Desafio Literário | Cittá di Roma

Nada é impossível
Eu costumo dizer que um livro de memórias, além do prazer que dá escrevê-lo, trazendo lembranças antigas, resgatando amizades perdidas no tempo e no espaço, nos surpreende, por vezes, com gratas surpresas. Eu, que não tomo notas de nada, nunca possuí um diário, tiro tudo da memória à medida que vou escrevendo, além das amizades resgatadas, volto a sentir perfumes, sabores e relembro cores. [pág.70]

Capa

O livro de memórias Cittá di Roma começa contando a história dos avós da autora Zélia Gattai a partir de 1890 na Itália e termina com os seus netos e sobrinhos espalhados pelo Brasil em 2000. São seis gerações, cento e dez anos de mudanças sociais e muitas crônicas deliciosas de ler.

O tom é menos político do que seu livro de estreia [Anarquistas, Graças a Deus - também um livro de memórias] e ela enfoca mais a família mesmo. O avô ateu louco por uma brincadeira que batiza a filha mais nova de Hiena porque, como ele diz ao funcionário do cartório, “se o papa pode ser Leão, por que a filha não poderia ser Hiena?” O avô católico que trouxe a família, seduzido pela promessa de uma vida melhor nas fazendas de café do Brasil que recém aboliu a escravatura e que sê humilhado  e tratado como escravo num país racista e preconceituoso.

As duas famílias saíram do porto de Gênova no mesmo navio [o Cittá di Roma do título] mas só foram se conhecer anos depois em São Paulo, quando Ernesto Gattai e Angelina Dal Col se encontraram nas peças do teatro operário; ambos tinham só quatro anos de idade quando saíram da Itália.

Zélia é a caçula dos cinco filhos do casal, curiosa e perguntadeira. Das histórias contadas em família [na presença das crianças ou entreouvidas atrás de portas e janelas] e das “entrevistas” que a Zélia criança fazia com os tios e primos surgem as histórias desse livro. Elas seguem uma ordem quase cronológica, mas o estilo da escritora permite digressões. Em uma delas, me enterneci com a filha pequena de Zélia e Jorge Amado, que pede um filhote de panda para o pai trazer de lembrança da sua viagem à China.

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Cultura de massa

Hoje deixei o rádio ligado depois do noticiário local, num programa de debates, porque o tema era literatura – mais especificamente o centenário de morte do Machado de Assis. Primeira frase do moderador:

Eu nem sabia que ele tinha morrido. E pelo jeito já faz algum tempo, né?

Lembrei de uma outra ocasião no mesmo programa, meses atrás, quando o tema foi literatura de vestibular. O moderador era outro mas a ignorância era idêntica. O entrevistado era um professor de cursinho que dizia que, devido ao recente falecimento de Zélia Gattai, o vestibulando podia esperar que caíssem questões sobre os livros dela nas próximas provas. Moderador e entrevistadores se espantam:

Zélia Gattai? Do plano Collor?

Esse tipo de ignorância massiva é cruel, cruel… E a propaganda oficial bate no peito dizendo que a educação municipal é uma das 10 melhores do país.