Desafio Literário | Agosto [livro reserva]

Sinopse
Em 1º de agosto de 1954, um empresário é assassinado no Rio de Janeiro. Enquanto isso, o chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas planeja um atentado contra o jornalista Carlos Lacerda – a crise política gerada culminaria no suicídio de Vargas. Misturando realidade e ficção com maestria, Rubem Fonseca relembra um mês marcante para a história do país.

Capa do livro

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O tema do DL de agosto é Romance Policial, um gênero de que eu gosto muito. Mesmo assim demorei a engrenar na leitura: até comecei a ler o livro titular [Cemitério de Indigentes, Patricia Cornwell], mas me pareceu que eu teria de ler os livros da Kay Scarpetta na sequência e não começar pelo quinto volume. ;)

Parti para o livro reserva, cujo título até combina com o mês do tema, veja só! A trama do romance de Rubem Fonseca inicia-se logo na madrugada do dia primeiro de agosto de 1954 na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, com o assassinato do empresário Paulo Gomes Aguiar em seu duplex num edifício de luxo. A investigação cai nas mãos do Comissário Alberto Mattos, um dos raros policiais impolutos da polícia carioca.

Durante a investigação, Mattos encontra pistas que levariam ao Anjo Negro Gregório Fortunato, o chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas. O próprio autor foi comissário de polícia entre 1952 e 1958, portanto podemos supor que o personagem principal de seu livro seja um alter-ego. A narração é feita em terceira pessoa e a atmosfera geral me lembrou um pouco dos policiais noir norte-americanos da década de 1930, com os personagens amorais e cínicos. Alberto Mattos é incorruptível, mas não tem mais ilusões idealistas.

Rubem Fonseca trabalha três núcleos no livro: o primeiro é o dos fatos históricos ocorridos no mês de agosto de 1954 que se iniciaram no complô do assassinato do jornalista Carlos Lacerda, o Corvo. Lacerda sobreviveu, mas seu guarda-costas morreu – como o guarda-costas era um major da Aeronáutica [Rubem Vaz], as Forças Armadas aproveitaram a desculpa para tomar posição contra Getúlio, que vinha perdendo força e poder dentro do governo.

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10 livros em 10 dias | Livro que mais recomendo

Capa do livro

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Dia 7

Outro tópico em que tive dificuldade imensa para escolher apenas um. Me apeguei à tag Top Favoritos de novo mas não adiantou. Acho difícil recomendar um livro assim, às escuras – geralmente levo em consideração a outra pessoa, seus interesses, seu grau de envolvimento com a leitura, etc.

Apelei então para um método científico: uni-duni-tê, o escolhido foi O Menino no Espelho, do escritor brasileiro Fernando Sabino. Primeiro porque acho Sabino um escritor subestimado, devia ser mais lido e recomendado e comentado [eu me incluo entre os culpados]. Segundo porque este livro é um dos meus Top Favoritos Foréva, resistiu a várias releituras ao longo dos anos [ao contrário do livro de ontem, por exemplo].

A história gira sobre as memórias de infância do autor na Bela Horizonte dos anos 20 como se fosse narrada pela criança que ele foi, então a linguagem é simples e tem até mesmo um ligeiro sotaque mineirês. E, como boa história de criança, tem lá seus momentos de fantasia também… Mas este não é um livro infantil, e sim um livro universal que pode e deve ser lido a qualquer tempo em qualquer lugar, em qualquer idade, sem restrições religiosas, políticas, sequissuais, por gente que gosta de ler e por quem não curte tanto assim.

Sabino trata o leitor com respeito e oferece um livro cheio de camadas [eu sei, tou me repetindo, mas é a verdade!] que pode ser lido desde como uma fábula infanto-juvenil até como uma alegoria política [foi publicado na última fase da ditadura militar brasileira, em 1982]. Em todo caso, é uma ótima porta de entrada para os livros do autor – e dele há muitos, ainda bem.

Leia aqui o prólogo e parte do capítulo II.

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Desafio Literário | Auto da Compadecida

Sinopse
A peça teatral de Ariano Suassuna é uma comédia em três atos que mescla elementos da literatura de cordel nordestina e da tradição religiosa em uma história que envolve a avareza humana, a fé e mesmo algum teor fantástico com as aparições de Jesus Cristo, Nossa Senhora e o Diabo.

Considerada um clássico e aclamada pela crítica tão logo foi encenada pela primeira vez, a trama de “Auto da Compadecida”, que conta a história dos malandros João Grilo e Chicó, ganhou novo fôlego de popularidade recentemente ao ser adaptada para a televisão e para o cinema em produções homônimas.

Capa do livro

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Eu gosto tanto da minissérie e do filme adaptados desta obra que um de meus gatos se chama João Grilo, por ser amarelado – não amarelo, e sim cinza amarelado [e pensei em chamar Nestor de Chicó, mas acabou pegando Nestor mesmo]. Por muito tempo, ainda, peguei a mania de responder “Não sei, só sei que foi assim” com a mesma entonação do Selton Mello, e quando a coisa apertava eu soltava um “Ai como eu sofro!” ao estilo do Matheus Nachtergaele.

