Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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Máquina de lavar ovos

Escrito por naomi em Abril 21, 2008

Sempre passei as férias escolares em Pedra Lascada, quando era criança, na granja de meu avô. E “trabalhava” [devo dizer que, olhando pra trás hoje em dia, acho que o verbo correto é atrapalhava].

Acompanhava o pessoal na catação; nas granjas onde a galinhagem rolava solta [isto é, as aves ficavam soltas num barracão espaçoso e tinham apartamentos individuais forrados de palha, pra botar os ovos] a gente usava baldes de estanho pra recolher a produção. Minhas primas não entravam nem a pau, de medo das bichinhas. Eu sempre fui esse anjo da boa-vontade desde cedo, então ajudava-as a superar a fobia açulando as galinhas pra cima delas.

Não funcionou, claro… Por isso não segui a carreira da psicologia.

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Medão

Escrito por naomi em Fevereiro 13, 2008

Não, não é aquele cigarro “se me dão”, é um medo grande, pavor mesmo: eu tenho medo de extremistas, de fundamentalistas.

Tenho medo de pessoas que não se contentam em defender suas causas, precisam impor a sua crença sobre outras pessoas, precisam arrasar com as pessoas cujas crenças não concordam com as suas. Doutrinação, lavagem cerebral, tudo isso e mais outra coisa…

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Inculta e bela

Escrito por naomi em Abril 2, 2007

Emerson encrespou contra o uso de “possue”.

Eu encrenco com o uso indiscrimado dum advérbio que ortograficamante tá até certo, mas é enfiado a torto e a direito nos lugares mais improváveis, tipo “ela usava um vestido onde era aberto nas costas”, “campanha de doação de sangue, onde salva vidas”, “comprou um sapato, onde colocou numa sacola” e por aí vai.

Argh.

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Momento ternurinhas

Escrito por naomi em Outubro 12, 2005

fatherhood.gifUma tremenda saudade do meu pai — que está há anos no Japão — e de momentos da minha infância foi provocada por uma coletânea, daquelas da Som Livre que você compra e ganha uma lata decorada, só com temas de filmes. O título da coletânea é [tcharam] Temas Inesquecíveis de filmes de far-west.

São músicas que lembram muito o seu Teruo, um fanático por westerns, e noites passadas na frente da TV. Chaparral, Bonanza e Os Fora-da-Lei são os que guardei na memória, mas era um seriado diferente por dia, de segunda a sexta, todos sobre o mesmo tema [ou assim me parecia]: homens durões sobrevivendo no Velho Oeste, brigando ou sendo amigos de índios, cowboys duelando no meio da rua e sendo jogados por aquelas portas duplas de vai-e-vem de saloon.

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Sobre batatas cor-de-rosa e brigadeiros

Escrito por naomi em Setembro 21, 2005

- Provedor Tuiuti, Luciana, bom dia. Em que posso ajudar?

Lidar com usuários o dia todo é interessante, são vários tipos diferentes e diferentes modos de abordar e reagir.

De manhã ligam os clientes corporativos, as “pessoas jurídicas”. Quando era criança achava que pessoa jurídica eram os advogados, os juízes, os promotores… Quem lidava com carros era uma pessoa mecânica, e médico era o homem-que-dói, ou o homem que espeta. Sempre associei dor com médico e gente de branco. Deve ser por isso que até hoje tenho medo de mãe-de-santo.

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O assassinato retrospectivo - parte 5

Escrito por naomi em Fevereiro 20, 2005

A senhora era a única filha e neta, criada como a herdeira intocável a quem nada era negado. A senhora adorava seu tio. Era o seu deus. Deve ter sofrido um choque quando ele surgiu com uma noiva. De uma hora para outra ele já não era seu deus-escravo e era preciso puni-lo, por isso o matou. Creio que foi a senhora também quem espalhou os boatos sobre a traição da noiva, que conspurcou seu deus. A senhora desejou sujar o nome dela, não foi? Do mesmo modo que uma criança faria.

