North & South 2004

North & South BBC 2004

North & South BBC 2004

Outra lacuna na minha formação literária que preciso consertar o quanto antes: nunca li nada da Elizabeth Gaskell, novelista inglesa da Era Vitoriana que se interessava por política e crítica social. Ela escreveu a primeira biografia de Charlotte Brontë, que era sua amiga pessoal e teve uma grande influência sobre sua obra. Gaskell também é a autora de Cranford, adaptada pela BBC e que teve a sequência [Return to Cranford] concorrendo em diversas premiações de TV com Judi Dench no papel principal.

North and South é o quarto romance da escritora e foi publicado em 1855 em formato de folhetim numa revista editada por Charles Dickens. O título se refere às diferenças entre o sul da Inglaterra, onde a protagonista Margaret Hale nasceu e cresceu, e o norte do país para onde a família Hale tem de se mudar. Margaret tem de abandonar a região rural tranquila e se adaptar no norte industrial e ruidoso.

A BBC adaptou N&S duas vezes, a primeira em 1975 [com Patrick Stewart no papel de Mr. Thornton!] e depois em 2004, com roteiro de Sandy Welch – a mesma que adaptou Jane Eyre em 2006, um bom presságio. Conforme comentei no início, não li o livro, então não sei qual o grau de fidelidade desta adaptação; a única coisa que posso dizer é que adorei esse primeiro contato com a obra de Gaskell, fiquei com muita vontade de ler/ver mais!

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Lost in Austen

Lost in Austen

 É uma verdade universalmente conhecida que todos nós desejamos escapar.

A primeira frase da personagem Amanda Price parafraseia a famosa abertura do romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Amanda recorre ao livro para escapar da realidade do emprego tedioso, do apartamento que divide com a amiga Pirhana, do namorado desinteressante, da vida mais-ou-menos que leva. Ela recusa o pedido de casamento de Michael porque aspira por um romance igual ao de Lizzie Bennet e Mr. Darcy.

Amanda chega a preparar noites especiais para reler o livro quando Pirhana e Michael têm outros compromissos [e eu não consegui evitar, lembrei de Renee Zellweger cantando All By Myself na cena inicial de O Diário de Bridget Jones]. Numa dessas noites ela encontra Elisabeth Bennet no banheiro, que tem uma porta interdimensional atrás da banheira. Amanda acaba indo para a Longbourn de 200 anos atrás e Lizzie permanece na Londres moderna.

Essa é a premissa da minissérie em quatro episódios exibida pela ITV em 2008 e que de certa forma realiza o sonho de leitoras fãs de Jane Austen, que imaginam como seria se pudessem entrar nos livros e viver aquelas aventuras.

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The Tenant of Wildfell Hall / A Inquilina de Wildfell Hall [1996]

The Tenant of Widfell Hall (1996)

A misteriosa Mrs. Graham muda-se para um vilarejo com o filho pequeno. Ela aluga a propriedade Wildfell Hall [eu adoro essa história das casas terem nome!] e, para garantir sua privacidade, ela é seca com os novos vizinhos, chegando a ser antipática e até rude. A austeridade de Mrs. Graham em relação ao pequeno Arthur também choca a sociedade local: ela exerce uma vigilância constante sem permitir-lhe a menor liberdade.

Gilbert Markham,  proprietário da fazenda vizinha, a princípio fica intrigado com a obsessiva reclusão de Mrs. Graham. A mãe dele, boa alma, se desdobra em mimá-lo, literalmente: ela própria o mima e ainda obriga a filha a fazer o mesmo, contra a vontade. A filha do pároco da aldeia, Eliza Milward, está interessada em Gilbert e o cobre de atenções. Assim, conhecer uma mulher que faz de tudo para afastá-lo acaba atraindo o fazendeiro.

Gilbert é uma boa pessoa, mas é ingênuo. Suas visitas constantes à casa da viúva, bem como as do senhorio Mr. Lawrence, provocam maledicência contra Mrs. Markham. Os ciúmes fazem Gilbert acreditar nas fofocas e acusar a viúva de conduta inaceitável e isso finalmente a faz romper a barreira que impôs: ela entrega seu diário para que Gilbert leia.

