Desafio Literário | As Filhas Sem Nome

O segundo livro da jornalista Xinran é baseado na vida de três jovens que ela conheceu enquanto fazia seu programa de rádio, direcionado para denunciar as subcondições em que viviam as mulheres na China pós-Revolução Cultural. A história se passa entre 2001 e 2004 e centra-se nas trajetórias de Três, Cinco e Seis, que tinham então de 17 a 20 anos de idade. As garotas são filhas de camponeses: o pai envergonhava-se tanto delas que nem ao menos deu-lhes um nome, chamando-as pela ordem de nascimento.

[Eu lembrei tanto do Charlie Chan e seus incontáveis filhos...]

Para os camponeses, filhas são palitinhos [hashis, em japonês; não sei como se chamam em mandarim] que se usam e jogam fora, enquanto filhos são cumeeiras que sustentam o telhado. Esse pensamento persiste mesmo no século 21 dentro das comunidades isoladas do interior, onde as pessoas são ou analfabetas ou preferem manter o status quo como é o caso dos tios das garotas, membros da autoridade destinada a fiscalizar a lei do filho único que fazem vista grossa para muitas desobediências civis.

O Tio Número Dois trabalha em outra cidade ao sul e, por viajar e conhecer uma comunidade maior, se compadece do destino da sobrinha Três. Ele a leva para Nanjing [Nanquim, na grafia portuguesa arcaica] e lá ela logo arruma emprego em um pequeno restaurante fast-food de comida chinesa. O livro poderia até encaixar-se em janeiro, mês da Literatura Gastronômica, porque muitos quitutes típicos são citados junto com a sua região de origem. Também se encaixa no tema dos Fatos Históricos porque, apesar de ser contemporâneo, aborda a Revolução Maoísta cujos efeitos ainda são percebidos pela população chinesa.

Três é bem-sucedida no emprego e em menos de um ano consegue o equivalente a dois anos de lucro do pai no campo, o suficiente para que ele consinta em liberar as filhas Cinco e Seis para irem a Nanjing. O choque cultural é uma das facetas abordadas mais a fundo neste romance, especialmente quando as meninas descobrem sua voz, seu lugar no mundo. Pela primeira vez elas são tratadas como indivíduos e essa autodescoberta as faz repensarem o papel do pai e da mãe em suas vidas.

As Filhas Sem Nome é uma leitura bem mais leve e otimista do que As Boas Mulheres da China, mais humorada até. A autora continua a criticar as leis e costumes que degradam a mulher, mas vê as mudanças que ocorrem a partir dos grandes centros urbanos graças à interação dos chineses com os estrangeiros e às próprias mudanças internas, como o fim da exigência de autorização para viajar de uma cidade a outra.

Um ponto negativo, pra mim, é que a vida das garotas na cidade grande acontece sem dissabores maiores do que o tal choque cultural.  Talvez a escritora tenha optado por não desgraçar mais ainda uma situação que já era humilhante, mas mesmo com subempregos e dificuldades as garotas contaram com uma dose extra de sorte. O final acabou meio aberto – meio porque Xinran acabou contando no epílogo o que soube de cada uma das três após os fatos narrados no livro, a pedido da tradutora inglesa Esther Tyldesley.

Apesar de os habitantes locais fazerem piadas sobre a Senhora do Tofu, também reconheciam que o coração dela era mais quente do que seu wok de óleo fervente. Ela jamais aceitava dinheiro de crianças que quisessem fazer uma boquinha e não tolerava ver garotas de famílias pobres serem importunadas. Se uma moça do interior em busca de emprego parasse na loja para perguntar como se ia até o grande salgueiro, a Senhora do Tofu a obrigava a sentar e comer vários espetinhos de cubos de tofu fedorento cravados em bambu antes de deixá-la prosseguir no seu caminho — sem sequer fazer uma pausa para perguntar se a garota gostava da iguaria. [Companhia das Letras]

Sobre a autora
Nasceu em Pequim, em 1958. Trabalhou em Nanquim até 1997, quando a impossibilidade de publicar na China o seu relato fez com que se mudasse para Londres com seu filho. Casada com um inglês, leciona atualmente na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres.

Nota de 1 a 5: 4

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2012 [v. lista de livros agendados], tema Escritor[a] Oriental.

