman (Ernest)
Genevieve O’Reilly (Lady Flora Hastings)
Rachael Stirling (Duquesa de Sutherland)
Morven Christie (Watson)
Josef Altin (Edward Oxford)
Michaela Brooks (Vitória – 11 anos)
Grace Smith (Vitória – 5 anos)
Princesa Beatice (Dama no Casamento)

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16 comentários sobre “The Young Victoria / A Jovem Rainha Vitória

  1. Uau, além de uma ótima resenha, uma aula de História digrátis! Mesmo que o filme seja mediano, o texto ficou muito bom. Pra falar a verdade, não sabia desses detalhes todos da genealogia vitoriana.

    E a Emily Blunt vem se revelando uma ótima atriz, não?

    Beijocas!

  2. Vc sabe que eu sou fã das suas resenhas, né? Agora fiquei louca de vontade de ver o filme, a despeito de você dizer que o bendito é inócuo. Acho que tem a ver com toda a aula de história que você deu antes.

  3. Tive a mesma sensação quando vi o filme no ano passado – uai, cadê a história? Visualmente é mesmo belíssimo, como só o cinema inglês consegue fazer (bem mais fácil pra eles, né, é só dobrar a esquina e o cenário tá pronto!). Eu usei o filme em algumas aulas, contrastando com outro, Mrs. Brown, que mostra Victoria depois da morte de Albert (e o banho de interpretação de dame Judi Dench…). Os alunos acharam muito legal. A gente sempre se diverte com a confusão das árvores genealógicas reais, nomes repetidos, as fofocas, complôs, alianças… Mesmo descontando um eventual ‘noves fora’ pra dar o tchan cinematográfico, essas histórias são sempre interessantes. E ajudam os alunos a entender muita coisa que existe no mundo de hoje! ;-)
    bjk
    Mônica
    @madamemon

  4. Fofura, tava morrendo de saudades!
    Fiquei offline desde o dia 30, em um cruzeiro de reveillon.
    Amei!
    Recomendo!

    Adorei a aulinha de história.
    Me deixou a sensação de que remete a uma sequência, do jeito que você diz que termina o filme.
    O Rei George eu vi. Gostei, também.

    Sabia que não estudei história, exceto nos antigos primário e ginásio?
    Tampouco geografia…
    Careço sempre de informações maiores, e aguça minha curiosidade.
    Naquela época, a educação era assim…
    Nem consigo acreditar, quando me lembro dessa falha!
    tsc tsc tsc

      • ÔOOOOOOOOOO, minha linda flor oriental!
        Adoro fotografar. Mas, preciso de máquinas com filmes de rolo, e não as encontro, e nem onde as revelar…
        Não me adaptei aos óculos multifocais e por isso não consigo usar as digitais, nem as câmeras do celular…
        Quem sabe um dia eu retome esse meu hobby que já foi meu favorito?!
        Com digitais, claro, para postar à vontade.
        Só não sei quando, ainda! ;)

  5. Pingback: [Resenhas] A Jovem Rainha Vitória « Cinema é Magia

  6. Pingback: The King’s Speech / O Discurso do Rei e O Verdadeiro Discurso do Rei « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  7. Desde a primeira vez que assisti esse filme, eu disse :uau, filmes cm esse a gnt n acha facil… amo msm o filme, é o filme de epoca mas emocionante que já assisti, recomendo a todos q assistam esse filme

    bjiinhos ;*

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