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O assassinato retrospectivo - parte 4

Escrito por naomi em Fevereiro 19, 2005

D. Agripina vivia sozinha; nunca se casara, não tivera filhos, não tinha empregados. Nem mesmo um cão ou peixes dourados no aquário seco sob a janela da sala. E, no entanto, mantinha no armário roupas de um homem de aproximadamente 1,84m, 75 - talvez 78 kg. A descrição batia com as medidas do desaparecido. O que todas aquelas roupas faziam ali, no quarto de uma solteirona arruinada? Fechei a porta do guarda-roupa e sentei na beirada da cama, pensamentos voando.

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O assassinato retrospectivo - parte 3

Escrito por naomi em Fevereiro 17, 2005

Fitei novamente os olhos do homem na foto. Ao seu lado, a jovem Agripina o olhava com adoração.

– E a polícia não disse nada?

Ela sorriu de novo.

– Cá entre nós, filha… não era do interesse de ninguém investigar muito, era?

Como assim?

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O assassinato retrospectivo - parte 2

Escrito por naomi em Fevereiro 16, 2005

Voltei a mirar a fotografia de um homem de cabelos lisos, sorrindo para a lente da câmera, o braço esquerdo em volta da cintura de uma menina loura com os cachos presos em dois rabos-de-cavalo, de pé sobre um degrau.

– Foi no dia da minha comunhão — ela depositou a bandeja com o café e biscoitos sobre a mesinha de centro, afastando no mesmo movimento o vaso de violetas e o cinzeiro de cristal amarelo, vazio.

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O assassinato retrospectivo - parte 1

Escrito por naomi em Fevereiro 14, 2005

– Era tão moço — suspirou — e tão bonito.

As palavras de D. Agripina mal penetravam em meu cérebro enquanto virava as páginas do álbum de fotografias.

– Morreu de quê, D. Agripina?

Os olhos, era isso. Mesmo através das fotos em preto-e-branco, muitas quase desbotadas, era possível perceber que eram olhos tristes. Olhos que encaravam diretamente a lente da câmera

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O porco voador

Escrito por naomi em Junho 24, 2004

flying_p.gifJorge Porco era um leitãozinho rosado que morava com Papai Porco, Mamãe Porco e seus irmãos Porco numa chácara no interior de Portugal. Quando Mamãe Porco estava grávida de Jorge e seus sete irmãos teve um sonho estranho: um anjo apareceu em uma nuvem ao nascer do sol. O anjo era humano - digo, tinha formas humanas. Não que fosse humano, você entende. Anjos não são humanos. Alguns são bem cruéis, até.

A voz do anjo dizia à Mamãe Porco coisas que ela não entendia. Não era comida, não era banho nem era vacina. Algumas palavras soavam como enviado, paz e missão. Ela contou o sonho a Papai Porco mas ele também não entendeu a fala do anjo. Discutiram o dia inteiro a respeito do sonho e por fim decidiram que, sim, podiam comer mais um balde de milho antes de dormir.

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Os ostralianos

Escrito por naomi em Junho 9, 2004

A Ostrália é uma ilha perdida localizada a oeste do Oceano Índico, a leste do Oceano Pacífico, ao sul do hemisfério norte e ao norte do hemisfério sul. De fato, a ilha fica exatamente no meio do mundo; a emissão de ondas eletropsicomagnéticas é tão intensa naquele ponto que nenhum navio, avião ou satélite consegue localizar.

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Sebos

Escrito por naomi em Maio 19, 2004

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
(Drummond)

Sim, senhor, o mundo é grande e não tenho uma janela sobre o mar. Assim, não sei como é nos outros cantos, só sei aqui em Pompéia é quase impossível comprar um livro. O “quase” deve-se à única banca de jornal da cidade, que de vez em quando até traz uns títulos bonzinhos — O Silêncio dos Inocentes, por exemplo, foi comprado lá na Tio Patinhas. Capa dura, tá pensando o que? [Na verdade, eu não faço muita questão de tipo de capa, de papel, esses detalhes. É bonito, admito, um exemplar bem trabalhado, chique no último grau, mas não é indispensável.]