Devo ter irritado muita gente. :lol:

O filme de 2000 é muito fiel ao livro [que na verdade é uma peça teatral] exceto por alguns personagens: Rosinha, o Cabo Setenta e o valentão Vicentão não são desta peça [a historinha da porca é contada na peça O Santo e a Porca], também de Ariano Suassuna; o roteiro do diretor Guel Arraes ainda excluiu três personagens do livro na adaptação [o palhaço, o sacristão e o frade], mas, fora isso, os diálogos não tiveram muita alteração. Eu lia o livro e “ouvia” os atores recitando suas falas na minha cabeça, foi bem legal.

João Grilo: Ah, isso é comigo. Vou fazer um chamado especial, em verso. Garanto que ela vem, querem ver? (Recitando.) Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré! A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer. A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé. Já fui barco, fui navio, mas hoje sou escaler. Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher.
Encourado: Vá vendo a falta de respeito, viu?

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Desafio Literário | Memorial de Maria Moura

Sinopse
Interior do Brasil, século XIX: família, honra, terra. Estas eram as três únicas razões da vida de uma mulher da época. Maria Moura perdeu todos esses motivos. Mas não se deu por vencida: preferiu pegar em armas e ir atrás dos seus sonhos e de suas terras. À luta de Maria Moura, soma-se a tragédia do amor proibido entre o padre José Maria e a beata Bela e a paixão corajosa da submissa Marialva com o trapezista Valentim. Histórias de lutas e desafios, mas com armas bem diferentes.

Capa do livro

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O Desafio Literário by Romance Gracinha foi uma oportunidade ótima pra me comprometer com a leitura de livros que estavam/estão se acumulando na estante, à espera do “tempo” pra ler. É o caso de Memorial de Maria Moura da Rachel de Queiroz, que ficava pra trás por causa da sua extensão [600 páginas nesta edição] – mas, oras bolas! Eu li forçado um romance de mais de 640 páginas que não gostei [Casório], comé que poderia não ler o de uma autora que eu gosto? Então vamos lá!

MMM é uma saga que se passa no interior do Ceará  e Pernambuco na metade do século 19. O Brasil ainda é um império escravagista e a lei da igreja romana predomina. A mulher era menos do que um objeto, propriedade do pai, dos irmãos ou do marido. Saber disso torna a leitura mais enriquecedora; é diferente de mergulhar na trama como se fosse atemporal ou em qualquer outro lugar.

Rachel de Queiroz criou três núcleos neste livro: o de Maria Moura, a sinhá que se envolve numa guerra pela posse de terras da família; o do padre Zé Maria, que vira um fugitivo; e o de Marialva, prima de Maria Moura que foge do controle dos irmãos. Eventualmente estes núcleos passam a interagir entre si; até lá, cada capítulo é narrado por um dos personagens. Não se preocupe com as mudanças de narrador, ele ou ela é identificado logo no título do capítulo mas, mesmo se não fosse, a autora dá a cada um o seu estilo próprio de narrativa. São diferenças no vocabulário, na construção de frases, na musicalidade da fala que identificam quem é que conta a história.

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Grandes escritores brasileiros

Coleção Grandes Escritores Brasileiros da Folha de São PauloAlguma coisa está mudando em Pedra Lascada. Cinco anos atrás, quando a Folha de SP lançou a coleção de clássicos Biblioteca Folha, Lolita chegou a encalhar na banca da cidade – e essa edição era grátis! As pessoas compravam o jornal de domingo e desdenhavam o brinde, que era um livro em papel especial e capa dura com sobrecapa. De graça, deixe-me relembrar. Não pegavam o livro nem pra enfeitar a estante e fingir que sabem ler.

No domingo agora saiu uma nova coleção pela mesma Folha, desta vez de clássicos brasileiros. A primeira edição não foi grátis, desta vez: quem comprou o jornal teve que desembolsar mais R$14,90 pra levar Dom Casmurro e Morte e Vida Severina. OK, levou um deles de brinde, mas assim mesmo teve que pagar pelo outro.

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Tomai e comei

Digestivo Cultural: “”Livros devem ser oferecidos como uma caixa de bombons.
Adélia Prado, em entrevista sobre como despertar o interesse de novos leitores.”

Com esta introdução, a colunista Adriana Carvalho montou três “caixas de bombons”, para três fases da vida. A primeira para crianças, a segunda para jovens e a terceira para adultos. Eu confesso que li poucos dos que ela citou: A Fada Que Tinha Idéias é um dos meus TFF; de Agatha Christie li quase todos; um pouco de Conan Doyle [três, agora! ampliei 300% em relação ao começo do ano], um pouco de Garcia Marquez, Saramago, Clarice Lispector e Cortazar. E muita Turma da Mônica e Tio Patinhas, claro. Assim, minhas caixas talvez sejam bem diferentes das dela. Vam’ver…

A primeira caixa tem a coleção Paraíso da Criança, da Edelbra – que sobrinha adora. São contos de fadas e do folclore brasileiro ilustrados com fotos de bonecos e cenários construídos a mão, um capricho só. Tem também alguns livros de tecido e borracha, com elementos destacáveis, daqueles que os adultos deixem arrastar e puxar pra todo lado sem dar bronca pra não rasgar ou amassar ou rabiscar com giz de cera. Ler tem que ser lúdico, senão vira tortura.

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