Blog do Desafio Literário

Título: As Filhas Sem Nome
Título original: Miss Chopsticks [Inglaterra/2007]
Autora: Xinran
Tradução: Caroline Chang
Ano: 2010
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 296

Post relacionado
As Boas Mulheres da China

Desafio Literário | The Unofficial Harry Potter Cookbook

No ano passado eu falhei com o DL e estava meio jururu de participar de novo. Quando saiu a lista dos temas mensais bati o olho em janeiro, dei um grito e decidi confirmar minha inscrição no ato, a cabeça correndo pra escolher um dos muitos livros do gênero literatura gastronômica que eu quero ler. Quando montei a lista prévia escolhi dois, mas acabei lendo um que não estava na prévia e sim na minha estante de desejados no Skoob.

Em The Unofficial Harry Potter Cookbook a autora norte-americana Dinah Bucholz compilou quase todos os alimentos e bebidas citados nos livros da série Harry Potter, da inglesa J. K. Rowling, e pesquisou, criou ou adaptou as receitas. Algumas ausências ocorrem por conta dos direitos autorais [a cerveja amanteigada, por exemplo], enquanto outras podem representar um desafio para o mestre-cuca brasileiro por causa dos ingredientes requeridos já que ela usa os disponíveis nos EUA.

Uma das regras do DL para o tema é que não valem livros exclusivamente de receitas, e esse cookbook cumpre a regra: a autora indica o livro e o capítulo em que cada prato aparece, comenta a passagem do livro e ainda fornece informações sobre o alimento em si. Eu adorei saber que o sundae surgiu depois da Vaca Preta por causa de uma lei que proibia as sorveterias de venderem ice ceam soda aos domingos, para respeitar o descanso religioso. Bom, e se a gente tirar o refrigerante e vender só o sorvete com a calda? A lei não diz nada sobre isso…Também adorei saber que a palavra inglesa jam vem do francês j’aime [eu amo].

É exatamente o modelo que eu usei na cozinha da A Casa Torta com os livros da Agatha Christie e  na coluna semanal pro TeleSéries!

As 150 receitas estão divididas em dez capítulos temáticos:

1. Good Food with Bad Relatives

Coisas preparadas e servidas na casa dos Dursley, na maioria, mas também tem receita de sorvete de chocolate e do picolé de limão que os tios compraram para Harry na visita ao zoo.

2. Delights Down the Alley

Quitutes encontrados no Beco Diagonal, no Caldeirão Furado, na sorveteria de Florian Fortescue, etc.

3. Treats from the Train

Capítulo praticamente só de doces, inspirado no conteúdo do carrinho do Expresso de Hogwarts.

4. Recipes from a Giant and an Elf

Se eu já não estivesse gostando do livro, seria aqui que a autora me ganharia de vez ao dedicar um capítulo inteiro a Hagrid e a Monstro. Ela demonstra mais uma vez que é uma verdadeira fã dos livros, oferecendo pontos de vista de quem os leu a fundo.

5. The Favorite Cook’s Dishes

É claro que não podia faltar a melhor cozinheira do mundo num livro de receitas do universo Harry Potter: Molly Weasley. Não cheguei a contar as páginas, mas deu a impressão de ser o capítulo mais longo.

6. Breakfast Before Class

O café da manhã britânico é famoso, e neste capítulo a autora desvenda tudo o que é servido de manhã no Grande Salão de Hogwarts.

7. Lunch and Dinner in the Dining Hall

Sequência do anterior, este capítulo aborda os almoços e jantares em Hogwarts.

There are a zillion and one ways to prepare potatoes, and it seems as though at least half of them are mentioned in the Harry Potter books.

8. Desserts and Snacks at School

Quer dar um palpite sobre qual é o tema deste capítulo? Acho que engordei dois quilos só de ler. :lol:

9. Holiday Fare

Pratos típicos de Natal, Halloween e Páscoa.

10. Treats in the Village

The Village, no caso, é Hogsmeade, portanto a autora aborda os doces da Dedos de Mel.

Dinah Bucholz tem um estilo leve e bem-humorado que torna a leitura viciante; é difícil parar de ler e eu gosto imenso de como ela associa os ingredientes das receitas aos ingredientes das poções mágicas e de como o próprio ato de cozinhar, de transformar esses ingredientes em algo novo, é também mágico por si só. Para uma fã da saga Harry Potter feito eu, então, é indispensável. As receitas variam de grau de dificuldade dos mais fáceis, que podem ser preparadas pelas crianças, até o mais difíceis – como a tortinha de caramelo e o fudge.