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A jardineira e o morto-vivo

Escrito por naomi em Abril 6, 2004

Na década de 50 uma única jardineira fazia o trajeto Pompéia-Vila Queiroz e era comum ela sair lotada, com as pessoas aboletadas no bagageiro quando não havia mais vagas dentro do carro. Muitas histórias foram contadas sobre essa época, mas uma em especial permaneceu na memória de quem participou dela e até hoje dá muitas risadas quando relembra do fato.

Ônibus cheio esperando no ponto, chega um matuto.

Motorista: - Não tem mais lugar aqui dentro, não.

Caboclo: - Mas eu preciso chegar em Queiroz ainda hoje!

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Desenterrando o passado

Escrito por naomi em Março 24, 2004

O . V e r n á c u l o . e . S u a s . N u a n c e s

pro.so.po.péi.a sf (gr prosopopoiïa)
1 Ret Figura pela qual se atribui qualidade ou sensibilidade humana a um ser inanimado e se fazem falar as pessoas ausentes e até os mortos.
[...]
3 Personificação.
[...]

Fonte: Dicionário Eletrônico Michaelis

Falta de uso é mesmo uma coisa… Eu tinha esquecido qual a figura de linguagem para personificação - e isso era importantíssimo depois de ler o artigo sobre a onda de brutalidade contra nossos pobres amiguinhos, os computadores (*).

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Image Maker

Escrito por naomi em Março 11, 2004

Das poucas coisas com que não implico nessa vida são jeitos de falar. Pode ser um programador neuro-lingual que acha que se não disser “perder peso” não vai achá-los de novo, pode ser um cidadão que deleta arquivos em vez de apagar, sou a maior fã, incentivadora e inventadora de neologismos.

Não me doeu nas vistas quando apareceram os primeiros personal trainers; até pensei que era legal ter um professor de educação física particular. Quando surgiram os personal stylists imaginei como seria bom ter grana sobrando pra contratar um profissional pra te dizer como cortar seu cabelo, que roupas usar, etc.

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Carpe Diem

Escrito por naomi em Dezembro 21, 2003

Olhou para o lado: sim, ele estava ali. Lembrou-se de quantas vezes sonhou com isso, de quantas vezes desejou isso, e se acalmou.

No colégio era a amiga para todas as horas, a companheira intelectual perfeita, dizia. Intelectual? De que serviam neurônios e sinapses se tudo o que queria era ser linda de um modo que nem ele pudesse recusar? Sofreu quando ele se interessou por outra e se afastou. Chorava à noite e sorria de manhã… Afinal eram bons amigos.

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Halloween

Escrito por naomi em Outubro 31, 2003

Começou.

Aaaah, Halloween é coisa de americanizado, globalizado, burguesinho, blablablablablabla.

Concordo. Vamos acabar com todos os eventos importados dos EUA. Começar do dia das mães, depois dia dos pais, dia do trabalho, dia dos namorados, ano novo, natal - sim, vamos ter apenas tradições genuinamente brasileiras, chega de macaquear as coisas de fora, de qualquer lugar!

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Avós

Escrito por naomi em Outubro 22, 2003

Meus avós maternos sofrem de: diabetes, coração, pressão alta, câncer de próstata [ele], Mal de Parkinson [ela] e teimosia [ambos].

Com toda a dieta severa e rigorosa que fazem ainda não tem o que baixe a pressão deles; dele principalmente.

O problema é que minha mãe acha [e eu concordo] que depois de 83 anos é muita sacanagem fazer os velhinhos sobreviverem à base de arroz, chuchu e água. Dá pena de ouvir meu avô falando de coisas que ele comia quando mais novo. É de cortar o coração mesmo, ainda mais depois de quase morrerem de fome duas vezes: quando estavam no Japão e chegaram ao Brasil e recentemente, quando passou a recusar comida num período de depressão.

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A luz que me alumia

Escrito por naomi em Setembro 11, 2003

Eu não gostava de morar em casa com poste na frente. Até hoje não gosto, de qualquer forma, mas aí compraram essa aqui e o poste bem no meião e aí não teve outro jeito que aprender a des-desgostar.

