Memórias de Uma Gueixa – livro

Capa do livro Memórias de Uma GueixaNa sinopse do livro Memórias de uma gueixa [Memoirs of a geisha, EUA/1997], do norte-americano Arthur Golden, diz-se que uma das formas de ser lido é como “um mergulho na tradicional cultura japonesa”. Eu complementaria isso com um “sob o ponto de vista de um gaijin” [estrangeiro]. Se meu avô lesse o livro decerto não encontraria muita coisa familiar ali, por isso preferi ler como romance de ficção – não me entendam mal, não detestei o lviro: tanto que li as 460 páginas praticamente de uma sentada só, até as 5h da manhã, porque não conseguia largar.

O romance é contado como se fosse o relato de Chiyo ao biógrafo, em primeira pessoa, desde a época em que era menina, filha de pescador que andava suja e descalça quando foi enviada a Kioto com a irmã mais velha. Por causa da cor dos olhos teve a sorte de ser aceita num okiya [casa de gueixas, mal-traduzindo], enquanto a irmã foi entregue a um prostíbulo. A partir daí o autor conta a trajetória da garota até ela tornar-se uma das gueixas mais populares, superando a sua mestra Mameha e sua nêmesis Hatsumomo, adotando o nome Saiyuri. Nesse ponto achei o livro interessante por mostrar a diferença entre gueixa e prostituta, que um gaijin imagina ser a mesma coisa.

Outro enredo dentro da trajetória de Saiyuri conta a história de amor entre a gueixa e o shacho de uma indústria, que atravessou décadas. Aqui cabe um parêntese bem grande: nas resenhas e matérias que li, sobre o livro e sobre o filme, mencionava-se que Saiyuri amava um político, o Presidente. Até onde eu saiba, o Japão era uma monarquia até ser derrotado na Segunda Guerra Mundial, portanto era liderado pelo Imperador. Após a Guerra o Japão adotou o parlamentarismo, assumindo um Primeiro-Ministro. Nunca, então, teve um Presidente. O que os tradutores chamam de Presidente refere-se ao equivalente de CEO. Washington Olivetto é o shacho [pronuncia-se “chatchô”] da W/Brasil, o Zé do bar é o shacho do Bar do Zé; não tem nada a ver com cargo político.

O que me levou a ler o livro mais como entretenimento mesmo está no quarto final, que se passa durante a Segunda Guerra e o pós-Guerra. Em nenhum momento o autor se aprofunda muito nos sentimentos dos japoneses em relação à Guerra, nas dificuldades que passaram. Não bastasse romantizar a História japonesa com tintas rosadas, às vezes chega a afirmar coisas que contradizem a própria História americana. Ele diz, pela voz de Saiyuri, que é mentira que as tropas norte-americanas tivessem promovido estupros na ocupação, entre outras tentativas de convencer que a ocupação foi aceita de forma alegre pelos japoneses e que os soldados eram gentis-homens. Talvez alguns o fossem.

Memórias de uma gueixa
Arthur Golden
Ed. Imago
3ª edição – 1996
Trad. Lya Luft

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4 comentários sobre “Memórias de Uma Gueixa – livro

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