O texto é enriquecido com truques de cozinha e dicas de substituição que ajudam um bocado, mas mesmo assim há alguns problemas para o leitor brasileiro: ingredientes difíceis de achar no país em algumas [poucas] receitas; medidas no padrão norte-americano [contornados por qualquer conversor online, mas que exigem atenção, de qualquer forma]; a tradução. Tem muita coisa citada ali que eu absolutamente não me lembro de ter lido nos livros Harry Potter porque eu os memorizei em português; terei de reler os sete volumes em inglês para encontrá-los.

Outro atrativo enorme do texto de Bucholz é que ela se esforça para explicar ao leitor não-britânico a origem dos pratos e costumes típicos ingleses que são retratados nos livros da série Harry Potter – isto permite que o leitor entenda e mergulhe ainda mais na história criada por J. K. Rowling, em um nível diferente. Além de ser uma homenagem a HP, é também um desagravo à culinária inglesa, que tem uma má fama injustificada, conforme fica claro após ler esse cookbook.

Livros de receita baseados em obras de ficção tornaram-se um nicho de público recentemente; dos que sei que existem e quero ler estão os cookbooks de True Blood, Família Sopranos, Sherlock Holmes, romances policiais, The Hunger Games e A Song of Ice and Fire, além de outro livro dedicado a Harry Potter chamado A Wizard in the Kitchen e um terceiro também intitulado The Unofficial Harry Potter Cookbook, só que de autoria de Gina Meyer. Tem o da Nanny Ogg [Discworld], que já li. Tem de Twilight também, mas não bateu vontade de ler esse. Dinah Bucholz está para lançar seu segundo cookbook, desta vez baseado na obra de C. S. Lewis e o universo de Nárnia.

So the book is meant for children then? Or Potter fans of any age?
[Dinah Bucholz] It’s for anyone who loves Harry Potter. It is being marketed for kids but I have to say some of the recipes aren’t for kids to make. Some of them shouldn’t be attempted at all by children – like the sugar recipes that require boiling the sugar. One of the reasons I did all that research was to make it an interesting book to read for Harry Potter fans, even the fans who are not into cooking. But I do think it’s a great book to read for Harry Potter fans of all ages. [New Times, 14/7/11]

Dinah Bucholz prepara Tortinhas de Abóbora

Link http://www.dailymotion.com/video/xjx4fu_pumpkin-pasties_news

Nota de 1 a 5: 5

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2012 [v. lista de livros agendados], tema Literatura Gastronômica.

Blog do Desafio Literário

Título: The Unofficial Harry Potter Cookbook
Subtítulo: From Cauldron Cakes to Knickerbocker Glory — More Than 150 Magical Recipes for Wizards and Non-Wizards Alike
Autora: Dinah Bucholz
Ano: 2010
Editora: Adams Media
Páginas: 256

Bônus: duas receitas de cerveja amanteigada em português brasileiro [Garotas Geeks] e Google Preview do livro [Cultura].

Posts relacionados
Nanny Ogg’s Cookbook
Sopa de cebola da Sra. Weasley

Prévia | Desafio Literário 2012

Desafio Literário 2012

Apesar de eu estar atrasada no cumprimento da atual edição do DL [faltam as leituras e resenhas de setembro, outubro e novembro], a divulgação do regulamento e dos temas da edição 2012 devem me dar um gás para corrigir essa situação – pelo menos espero que sim. ;)

Desta  vez escolherei a categoria Leitor Bronze [12 livros, um por mês]. Em 2011 assumi mais compromissos e as coisas acabaram se acumulando; o objetivo do DL é diversão - com alguma disciplina, claro -, não obrigação. Os novos temas ajudam bastante, estão mais variados. E nem o fim do mundo é desculpa pra não participar, afinal está marcado pro final de dezembro, dá tempo perfeitamente.

Regulamento do Desafio Literário 2012

As inscrições devem ser registradas lá no blog do DL entre 9/11 e 15/12. Uma alteração que eu gostei foi que a lista de leitura ficou mais flexível, este ano mudei muitos livros da minha lista original.

Desafio Literário, o que é?
Uma gincana literária cuja tarefa principal é ler um MÍNIMO de 12 livros em 01 ano. A cada mês, um tema de leitura diferente e estimulante dentre o vasto universo de vertentes, estilos e gêneros da literatura.

Agenda e Temas DL 2012

A flexibilidade da lista atual desafogou um pouco aquela tensão de montar a agenda de leitura pro próximo ano, mas assim mesmo seguirei o protocolo publicando minha lista prévia agora, na abertura das inscrições, e a definitiva-pero-no-mucho no encerramento. Precisarei de ajuda pra completar. :)

Janeiro 2012: Literatura Gastronômica
ATENÇÃO: Livros contendo apenas receitas não valem.

