O traseiro, as calças e os fiscais de fiofó alheio

Cópia de resposta revoltadinha minha para um comentarista de mural [não coloquei o post original dele porque [1] mencionei as partes que me incomodaram no texto e [2] “não ampliar a voz dos imbecis”, mangia?]. Minha vontade era xingar muito, mas daí eu que perderia a razão, né? No lo creo que seja publicado lá, então vai aqui mesmo, na íntegra.

[Título inspirado nesse Tumblr.]

Caro Sr. Apreciador,

Em resposta ao seu comentário neste mural, que por sua vez seria uma resposta aos comentários de Isa a respeito do problema enfrentado por professores e funcionários do colégio CENE, questiono a sua motivação ao relacionar a violência e desatenção dos jovens na escola com a aprovação da União Homoafetiva pelo Superior Tribunal Federal e a cartilha que ENSINA a RESPEITAR a orientação sexual de cada um, especificamente do homossexual.

Ora, não seria esta justamente uma das funções da família e, em menor grau, da escola – ainda mais considerando-se a crescente alienação da família na educação dos filhos em função do tempo que os pais passam trabalhando em contraposição com o tempo cada vez maior que a criança passa na escola? Aliás, essa alienação familiar, sim, é um dos fatores que poderiam ser arrolados no seu recado como causa da violência juvenil. Mas ensinar que indivíduos são diferentes, que ser diferente não significa ser inferior e que todos merecem respeito, e não apenas aqueles que são iguais a você: isso é errado para você?

Não seria o caso também de se perguntar se esse pensamento que julga que a homossexualidade é errada e, portanto, perniciosa não compartilha da mesma base do comportamento juvenil que critica? Ambos pregam o desafio à autoridade (o que nem sempre é ruim, apenas usei este ponto para demonstrar a incoerência do seu discurso) e ambos partem do pressuposto de que o Outro pode ser desrespeitado.

Há ainda outros pontos em seu comentário que eu questiono. Segundo seu discurso, para resolver o problema da delinqüência juvenil precisamos voltar ao tempo do terror em que as pessoas temiam a autoridade ao invés de respeitá-las (culpando a “modernidade” que não permite “falar de alunos mal educados ou indisciplinados” e que “protege o marginal”) e fechar nossa comunicação com o mundo exterior (“globalização”).

Quanto à sua afirmação de que a descriminalização do uso da maconha é um dos motivos da situação em que se encontra o colégio, gostaria de apontar dois erros factuais: o colégio se encontra nessa situação enquanto o uso da maconha ainda é tipificado como ATO INFRACIONAL no Brasil; a marcha pretende que o consumo seja descriminalizado, isto é, que o usuário não seja preso, julgado ou condenado por fumar maconha, continuando crimes graves o porte e o tráfico – algo que parece sensato, não?

Despeço-me desejando ter lhe dado material para pensar. Prefiro acreditar que ensinar a respeitar as diferenças não seja motivo de incentivo à intolerância e a violência. Ou, nas palavras da escritora inglesa Charlotte Brontë: “Os preconceitos, isso é bem sabido, são mais difíceis de erradicar dos corações cujo solo nunca foi arado ou fertilizado pela educação: eles crescem ali, firmes como ervas daninhas entre as pedras”.

Interativa | Good Omens/Belas Maldições

Fãs de Terry Pratchett e Neil Gaiman quase entraram em combustão espontânea quando os dois escritores confirmaram que o livro Belas Maldições estaria finalmente em processo de adaptação – não para o cinema nas mãos de Terry Gillian, um projeto que ele acalentou durante anos [tanto que o ator que Gillian queria para o papel de Shadwell faleceu agora em 2011, Pete Postlethwaite], e sim uma minissérie de TV em quatro partes sob responsabilidade de Terry Jones prevista para 2013.

Daí a Jess comentou o dream cast dela pros papeis de Crowley e Aziraphale, o que me deu a ideia dessa Interativa: quem você gostaria de ver nesse filme, se tivesse orçamento e agenda ilimitada?

Crowley: um Anjo Caído que anda num Bentley de colecionador, usa ternos sob medida e óculos escuros.

Aziraphale: Um Anjo das hostes celestiais, dono de um sebo de livros raros que faz de tudo para não vender os livros, modos afetados, maníaco por limpeza.

Many people, meeting Aziraphale for the first time, formed three impressions: that he was English, that he was intelligent, and that he was gayer than a tree full of monkeys on nitrous oxide.

– (Terry Pratchett & Neil Gaiman, Good Omens)

Newton Pulsifer: Caçador de Bruxas Júnior, tem um carro japonês que não funciona direito.