Nem é tanto por causa do barulhinho que faz o transformador à noite [é transformador aquele trem que fica em cima do poste, né?] e que me lembra tanto tanto uma historinha do Tio Patinhas que ele era dono de uma mina lá na África, acho, e descobriu uma pedra que brilhava e alumiava tudo e colocou a tal da pedra num poste e ninguém mais dormia e ele esfregava as mãos de contente porque se não dormiam podiam produzir mais mas em vez de produzir mais ficaram assim catatônicos, meio zumbizados.

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Píramo e Tisbe

Escrito por naomi em Setembro 6, 2003

Era uma vez um rapaz e uma moça que moravam vizinhos - mas vizinhos mesmo, numa dessas casinhas geminadas da Cohab de parede-e-meia, como a gente diz, um de um lado e a outra do outro lado da parede. Ocorre que naquela época em que as casas foram construídas o governo economizou no material básico e a construção começou a apresentar umas infiltrações, barrigas de jacaré e logo uma rachadura fendeu a parede que separava os quartos de Píramo e Tisbe que, apesar de terem os pais simplesinhos, tiveram a grata sorte de não serem batizados com nenhum nome esdrúxulo de personagem de novela ou coisa parecida. Na verdade nem batizados foram, pois eram pagãos.

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A imagem da beleza

Escrito por naomi em Agosto 31, 2003

Faz meses que estou para comentar isso. Até estranhei, na verdade, que ninguém o tivesse feito antes. Eu esperava que alguém mais articulado escrevesse o que penso melhor [escrevesse melhor o que penso], coisa que tem sido muito comum ultimamente - mas não foi o que aconteceu. Agora que ninguém se lembra mais do que se passou vou tentar dizer com minhas próprias palavras.

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Jasão

Escrito por naomi em Agosto 24, 2003

Jasão era um menino quando seu meio-tio Pélias usurpou o trono de Éson, rei de Iolco, pai de Jasão e meio-irmão de Pélias [v.2 diz que Pélias era o tutor legal de Jasão e deveria entregar o trono quando o pirralho atingisse a maioridade]. Aconteceu que, como todo rei, Pélias solicitou a um oráculo a previsão de seu futuro. Uma profecia dizia que se não chovesse faria sol e aquele cuja sandália se perdeu seria o causador da queda de Pélias, que se pelou todo de medo de perder a boquinha e, assim que Jasão reinvidicou décimo-terceiro salário, férias anuais e o trono de volta, despachou-o numa Missão Impossível: resgatar o Velocino de Ouro do dragão que o guardava na Cólquida, reino vizinho governado por Eestes, pai de Medéia.

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Pesque-pague

Escrito por naomi em Agosto 5, 2003

Pompéia -> Pesque-Pague Cury

Em primeiro lugar, o leitor precisa saber *onde* fica Pompéia — tarefa muito fácil se tiver um Guia Quatro Rodas ao alcance da mão. Encontre São Paulo, o estado [dica: tente "Região Sudeste"]. Agora aponte o dedo indicador direito sobre São Paulo, a cidade, se for destro. Se for canhoto use o dedo direito também; se usar o esquerdo vai fazer sombra sobre o lado do mapa em que vai olhar. Com o mesmo dedo, trace uma linha imaginária em direção ao Oeste [Go West, já diziam os Pet Shop Boys] — lembrando que o Oeste fica à esquerda. Passe por Campinas ou Sorocaba, Botucatu, Bauru e Marília: isso é muito divertido, parece aqueles livrinhos para criança, Ligue os Pontos, não parece?

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O segundo marido

Escrito por naomi em Julho 31, 2003

Eeepa! Blog novo na área, da xará Luciana [outra vítima do Trio Ternura, tsc...], que inspira ótimas risadas com as histórias de uma família apaixonada por velocidade e outras coisas.
;o)

Aliás, Lu, tava aqui matutando sobre o japonês fantasma e me lembrei de um fato que aconteceu com dois tios meus. Minha família materna tem um longo histórico de sonambulismo. Um tio [A], de Pompéia, passou uma noite na casa do irmão [Tio B] em Campinas, a caminho do litoral onde ia se encontrar com esposa e filha. Por acaso a disposição dos cômodos das casas de ambos era *muito* parecida, principalmente na área íntima. A distribuição dos móveis no quarto do casal, então, era xerox um do outro.

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