Aaadorei! Já li O Não Me Deixes [Rachel de Queiroz], Como Água Para Chocolate [Laura Esquivel], O Clube dos Anjos [L. F. Veríssimo], Nanny Ogg’s Cookbook [Terry Pratchett] e agora tou matutando no que escolher; a Telinha sugeriu Nina Horta, vou procurar na biblioteca. Se não achar, acho que vou de The Help da Kathryn Stockett.

LIDO: The Unofficial Harry Potter Cookbook – Dinah Bucholz [post]

Fevereiro 2012: Nome Próprio (de pessoas)
ATENÇÃO: apenas nome próprio de pessoas!

Esse é fácil: vou de Emma, da Jane Austen, e/ou Shirley de Charlotte Brontë. Ou Naomi do Junichiro Tanizaki. Ou pegarei Pamela [Samuel Richardson] emprestado de hermã. Já li Luciana Saudade do Carlos Heitor Cony, mas mesmo se não tivesse não sei se entraria por causa da cláusula “apenas nome”.

Março 2012: Serial Killer

Também é fácil: Dearly Devoted Dexter do Jeff Lindsay, o segundo volume da série que deu origem à série Dexter, e/ou O Silêncio dos Inocentes do Thomas Harris. Pra quem ainda não leu, sugestão: Os Crimes ABC, da titia Agatha Christie, e O Psicopata Americano do Brett Easton Ellis.

Abril 2012: Escritor(a) oriental

Aqui tem muita opção, tenho de escolher com calma. O que é quase certeza é que escolherei um japonês por causa da minha ascendência.

Maio 2012: Fatos Históricos
Frisando, apenas romances. Não valem livros de História Geral, nem biografias.

Tocaia Grande, Jorge Amado; mas aceito sugestões.

Junho 2012: Viagem no Tempo

A Tale of Time City, Diana Wynne Jones.

Julho 2012: Prêmio Jabuti [Livro do Ano e Romance]

O Grande Mentecapto, Fernando Sabino [Romance 1980].

Agosto 2012: Terror

Neil Gaiman, H. P. Lovecraft ou…?

Setembro 2012: Mitologia universal

Percy Jackson ou Monteiro Lobato, ou…?

Outubro 2012: Graphic Novel
ATENÇÃO: não valem gibis, aqueles de periodicidade mensal.

V for Vendetta, Alan Moore.

Novembro 2012: Escritor(a) africano

Sugestões?

Dezembro 2012: Poesia

Romanceiro da Inonfidência, Cecília Meirelles, e/ou A Vaca e o Hipogrifo do Quintana. Ain, hipogrifo, tifofo…

Formulário de Inscrição para o DL 2012

Desafio Clássico | Prestação de contas @NemUmPoucoEpico

Eu estou a participar do desafio proposto pelo blog Nem Um Pouco Épico, que propõe a leitura de pelo menos um livro clássico por bimestre. Nestes primeiros dois meses juntei a fome com a vontade de comer e li quatro, porque o tema do Desafio Literário by Romance Gracinha do mês de agosto foi “Clássico da Literatura Brasileira”; somando os três do DL com a minha escolha pro Desafio Clássico, então, foram quatro e um quarto. Pro próximo bimestre serão no mínimo quatro também, se eu ler só um por mês do DL mais o do DC [estou contando setembro, que estou atrasada].

Quantos clássicos você leu nesses dois meses?

Quatro e 1/4.

Quais foram?

Completos: Infância, Graciliano Ramos
Reflexos do Baile, Antônio Callado
Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto
A Vampira de Sussex, Arthur Conan Doyle

Em andamento: As Caçadas de Pedrinho, Monteiro Lobato

Cumpriu a sua meta?

Ultrapassei a minha meta! WEEE!! \o/

O que você achou deles?

Continuar lendo

Desafio Literário | Triste Fim de Policarpo Quaresma

Sinopse
Policarpo Quaresma é um major cheio de idéias nacionalistas que trabalha como funcionário público no início da República. Ao defender que o tupi se torne a língua nacional, é ridicularizado e depois internado como louco. Quando finalmente é solto, vai morar no campo e resolve transformar seu sítio em sede da reforma agrária. Apóia o marechal Floriano na Revolta da Armada mas é ignorado, acabando preso e fuzilado. Uma sátira impiedosa do Brasil burocrático, atual e reconhecível apesar de referir-se a um momento histórico marcante.