Anathema Device: Neta de Agnes Nutter, ecologista, guardiã das profecias, também é bruxa.

Shadwell: Sargento Caçador de Bruxas, alimenta-se de cigarros e leite condensado na lata. Anda armado com um alfinete e o manual do Caçador de Bruxas, que depois passou para o Recruta Newton Pulsifer.

Madame Tracy: Lê a sorte, exceto nas tardes de terças e quintas, quando recebe cavalheiros. É a senhoria de Shadwell.

Irmã Mary Loquaz: Religiosa que virou empresária.

Agnes Nutter: Bruxa, previu o fim do mundo com exatidão.

Metatron: A Voz de Deus.

Motoqueiros do Apocalipse

Morte: Alto, ossudo, VOZ PROFUNDA.

Guerra: Bela ruiva curvilínea.

Fome: Empresário de sucesso no ramo alimentício.

Poluição: Pálido, olhos e cabelos claros, usa roupas brancas.

Dispensam apresentações:

Deus

Satã

Belzebu [não, não são a mesma pesoa]

Ligur

Hastur [demônios menores]

Algumas ideias: Imagine Casting e Lavender.

A trilha sonora, claro, tem de ser Queen.

Queen – Bohemian Rhapsody


Link http://www.youtube.com/watch?v=fJ9rUzIMcZQ

Post relacionado
Belas Maldições: As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa

Domingueiras

Betsey claramente esteve lendo Jane Austen de novo

Imagem: I can has cheezburger

Titia Batata recomêinda o podcast especial Orgulho e Preconceito em duas partes do ShoujoCast [parte um e dois].

Conversas entreouvidas em livrarias:

Customer: Do you have a copy of Jane Eyre?

Bookseller: Actually, I just sold that this morning, sorry!

Customer : Oh. Have you read it?

Bookseller: Yep, it’s one of my favourite books.

Customer: Oh great (sits down), could you tell me all about it? I have an essay to write on it by tomorrow.
[Response Surces]

Você já teve curiosidade de saber como é e onde fica exatamente o lugar em que o livro que você está lendo se passa? “Um exemplo de marcação feita no mapa é a República Tcheca, cenário do livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.” [Estante Virtual]

Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”
[Revista Trip]

E anturdia que cliquei no link da promoção do box com seis livros da Virginia Woolf e, nos produtos sugeridos para comprar junto, veio “miojo lámen sabor carne”. Fiquei tão zureta que acabei não comprando, nem vi mais detalhes.

Crianças de Cambridge [Inglaterra] cultivam, colhem e cozinham vegetais dos jardins da escola para os sem-teto da cidade [BBC].

A middle school age kid I know decided that he wanted to shave his head to raise money for cancer research. He asked his mom whether a $100 goal would be too much. Right now his total is $1,400. This amazing overachievement definitely MMD.

Na hora lembrei disso: “Alunos e professores raspam cabelo em solidariedade a jovem com câncer” [G1].

“O problema é o Ricardo Teixeira ser brasileiro” [Nei Shimada, na lata].

Ajude a não disseminar hoaxes na Internet: “coelho sem orelhas de Fukushima”, por Alexandre Mauj.

Tumblr legal:
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Falem mal, mas falem de mim: se depender de mim não, violão

Anturdia estava a ler um release que dizia assim: “Como ser influência na web? MITI Inteligência avalia a relevância nas redes sociais”. Pouco à frente, a jornalista citava o caso de um comediante, participante de dois programas televisivos em rede nacional, recentemente envolvido em polêmicas no universo feminino e apontado pelo NYT como “a personalidade mais influente do Twitter”.

Eu me abstenho de declinar o nome da pessoa por motivos que explico adiante.

“No período do estudo, foram capturadas 1.866 interações sobre RB nas redes sociais – Twitter, Facebook, blogs e Youtube – e 15,5% delas foram relacionadas a polêmicas envolvendo o comediante. De todas as interações, ainda, 44,3% foram negativas, mais que o dobro dos comentários positivos capturados (19,25%).”

O grifo é meu.

Daí fiquei matutando: comé que alguém sobre quem se fala mal pode ser influente? Por que alguém que diz coisas preconceituosas só pra gerar burburinho e menções ao seu nome ganha relevância? Mais ainda: por que alguém desejaria ser como ele?

