E se eu estivesse na Wikipedia

Bill Clinton disse uma vez que ele só conheceria a dimensão exata de sua vida e carreira quando virasse verbete de enciclopédia. Isso foi anos antes do surgimento da Wikipedia e ele estava pensando no antigos verbetes de cinco linhas das enciclopédias de papel. Hoje em dia a pessoa não precisa ter governado um país nem esperar morrer para ganhar uma extensa [comparado com o papel, pelo menos] entrada na enciclopédia colaborativa.

O Henderson Bariani, do blog Depokafé, lançou a ideia e o desafio a um grupo de blogueiros: redigir o próprio verbete. Desafio topado, eis o meu.

Luciana Naomi Hikawa (Tupã, 29 de abril de 1970 – Londres, 3 de março de 2075) foi uma pesquisadora brasileira, ganhadora do Nobel de Medicina em 2020. Escreveu um romance que não obteve reconhecimento à época da publicação.

Biografia

Luciana Naomi Hikawa nasceu no interior do Estado de São Paulo a tempo de presenciar a terceira conquista do Brasil na Copa do Mundo de Futebol. Na Copa seguinte, mudou-se para Olímpia, conhecida Capital Nacional do Folclore. Em Olímpia foi aluna de alguns dos melhores professores da rede pública de ensino, um fato que estabeleceu o alto grau de exigência que ela exibiu pelo resto da vida.

A partir de 1985 pouco se sabe a seu respeito, pois ela recusava-se a relembrar um período que chamou de Idade das Trevas. Aos confidentes, dizia que vivia numa cidade da era da Pedra Lascada. Sua natureza normalmente tímida tornou-se ainda mais reservada e muito do que se sabe atualmente é fruto de inferências e especulações. Foi nesta época que adotou o pseudônimo Titia Batata.

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Do Professor Ivo

A coluna semanal do profe some depois que é atualizada [não tem as anteriores] e eu gostei tanto dessa nota que copio aqui para “e-ternizá-la”.

O belo da semana: A mulher que amamentou uma criança, quando a favela do Jaguaré ardia em chamas, sem sequer saber quem era a linda menina. Como amamenta seu filho de seis meses, ao ver a pequenina chorando, pres­sentiu que ela sentia fome. Tomou-as nos braços e deu-lhe a seiva da vida. A bela menina (a mãe ajudava um cunhado a tentar salvar do fogo o que fosse possível), de felicidade, dormiu. A mãe desesperada, deixou a filha nos braços de quem pudesse segurá-la. E a mulher magra ofereceu discretamente seu seio à criança. [iFolha, 18/10/09]

Sobre Batatas Cor-de-Rosa e Brigadeiros

– Provedor Tuiuti, Luciana, bom dia. Em que posso ajudar?

Lidar com usuários o dia todo é interessante, são vários tipos diferentes e diferentes modos de abordar e reagir.

De manhã ligam os clientes corporativos, as “pessoas jurídicas”. Quando era criança achava que pessoa jurídica eram os advogados, os juízes, os promotores… Quem lidava com carros era uma pessoa mecânica, e médico era o homem-que-dói, ou o homem que espeta. Sempre associei dor com médico e gente de branco. Deve ser por isso que até hoje tenho medo de mãe-de-santo.

À tarde e de noite predominam as pessoas físicas. Por que não pessoa-alma ou pessoa-espírito ou, sei lá, pessoa-antimatéria? E porque exatamente física? O mais certo não seria pessoa físico-química? Ou pessoa química-orgânica? Para abreviar podia se dizer: Fulano é uma pessoa orgânica, para diferenciar das empresas, que seriam inorgânicas. Mais esquisitas ainda são as categorias das empresas.

Uma empresa limitada lembra um prédio cercado de muros com placas indicando: “você está entrando nos limites da Fábrica Inorgânica Limitada; ninguém entra, ninguém sai”. Já uma sociedade anônima soa como um filme noir, uma empresa que só funciona em noites de neblina, em salas com um vigia na porta que pede a senha pra todo mundo que chega e os funcionários usam codinomes no crachá. E a americana incorporated, incorporada? Mais do que vestir a camisa, quem trabalha numa empresa Inc. carrega ela no corpo, num caso clássico de obsessão. Quando o sujeito é demitido chama-se um padre para exorcizar e depois incorporar aquele pedaço da empresa num novo funcionário.