Capa

Acabo de me dar conta que eu nunca tive um bom professor de Literatura. De Gramática, sim – Prof. Ivo, Prof. Darcy e Prof. Clara em Olímpia e Prof. Luciano em Marília – mas de Literatura não: era decoreba e interpretação de texto. Estilo, contexto histórico e outras bossas ficavam de fora.

Por um lado essa é mais uma falha que terei de consertar; por outro lado, pelo menos não fui obrigada a ler Triste Fim de Policarpo Quaresma quando tinha doze anos – era bem capaz que eu detestasse. Ao ler hoje, sou capaz de apreciar melhor a história e reconhecer um tio no personagem do Major Quaresma em vez de apenas achar que é um chato de galochas e passar o resto do livro embirrada com ele, xingando a professora que obrigou a classe a ler isso pra prova [e por esta razão não podemos largar a leitura] e pegando ojeriza do autor pelo resto da vida.

Oi, José de Alencar, estou falando de você.

Tio Popó é o Dom Quixote brasileiro: é obcecado por tudo o que é nacional e renega tudo o que vem de fora do país, de palavras a plantas, alimentos, música, literatura, costumes. Ele está a um passo da xenofobia, mas pelo menos não se opõe aos imigrantes que conhece.

Esta era a situação oposta da sociedade à época, abertamente xenofóbica [cf. leitura de Cittá di Roma, DL de fevereiro, e de Shindô Renmei - Terrorismo e repressão - DL de maio] e que adotava usos e costumes europeus, especialmente francees.

Tio Popó é um chato de galochas, tadinho, mas é mais um catalisador para que o autor exponha o ridículo da sociedade e do governo da época entre o fim da monarquia e a Primeira República, aquilo que Lima Barreto chama de “baixa aristocracia”.

Obra em Domínio Público [PDF para download]

Sobre o autor

Mulato, pobre e com um grande talento para escrever. Afonso Henrique de Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro. Perdeu a mãe aos sete anos. O pai era tipógrafo. Com a ajuda do padrinho, Visconde de Ouro Pedro, cursou Ciências e Letras.

Foi funcionário público da Secretaria de Guerra do governo federal. Vítima do preconceito, ele acabou no alcoolismo, morrendo no dia primeiro de novembro de 1922, com 41 anos de idade. [Coleção Folha]

Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2011 [v. lista de livros agendados], tema Clássico da literatura brasileira .

Blog do Desafio Literário

Título: Triste Fim de Policarpo Quaresma
Autor: Lima Barreto
Coleção: Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros
Editora: Folha de S.Paulo
Ano: 2008
Páginas: 255

Desafio Literário | Reflexos do Baile

Sinopse
“Reflexos do Baile” mostra a necessidade do escritor exercer o papel de informar. Nele, Callado monta um mosaico, que exige do leitor muita atenção. O livro conta a história do seqüestro de um embaixador – medida bastante usual pelos militantes de esquerda – durante um baile de gala. Qualquer semelhança com a realidade brasileira, não era uma mera coincidência. Era o estilo Callado de escrever.

Capa

Eu levei oito dias e quatro horas para ler Reflexos do Baile: oito dias para as primeiras onze páginas e quatro horas para todo o resto. Embirrei com as primeiras vozes narrativas [são várias no decorrer do livro] pernósticas, antipáticas.

Daí tive insônia numa madrugada e pensei: “uia, aquele livro chato decerto que vai me pôr pra dormir!” Peguei, comecei a ler, li mais um pouquinho, só mais um capítulo e como assim já são 5h45?! Tinha terminado sem perceber o tempo passar.

O complicado é engrenar: a história é contada através de bilhetes, cartas, memorandos, registros de diário. São endereçados, mas não assinados, dificultando a identificação do autor de cada voz por um bom tempo, até que o leitor passe a fazer associações por inferência a partir do que outros disseram sobre cada participante do enredo.

Tem o embaixador português e o adido do mesmo consulado; tem o embaixador norte-americano e a esposa que ficou nos EUA, além de mais um adido; tem o diplomata aposentado, sua filha e os empregados da casa; tem o idealizador do projeto dos apagões [lembrei tanto da situação atual da energia elétrica no Rio]; tem o funcionário da companhia elétrica; tem o líder revolucionário; tem os conspiradores; tem a polícia. Tem vozes que desaparecem no meio do livro e outras que surgem no final. É um exercício e tanto, reconhecê-las.

No Rio de Janeiro da época da ditadura militar, um grupo revolucionário planeja o sequestro da Rainha da Inglaterra durante um baile na cidade, enquanto companheiros ideológicos realizam roubos para se aparelhar para o evento. A Rainha escapa, mas dois diplomatas tornam-se reféns do grupo.