Já que o negócio é estatística, bamos lá. Eu sigo 189 pessoas no Twitter. Desconsiderando os lurkers [digamos, uns 20 a 25%], os que deliberadamente ignoram o que ele diz [outros 25%] e personalidades de outros países que nunca ouviram falar dele [15%, talvez], exatamente duas pessoas acham graça e retuitam algumas coisas do que esse comediante posta [mas nunca as mais grosseiras, e sim as de cunho político/econômico - por isso escaparam do meu unfollow :lol:]. Todo o restante revolta-se com as declarações do cidadão – com justa razão, dado o grau de babaquice do cara – só que no processo acabam, como diz o Millôr, “ampliando a voz dos imbecis”.

No fim, quem colocou o cara no topo do ranking das personalidades mais influentes do Twitter no New York Times foram os detratores, e não os fãs; é por isso que me recuso a usar o nome dele.

Então resolvi que não, não quero ser relevante para uma massa de seguidores. Prefiro saber que ajudei a Rê a se apaixonar por Agatha Christie, a Érika a começar a ler Discworld, a TatiLie a assistir Doctor Who, a Adrina a curtir Harry Potter, a Sweet a descobrir O Morro dos Ventos Uivantes, a Jess e a Kaká a lerem Jane Eyre do mesmo modo que tanta gente relevante pra mim me influenciou a descobrir tanta coisa legal.

Harry, A History / Harry e seus fãs

De acordo com Joanne Rowling, o livro estava a “quatro semanas” de ser terminado, e ela se dedicou ao trabalho de terminá-lo enquanto Christopher considerava seus méritos. Era todo errado para o mercado. O colégio interno, as crianças impertinentes que falavam demais, as garrafas de leite entregues de porta em porta, a atmosfera tipicamente britânica e o tamanho, quase trezentas páginas; nada combinava com as exigências do mercado. [Trecho de Harry e seus fãs, pdf na Ed. Rocco]

Capa

O primeiro livro da série Harry Potter que eu li foi A Câmara Secreta em 2001, presente de uma tia que achava que eu já tivesse lido A Pedra Filosofal – não tinha, mas depois que terminei CS saí atrás de tudo o que podia.

Em PF me apaixonei pelos personagens. Em Prisioneiro de Azkaban fui pega de surpresa pelo tom mais sombrio. No Cálice de Fogo terminei o livro em choque. Na Ordem da Fênix eu queria dar uma surra de vara de marmelo no Harry.

Quando o Half-Blood Prince foi lançado eu estava tão impaciente que comprei em inglês mesmo. Nessa época já mantinha os site dedicados a HP nos favoritos do navegador, debatia cada detalhe dos livros anteriores em emails histéricos, revia cada filme inúmeras vezes.

Entre o sexto livro e Deathly Hallows a angústia da espera era tamanha que me rendi às fanfics. Li pouca coisa boa e muita coisa ruim, até me fixar num ship uncanon em um site que exige um mínimo de respeito à norma culta. Também comprei alguns livros sobre Harry Potter, uns até interessantes e outros meros caça-níqueis que se aproveitavam da síndrome de abstinência dos fãs.

Ship = de relationship, personagens envolvidos romanticamente.

Canon = do cânone, que respeita a proposta do autor. Ex. Ron e Hermione. Uncanon, portanto, une casais improváveis.

Foi por isso que relutei em comprar Harry e seus fãs. A autora Melissa Anelli é jornalista, editora do The Leaky Cauldron, um dos três fansites que eu consultava todos os dias [os outros dois são MuggleNet e The HP Lexicon] e responsável por uma entrevista lendária concedida por J. K. Rowling, junto com Emerson Spartz, do MuggleNet. Isso e mais o prefácio assinado pela própria Rowling deveriam ter me convencido  - mesmo assim hesitava. Tanto livro que quero ler, tão pouca grana… Até que precisei completar um determinado valor para conseguir frete grátis no Submarino e este livro estava na frente da “prateleira” virtual em promoção e o valor era exatamente o que me faltava.

Na primeira noite li quatro capítulos; na noite seguinte li o resto do livro inteiro. Se eu conseguisse, me chutaria na bunda por não ter lido antes. A autora conta como se apaixonou pela história, suas impressões e reações, e mais ainda. No papel de jornalista, conta como o agente literário aceitou representar Jo no mercado editorial e todo o zeitgeist que possibilitou o sucesso que alcançou, em detalhes; como o desenvolvimento da Internet acompanhou e alimentou a explosão da base de fãs; relembrou o episódio PotterWar, quando a Warner Bros. disparou cartas de “cease and desist” para todos os fansites por violação de direito autoral; o nascimento do wizard rock; as fanfics; a cruzada de parte dos cristãos contra HP, liderados por Laura Mallory.