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They Do It With Mirrors / Murder With Mirrors / Um Passe de Mágica

Miss Marple: Helen Hayes, Joan Hickson, Julia Mckenzie

Muitos criticam a postura conservadora e, por vezes, até mesmo preconceituosa demonstrada pela escritora inglesa Agatha Christie em sua obra. Para essas pessoas, o romance policial Um Passe de Mágica [They Do It With Mirrors] deve ser um exemplo perfeito e conjugado do tradicionalismo e da intolerância contra estrangeiros praticados pela autora.

Quanto ao tradicionalismo, não há muito o que argumentar. Na trama do livro, a escritora põe em dúvida a eficácia da abordagem humanista dos métodos de recuperação de delinquentes juvenis praticados na instituição Stonygates, de Lewis e Carrie-Louise Serrocold, uma velha amiga de Miss Marple da época em que eram jovens em turnê pela Itália junto com a irmã de Carrie-Louise, Ruth. As três fizeram o Grand Tour juntas.

Miss Marple critica os métodos de Stonygates e, mais ainda, a condescendência que considerava excessiva na disciplina de jovens infratores, preferindo que a filantropia se dedicasse aos jovens que, passando pelos mesmos problemas, não caíam no crime. Tanto ela quanto Ruth demonstram ter uma visão menos idealista da vida.

As palavras de Mrs. Van Rydock vieram a propósito.
– Carrie Louise sempre viveu completamente fora da realidade – disse. – Não conhece nada do mundo. Talvez seja isso que me preocupe.
– Quem sabe o meio – começou Miss Marple, mas parou logo, sacudindo cabeça. – Não – disse.
– Não, é ela mesma – afirmou Ruth Van Rydock. De nós duas, Carrie Louise sempre foi a que tinha ideais. Lógico que quando éramos moças isso estava na moda – todo mundo tinha ideais, ficava bem ter. Você queria cuidar de leprosos, Jane, e eu ia ser freira. A gente se cura dessas tolices. [Agatha Christie, Um Passe de Mágica, trad. Milton Persson. L&PM Editores, 2006]

Já sobre a intolerância, de fato há menções pouco honrosas contra personagens norte-americanos, italianos e russos, porém a maior parte – se não a totalidade – dos comentários preconceituosos é dita por uma personagem de mentalidade estreita, rancorosa e amargurada, o que retira muito da sua credibilidade.

O próprio talho rígido dos lábios possuía um ascético ar eclesiástico. Personificava a Paciência Cristã e, possivelmente, a Retitude Moral. Mas não, segundo Curry, a Caridade. [idem]

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Leia o livro que gerou o filme

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Desafio
A Feira do Livro de Cape Town é um evento anual em que editores, distribuidores e autores compartilham a magia dos livros. Em uma época em que menos e menos pessoas optam por ler, a Feira do Livro precisava de uma forma de seduzir o interesse do público.

Estratégia
Comparado com a leitura de um livro, um filme deixa pouco para a imaginação. Selecionando diversos gêneros e demonstrando como foram escritos originalmente no formato de livro, posicionamos a Feira do Livro de Cape Town como “o lugar onde a história se inicia”.

Solução
Para nos engajarmos diretamente com o nosso público, substituímos filmes populares nas prateleiras das lojas locais de DVD com o livros dos quais se originaram. Adicionamos adesivos em que se lê “Pegue o sucesso de vendas original” nesses livros. Os livros também se destacam visualmente. A mensagem era simples: a maioria dos grandes filmes foi baseada em grandes romances.” [tradução livre]

Fonte: Blog Livros só mudam pessoas via I Believe in Advertising

Achei uma campanha bem inteligente, muita vez não sei que tal filme é baseado num livro – e nem que determinado livro gerou alguma adaptação para cinema ou TV, tampouco. ;)

4.50 from Paddington / What Mrs. McGillicuddy Saw/ Murder She Said / A Testemunha Ocular do Crime

 

Agatha Christie em 1957, aos 67 anos

 