Um ponto que chamou a minha atenção é que o autor procurou não tomar partido de lado algum, apontando as falácias, defeitos e fraquezas de cada um com um olhar crítico e distanciado. Considerando-se que ele escreveu o romance enquanto os fatos aconteciam na vida real, isso depõe a favor do lado jornalista de Antonio Callado. Quanto ao lado escritor, a forma como Reflexos do Baile foi composto também depõe favoravelmente.

Sobre o autor

Antônio Carlos Callado não separava o jornalismo da literatura. Fazia questão de dizer que o escritor tinha a função de informar. Por isso, em seus romances ia direto ao assunto. E nas reportagens, deixava clara a sua opinião. “Mesmo quando fazia jornalismo estava fazendo literatura”, afirmou certa vez a jornalista Ana Arruda Callado, sua segunda esposa com quem dividiu duas décadas de vida.

Jornalista, romancista, biógrafo e teatrólogo, Antônio Callado nasceu no dia 26 de janeiro de 1917, em Niterói (RJ). De família classe média alta, o pai era médico, poeta e também jornalista. A mãe, professora. [Coleção Folha]

Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2011 [v. lista de livros agendados], tema Clássico da literatura brasileira .

Blog do Desafio Literário

Título: Reflexos do Baile
Autor: Antônio Callado
Coleção: Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros
Editora: Folha de S.Paulo
Ano: 2008
Páginas: 171

Desafio Literário | Infância

Sinopse
Publicado em 1945, Infância é uma autobiografia de Graciliano Ramos que prova ser possível uma obra somar os elementos pessoais com os sociais. Muito do que o autor confessa em suas memórias são problemas que afetaram não só a ele mesmo, mas também o seu meio. Sua dor é também a dor de nosso mundo. Além disso, esse livro lida com elementos que nos fazem entendê-lo como base de todo o universo literário do autor. Nele vemos temáticas que vão povoar suas obras-primas: São Bernardo, Vidas Secas e Angústia. O primeiro aspecto que chama a atenção é a descrição de Graciliano como uma criança oprimida e humilhada, pois é um ser fraco diante de adultos, mais fortes. Este é um dos cernes de sua visão de mundo: a opressão. Quem tem poder, naturalmente massacra, sufoca.

Capa

Quando vi a data de publicação deste livro fiquei até admirada: era uma época difícil para a liberdade de expressão e o autor expressa pontos de vista considerados subversivos. Tá certo que o fato de narrar os fatos a partir da perspectiva de uma criança possa ter garantido o passe livre, mas talvez por isso mesmo a visão crítica seja mais dura.

O alvo principal é a família – especialmente os pais, que Graciliano guardou na memória pelos castigos, o único contato físico que tinha deles. Em seguida vinha a religião, por causa da atitude materna de impor sem discutir. A educação formal também é lembrada com ressentimento quando ele narra a sucessão de professores despreparados ou cruéis que o mantiveram analfabeto até quase os dez anos de idade – imagine a quantidade de Gracilianos Ramos que se perdem no país até hoje!

A política do senhor de engenho vem um pouco mais tarde no livro e não é por ser aparentado com o dono de engenho e, portanto, usufruir de certas regalias que o autor deixa de registrar a injustiça desse sistema.

Tudo isso é o lado positivo do livro, pra mim, mas a infância de Graciliano se passou numa época em que ocorreu uma mudança social no país provocada pela abolição da escravatura, e o autor me deixou uma impressão ruim na forma como trata a questão. Reflexo do pensamento da sociedade da época? Talvez seja, mas sobre outros aspectos ele demonstra ter ideias não conformadas com as da maioria.

Isso não é motivo para evitar ou proibir a leitura, porque o processo de crescimento e inclusão num mundo hostil como o que o autor enfrentou, sem os pontos de fuga da fantasia ou das brincadeiras típicas, resultou num livro perturbador. Muita vez me revoltei, me compadeci, me indignei [até com o escritor!], e no fim senti que este não é um livro que vai voltar pra prateleira e ser esquecido.

Sobre o autor

Primogênito dos 16 filhos que teve o casal Sebastião Ramos de Oliveira e Maria Amélia Ferro Ramos, Graciliano Ramos nasceu em 27 de outubro de 1892 em Quebrangulo, no sertão alagoano. Morreu em 1953, no Rio de Janeiro. Escritor, jornalista e político. Publicou romances de cunho social, onde a paisagem e o homem nordestino são destaques. [Coleção Folha]

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2011 [v. lista de livros agendados], tema Clássico da literatura brasileira .