Outro telefonema me salva de idéias cada vez mais non-sense.

– Lu, minha senha não entra. — Morar em cidade pequena tem dessas vantagens, não existe a profissional Luciana, mas a Lu, filha da dona Therezinha e do Teruo da quitanda. Podem nunca ter me visto na vida mas
sabem de tudo a meu respeito, o que automaticamente torna todo mundo amigo de infância.

– Vamos ver o que está acontecendo. — Alguns comandos — Tenta agora.

– Nada ainda. — Hora de cercar o problema, o que às vezes exige uma diplomacia de fazer inveja à D. Lúcia Flexa de Lima, embora nem sempre dê resultado.

– Você pagou a última mensalidade? — Silêncio do outro lado.

O departamento financeiro é centralizado em São Paulo e enquanto procuro o número do telefone ouço o pedido:

– Resolve isso pra mim? — É verdade, tem gente que morre de medo do desconhecido do outro lado da linha: trava, gagueja, não entende os procedimentos e no fim culpa o pobre atendente dizendo que ele não resolve nada. Assim, já fui Suely, Danielle, Ana Laura, Cidinha, Fátima e uma vez até fui Eduardo. Um psiquiatra se deliciaria com esse caso de personalidade múltipla: quem é você hoje?, ele perguntaria.

Bem, doutor, hoje eu sou uma planta. [Espanto] Sou uma batata rosa. [Mais espanto] Acho que ele nunca teve uma paciente batata, quanto mais cor de rosa. Na verdade, ele nunca deve ter * visto* uma batata cor de rosa, o que torna tudo muito mais engraçado.

– Lu, não consigo ver meus e-mails direito! Vou jogar esse computador no lixo, eu estou irritado! — Reconheço a voz sem que ele precise se identificar. É o dono do bufê mais famoso da cidade, um cara alegre e divertido.

– Mas como assim? — Ás vezes fico perdida com os problemas que aparecem — Você não consegue baixar os e-mails, é isso? Como tá a sua configuração SMTP? [E às vezes sou cruel. Só de vez em quando, mas sou.]

– Não, menina… As mensagens ficam todas pela metade, faltando letra do lado direito, a tela tá torta, e até aquela barrinha que rola pra cima e pra baixo sumiu, você sabe qual é, né? — Continuo perdida.

Segue-se uma discussão altamente técnica onde os termos mais comuns são ‘coisinha’ e ‘quadradinho’. No desespero, chuto.

– Experimenta dar dois cliques na barra azul-escuro lá em cima, onde tá escrito… — Bingo!!

– Ah, que maravilha, apareceu tudo! Olha só, estou preparando uns brigadeiros pro aniversário da Fulana, depois deixo uma dúzia pra você.

Desligo o telefone. Ganhei o dia.

Publicado originalmente em dezembro de 2000 no e-zine 700km.

Giramundo

Estava a googlar “mefistotélico” na semana passada quando caí num blog com um texto familiar. Quanto mais eu lia, mais crescia a sensação de déja-vù – e o pior é que tinha certeza que não conhecia o autor do blog. Sou ruim com nomes, sim, mas aquele era bem diferente, único.

Até que *tóim!* percebi porque reconhecia aquele texto: fui eu que escrevi! Foi publicado na edição #27 do ezine 700km [arquivado na newsgroups Derkeiler.com em 2005, mas é anterior; 2001 ou 2002, acho. sou ruim com datas também].

Não vou comprar briga com o cidadão, não vou nem linkar o endereço aqui, mas republico a crônica completa no PdUBT, com um abraço pro Claumann, editor-em-chefe do 700km, caus que a série A Ilha da Fantasia será reprisada no TCM a partir de agosto ou setembro. ;)

Existem apenas duas tragédias no mundo: uma é não conseguir o que se quer; a outra é conseguir. (Oscar Wilde)

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Máquina de lavar ovos

Sempre passei as férias escolares em Pedra Lascada, quando era criança, na granja de meu avô. E “trabalhava” [devo dizer que, olhando pra trás hoje em dia, acho que o verbo correto é atrapalhava].