Fui passar um fim de semana com Rosalind, no País de Gales, e voltei a Londres num trem tardio, domingo à noite. Era um desses trens que tivemos que agüentar durante a guerra, frios como geladeiras, e, claro, quando chegávamos à estação de Paddington, não existiam quaisquer meios de locomoção. Tomei outro trem algo complicado, que, finalmente, me deixou numa estação de Hamp­stead, não muito distante do Lawn Road Flats, e da estação fui a pé para casa, carregando alguns peixes defumados e minha mala. [Agatha Christie, Autobiografia, trad. Maria Helena Trigueiros. São Paulo: Círculo do Livro, 1989]

Agatha Christie gostava muito de trens, tanto que mais de uma vez cometeu assassinatos dentro deles ou usou a tabela de horários, estações e baldeações em suas histórias. A associação entre Agatha Christie e trens é tão forte que até o grupo humorístico Monty Python criou um sketch para o tema [v. final do post].

Em Testemunha Ocular do Crime, Mrs. Elspeth McGillicuddy apanha o trem das 4:54 na estação de Paddington, em Londres, rumo a Milchester. Durante parte do percurso, seu trem corre paralelo a um outro comboio e Mrs. McGillicuddy olha pela janela a tempo de testemunhar uma mulher sendo estrangulada por um homem. Abalada, ela chega à casa de sua amiga e conta-lhe tudo. A amiga é Miss Jane Marple.

Miss Marple já está com mais de oitenta anos, reumática, proibida de jardinar – o que a deixa de mal-humor – mas a mente continua afiada. Depois de informar à polícia, que não encontra nenhum cadáver, Miss Marple passa a estudar as possibilidades. O corpo só pode ter sido jogado do trem e há apenas um ponto da ferrovia em que isso poderia ser feito: os terrenos de Rutherford Hall, a propriedade da família Crackenthorpe.

Para ajudá-la a procurar o cadáver, Miss Marple contrata uma ajudante, a maravilhosa Lucy Eyelesbarrow. Lucy tem mestrado em Matemática obtido em Oxford, mas seu espírito prático a fez perceber que uma boa empregada doméstica é mais valiosa e ganha muito mais do que uma acadêmica. Miss Marple a convence a empregar-se em Rutherford Hall e proceder às investigações sob sua orientação.

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The Mirror Crack’d from Side to Side / A Maldição do Espelho

Daiquiri

Encha uma coqueteleira com cubos de gelo, adicione duas doses de rum Bacardi [branco], uma colher de sopa de açúcar e o suco de um limão. Agite bem. Coe e despeje sobre gelo raspado ou triturado num copo curto [o de martini serve], que deverá ter sido deixado gelando meia hora antes.

Existem variações feitas com o rum escuro, com licor no lugar do açúcar ou com frutas – morango, maracujá, banana – mas não se recomenda adicionar remédios, drogas ou venenos. Os efeitos colaterais dessa mistura são indesejáveis.

 

 

Marina Gregg: Elizabeth Taylor (1980), Claire Bloom (1992) e Lindsay Duncan (2010)

 

“Fora a teia se abria e esvoaçava;
O espelho quebrou de lado a lado:
‘A maldição se abateu sobre mim’,
gritou a Lady de Shalott.”

Agatha Christie foi educada em casa pela própria mãe, uma mulher que seguia as tendências da época, mas sempre teve contato com os clássicos [Charles Dickens era um de seus autores favoritos]. Além do poema A Lady de Shalott de Alfred Tennyson, que abre o post, a autora faz referência a outras obras culturais e personagens históricos neste livro, como Maria Rainha dos Escoceses, Elizabeth Imperatriz da Áustria, um quadro do pintor renascentista Giacomo Bellini.

O primeiro livro estrelado por Miss Jane Marple foi Assassinato na Casa do Pastor [1930]. Miss Marple já era, então, uma solteirona de cabelos brancos e faces rosadas que entretinha-se tricotando, cuidando do jardim e observando pássaros: passatempos muito úteis para bisbilhotar a vida no povoado de St. Mary Mead onde morava. Seu método de investigação é parecido com o de Hercule Poirot – ouvir e observar – mas ela acrescenta a experiência de vida na solução dos casos.

Miss Marple não poderia ser uma detetive amadora jovem ou mesmo de meia-idade. Seu conhecimento acumulado da natureza humana é que permite estabelecer paralelos entre as espécies de pessoas e os tipos de comportamento e crimes que são propensas a cometer. Segundo ela,  as pessoas tendem a seguir um padrão.

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