Blog do Desafio Literário

Título: Infância
Autor: Graciliano Ramos
Coleção: Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros
Editora: Folha de S.Paulo
Ano: 2008
Páginas: 221

Desafio Literário | Toda Terça

Sinopse
Num divã de analista, no Rio de Janeiro, Laura fala de sua relação com um homem casado e com um estranho que conheceu numa sessão de cinema. Muito longe dali, em Frankfurt, o latino-americano Javier tem um caso com uma estudante de antropologia chamada Ulrike. Conforme o livro se desenrola, episódios aparentemente desconectados vão tecendo uma surpreendente trama de encontros e desencontros amorosos, o mote deste excelente romance de estréia.

Capa

Depois de dois livros medianos-para-fracos neste mês, eu precisava de uma injeção de ânimo para completar o DL Novos Autores; assim, pedi e a Vivi autorizou a substituição do terceiro título. Optei por uma autora de quem nunca tinha ouvido falar, a partir de uma notinha no blog da Companhia das Letras sobre um evento que debate “a nova literatura feminina brasileira”.

Mas Titia Batata, você não curte esse tipo de literatura segmentada por gênero!

Sim, é verdade. Não curto, não sou o público-alvo, só que uma breve espiada num trecho me convenceu a escolher Toda Terça, o primeiro romance de Carola Saavedra. E sabe o que? É um livro que  poderia ter sido escrito por um homem ou uma mulher; é literatura, e literatura não tem gênero.

É bem verdade que no primeiro capítulo fiquei ressabiada, afinal seriam as sessões de psicanálise de uma personagem aparentemente dispersiva. Ao continuar a leitura, aos poucos me senti agarrada. Um dos grandes atrativos do romance é que as coisas importantes não são ditas: Laura fala muito, mas são as coisas que ela não conta a Otávio, o analista, que dizem mais sobre ela.

A mesma coisa acontece com Javier, o estudante de doutorado em Frankfurt que nunca diz o que se passa em sua cabeça. A primeira parte do livro é narrado a duas vozes, alternando-se entre Laura e Javier, e eu gostei muito da solução estética utilizada pela autora para identificar cada voz: a de Laura é exteriorizada em diálogos, a de Javier é interiorizada. Enquanto nos capítulos de Laura o tempo parece aprisionado, letárgico, nos de Javier os minutos transformam-se em meses ao fim do parágrafo e você viveu todos eles.

A segunda parte contém um único capítulo e é narrada por uma terceira voz, que ao mesmo tempo amarra as duas histórias anteriores e lança o marco de uma nova história.

A rotina de Ulrike, que freqüentava bares, lia autores conhecidos sem saber quem eram, gostava de filmes sobre mulheres voadoras e poetas traduzidos, e sonhava em um dia dar a volta ao mundo escrevendo para a National Geographic, como se fosse minha, essa rotina, tão rápido o alheio se infiltrava nos meus olhos, nos meus passos, nos bolsos do meu casaco, e eu já tinha praticamente esquecido o quarto de pensão onde morava, que não era ruim, ao contrário, era até agradável, sem aquele ir e vir de gente e desejos de bom dia e opiniões imprescindíveis a ser transmitidas para o bem da humanidade, [...]

Te contar, a mulher tem estilo.

Sobre a autora

Nasceu em Santiago do Chile, em 1973, e veio com a família para o Brasil três anos depois. Morou na Alemanha, onde concluiu um mestrado em comunicação, e também na Espanha e na França. Hoje vive no Rio de Janeiro e é escritora e tradutora. Em 2005, publicou o livro de contos Do lado de fora (7Letras, 2005). Recebeu o prêmio APCA de melhor romance pelo livro Flores azuis (2009). [Cia das Letras]

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2011 [v. lista de livros agendados], tema Novos Autores.

Blog do Desafio Literário

Título: Toda Terça
Autor: Carola Saavedra
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2007
Páginas: 160

Desafio Literário | Sétimo

Sinopse
Depois de 500 anos, um vampiro desperta e abre os olhos numa terra estranha, nova e cheia de sangue. “Sétimo” decide fazer do Brasil seu novo lar, para tanto terá de formar um verdadeiro exército de vampiros para demarcar seu território, exibir seu poder e dar combate aos caçadores. Elege um vampiro recém-criado para servir-lhe de guia, general e pupilo.