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Desafio Literário | Casa de Bonecas

Sinopse
No final do século XIX a crise das instituições e a moral burguesa entram em cena. Os personagens se livram das máscaras e vivem, solitários, sua verdade. Dessa forma Nora Helmer, a mulher-boneca, renuncia à confortável mentira e elege o risco de ser ela mesma. Precisa de uma nova identidade, de uma nova moral. Para viver, abandona marido e filhos, rompendo amarras, derrubando tabus.

Capa

Depois de duas comédias inglesas, um drama norueguês. Na lista oficial eu tinha escolhido Peer Gynt, que troquei por outra peça do mesmo autor que encontrei escondida na estante. Ibsen lançou Casa de Bonecas na mesma época que Wilde estreou seu Earnest, uma época em que as transformações sociais começavam a mudar a História – era o fim do Período Vitoriano, para começar. A diferença é que Wilde usou a sátira para criticar os ridículos da sociedade, enquanto Ibsen lançava um libelo feminista que chocou a sociedade calvinista.

A peça começa na sala de estar do apartamento dos Helmer, quando Nora retorna das compras de Natal e é recebida pelos três filhos e marido, Torvald, compondo o ambiente doméstico a que se reúnem o Dr. Hank, melhor amigo de Torvald, e a Sra. Linde, antiga colega de escola de Nora que vem para a cidade em busca de emprego após enviuvar. Completam o elenco a babá dos meninos e um empregado do banco onde Torvald trabalha.

Agora xeu contar uma coisa: nas primeiras páginas cheguei a imaginar estar lendo um policial de Agatha Christie e pensava “ah, essa Nora será assassinada, ela é bem o tipo de personagem que todo mundo teria motivo pra matar”. Eu mesma, pra começar. Nora parece tola, cabeça-de-vento, submissa, inútil, incapaz, tudo aquilo que desprezo nesse tipo de mulher.

Aos poucos o foco da minha ira foi se voltando a quem de direito, isto é, ao marido [embora ainda sentisse raiva da Nora também, porque toleimice não é imposta sobre alguém]. Torvald aos poucos mostra sua real face: machista, controlador, arrogante, intolerante; trata a esposa como um bichinho de estimação ["minha raposinha", "minha cotoviazinha"] ou criança ["minha esposinha", "minha Norinha"], uma propriedade, uma boneca em sua casinha de brinquedo.

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Domingueiras

Heeth Kwiff! Heeth Kwiff! *suspiro* Você deixou o gato assistir O Morro dos Ventos Uivantes de novo, não deixou?

Imagem: I can has cheezburger

Avó reclamando que sobrinho é igual a tia, tudo o que aparece na TV quer comer. Ontem foi pipoca, melancia, cookie Bauducco e “frangooo! frangooo!’ da Subway.

Aliás, não deu pra assistir ao Miss RJ, que foi só online, caus que ele foi embora à meia-noite. [Depois mergulhei no Harry & Seus fãs até 4h30.]

Semana cheia de leituras, nos intervalos tou bisolhando artigos apresentados no II Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infanto-Juvenil da PUC-RS 2010 [no link Trabalhos apresentados]. Bruna, Jess, Erika, acho que vocês vão gostar de alguns.

Certa vez, em Monte Carmelo, Minas Gerais, ao visitar a biblioteca na hora do almoço, encontrei-a sob os cuidados de uma faxineira, que nada sabia da localização dos livros, de autores ou de quantos volumes havia. Fiquei desanimado, pô, uma faxineira? Que descaso! Arrependi-me de meu preconceito ao conversar com ela:

- E a senhora gosta da biblioteca?

- Adoro esta hora. Todo mundo sai para comer, fico sozinha, quietinha, não preciso lavar banheiros e salas. Apanho um livro, outro, acostumei a ler. É gostoso, saio voando, esqueço o mundo. Que nunca percebam que leio os livros, se não me tiram daqui. [Ignácio de Loyola Bandão, Estadão, 17/6/11]

Em Pedra Lascada a atual administração da Divisão de Educação e Cultura colocou em prática um programa de leitura batizado de Livros Para Todos: uma estante do tipo display com revistas, gibis, romances do tipo Julia/Sabrina/Bianca e livros “comuns” ficam à disposição da população em qualquer prédio público municipal em que se pressupõe que o cidadão vá esperar algum tempo por atendimento, como postos de saúde, brinquedoteca, etc. Revistas e gibis não podem sair do recinto, mas os livros podem ser retirados como se fosse uma biblioteca, preenchendo a ficha de empréstimo. A iniciativa não tem divulgação nenhuma.

I work in a library, and an adult patron was being very loud and rude. A tiny girl, probably 4 or 5 glared at him and said “SHHH! This is a library!”
Seeing a child acting like the grown-up MMD

Incentive a leitura desde bebê [e morra de fofura no processo!]
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