Acompanhava o pessoal na catação; nas granjas onde a galinhagem rolava solta [isto é, as aves ficavam soltas num barracão espaçoso e tinham apartamentos individuais forrados de palha, pra botar os ovos] a gente usava baldes de estanho pra recolher a produção. Minhas primas não entravam nem a pau, de medo das bichinhas. Eu sempre fui esse anjo da boa-vontade desde cedo, então ajudava-as a superar a fobia açulando as galinhas pra cima delas.

Não funcionou, claro… Por isso não segui a carreira da psicologia.

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Medão

Não, não é aquele cigarro “se me dão”, é um medo grande, pavor mesmo: eu tenho medo de extremistas, de fundamentalistas.

Tenho medo de pessoas que não se contentam em defender suas causas, precisam impor a sua crença sobre outras pessoas, precisam arrasar com as pessoas cujas crenças não concordam com as suas. Doutrinação, lavagem cerebral, tudo isso e mais outra coisa…

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Inculta e bela

Emerson encrespou contra o uso de “possue”.

Eu encrenco com o uso indiscrimado dum advérbio que ortograficamante tá até certo, mas é enfiado a torto e a direito nos lugares mais improváveis, tipo “ela usava um vestido onde era aberto nas costas”, “campanha de doação de sangue, onde salva vidas”, “comprou um sapato, onde colocou numa sacola” e por aí vai.

Argh.

Desmotivação

Quando um funcionário público usa da sua posição para obter vantagens, como aquele juiz que fez um casal descer do avião para que ele e a esposa não precisassem aguardar o próximo vôo, a sociedade se revolta.

Quando um funcionário público usa de sua posição para escapar de punições, como deputados e senadores e sua imunidade parlamentar, a sociedade se revolta.

Quando filhos de autoridades usam seu parentesco para obter vantagens ou fugir de punições, o famoso “você sabe quem é meu pai?” ou “você sabe com quem está falando?”, a mesma coisa.

A isto chamamos prevaricação.

A gente costuma se revoltar contra a carteirada quando ocorre numa esfera superior e nos prejudica diretamente, mas faz vista grossa quando acontece mais perto. Quando uma pessoa usa sua “amizade” conveniente com o dono da empresa para atropelar a fila de espera ou para obter descontos.

A isto eu chamo de falha de caráter mesmo. Pode parecer normal, pode parecer mixaria, mas para mim tá no mesmo nível que os outros [maus] exemplos acima. Eu fico fisicamente doente quando me deparo com casos assim, a ponto de vomitar – e não digo no sentido figurado. Acabo por criar asco da pessoa que usa desses expedientes, antipatia indelével.

Feliz ou infelizmente sou exceção, portanto acompanhemos este mundinho maravilhoso continuar a girar.

Momento ternurinhas

fatherhood.gifUma tremenda saudade do meu pai — que está há anos no Japão — e de momentos da minha infância foi provocada por uma coletânea, daquelas da Som Livre que você compra e ganha uma lata decorada, só com temas de filmes. O título da coletânea é [tcharam] Temas Inesquecíveis de filmes de far-west.

São músicas que lembram muito o seu Teruo, um fanático por westerns, e noites passadas na frente da TV. Chaparral, Bonanza e Os Fora-da-Lei são os que guardei na memória, mas era um seriado diferente por dia, de segunda a sexta, todos sobre o mesmo tema [ou assim me parecia]: homens durões sobrevivendo no Velho Oeste, brigando ou sendo amigos de índios, cowboys duelando no meio da rua e sendo jogados por aquelas portas duplas de vai-e-vem de saloon.

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Sobre batatas cor-de-rosa e brigadeiros

- Provedor Tuiuti, Luciana, bom dia. Em que posso ajudar?

Lidar com usuários o dia todo é interessante, são vários tipos diferentes e diferentes modos de abordar e reagir.

De manhã ligam os clientes corporativos, as “pessoas jurídicas”. Quando era criança achava que pessoa jurídica eram os advogados, os juízes, os promotores… Quem lidava com carros era uma pessoa mecânica, e médico era o homem-que-dói, ou o homem que espeta. Sempre associei dor com médico e gente de branco. Deve ser por isso que até hoje tenho medo de mãe-de-santo.

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