Em sua sede por sangue e conquistas, ao autoproclamar-se a criatura mais poderosa da Terra, Sétimo atrai além de vampiros, diversos inimigos deste e do outro mundo. Estes inimigos despenderão esforço sobre-humano, empregando, além de armas carregadas com balas de prata, dentes pontiagudos e poderes paranormais. O espetáculo mais bizarro da terra não pode parar.

Capa

Sétimo é sequência de Os Sete, que por sua vez era uma espécie de spin-off do primeiro livro de André Vianco [O Senhor da Chuva]: segundo a mitologia do autor, os primeiros vampiros foram criados pelo demônio em pessoa demoneza na aurora dos tempos. Sete desses vampiros primordiais residiam em Portugal num castelo às margens do Rio D’Ouro, até que um dia o demônio chegou pra eles e disse: “Eae, rapaziada? Na boa? Olha só, tou bolando umas parada sinixxxtra aí, seguinte… Cês me entregam um de vocês aí pra ser meu escravo no inferno por 150 anos e eu dou um poder especial para cada um dos outros, tá ligado?”.

Os vampiros armaram um complô, traíram um do grupo e o entregaram ao demônio, que cumpriu sua promessa e transformou-os numa equipe terrível, capaz de fugir do mais valoroso caçador de vampiros da época, Tobias. Mas aí passaram-se 150 anos e  o demônio libertou o Sétimo vampiro…

Os Sete foi o primeiro livro que li com temática sobrenatural de um escritor brasileiro com narrativa ambientada no Brasil importando mitologia europeia. Os vampiros de Vianco tiveram de se aclimatar não apenas a uma nova terra mas também a uma nova era com carros, aviões, telefones, geladeiras, TV, metralhadoras [mas não vinho e cerveja, né? Pelamor. Vinho e cerveja existem há milênios].

Oh, sim. Os vampiros de Vianco bebem cerveja.

Continuar lendo

Desafio Literário | Dez (Quase) Amores

Sinopse
[...] Bem-vinda ao clube das mulheres que só estão esperando uma boa oportunidade para mandar suas teorias às favas e passar a viver a vida como ela se oferece. Maria Ana, personagem do livro de estréia da Claudia Tajes, também sonha com o príncipe encantado, mas não é fanática por contos de fadas: enquanto não pinta o homem certo, ela vai se divertindo com os errados.[...] [Prefácio de Martha Medeiros]

Capa

Cada capítulo desse livro é dedicado a um homem [ou menino] que fez parte da vida sentimental da protagonista Maria Ana. O livro é narrado em primeira pessoa no estilo livro de memórias.

Pontos positivos

A capa é interessante [confesso: comprei pela capa mesmo]. É bem escrito, flui sem engasgos, o estilo é leve e engraçadinho sem forçar a mão. O melhor de tudo: é curtinho! Não fica enrolando por 600 páginas igual o Casório?! da Maryan Keyes, que sofri pra ler no DL do ano passado. Aliás, um ponto em comum entre esses dois livros é que eu rejubilava a cada relacionamento fracassado da protagonista. Nah, quem eu tou querendo enganar? Tem um monte de ponto em comum entre esses dois livros, era só copiar-e-colar o post do ano passado aqui e diria tudo o que achei de Dez [Quase] Amores. Um dos atrativos mais importantes numa leitura, pra mim, é o grau de empatia que estabeleço com o personagem principal ou um dos secundários. Nesse caso estabeleci uma anti-empatia [isso existe?] – mas não deixa de ser uma relação com a personagem, né? Por isso listei aqui na parte das coisas positivas. :lol: O livro deve interessar ao público que curte tramas que discutem relações afetivas. O problema é….

Pontos negativos

…. que eu não faço parte desse público-alvo.

Sobre a autora
Claudia Tajes nasceu em Porto Alegre em 1963. Redatora publicitária, estreou na literatura com Dez (Quase) Amores (L&PM Editores, 2000). Seguiram-se As Pernas de Úrsula & Outras Possibilidades (L&PM Editores, 2001) e o romanceDores, Amores & Assemelhados (L&PM Editores, 2002), A vida sexual da mulher feia (2005), Louca por homem (2007), Vida dura (L&PM POCKET, 2008) e Só as mulheres e as baratas sobreviverão (L&PM Editores, 2009). [L&PM]

Nota: 3

(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2011 [v. lista de livros agendados], tema Novos Autores.

Blog do Desafio Literário

Título: Dez (Quase) Amores
Autor: Cláudia Tajes
Editora: L&PM
Ano: 2008
Páginas: 128 [formato pocket]