Lawrence da Arábia – Versão restaurada

Pôster do filme Lawrence of ArabiaAviso de amiga: antes de começar a assistir Lawrence da Arábia vá ao banheiro e faça um xixi honesto, ainda mais se não for em DVD. Ninguém me avisou que são três horas e quarenta e dois minutos batidos nessa versão restaurada [incluindo os créditos], 35 a mais do que a que foi exibida nos cinemas quando foi lançado em 1962.

Eu perdi os dez primeiros minutos no TCM, que exibiu sem comerciais. Mesmo assim, no final já cruzava e descruzava as pernas em agonia – mas nem pensava em sair no meio do filme.

O roteiro foi baseado na autobiografia/relato de viagem de T. E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria e relata a fase em que ele viveu na Península Arábica durante a Primeira Guerra Mundial, quando Inglaterra e França tinham interesse na região porque estava sob domínio dos turcos e estes sob o comando alemão.


Quando se lê alguns resumos e críticas a impressão que me dá é que Lawrence foi uma espécie de herói branco que salvou um povo bárbaro de seus inimigos e de si próprios, bem ao gosto do cinema norte-americano. Um personagem, por coincidência um repórter norte-americano, realmente tenta criar o ídolo mas o diretor David Lean evitou cair na armadilha.

Anthony Quinn, Peter O’Toole e Omar Sharif

Assim, o Lawrence do filme é um sujeito com mais dúvidas do que crenças, sejam religiosas, políticas ou morais e mostrado com poucas concessões e escusas, como o exibicionista que era.

O trabalho dos atores nesse ponto foi fundamental: mesmo num papel pequeno, José Ferrer convence o público de que é um homem doente.

Ferrer considered this his best film performance, saying an interview: “If I was to be judged by any one film performance, it would be my five minutes in Lawrence.” [Wikipedia]

Omar Sharif e Anthony Quinn como os comandantes de Lawrence oferecem duas faces opostas e complementares para Peter O’Toole, que fazia seu primeiro papel grande no cinema.

De certa forma, El Aurens me lembra o Frodo Baggins de O Senhor dos Anéis: ambos devem reunir tribos inimigas para combater o Mal Maior, ambos seguem numa saga por território inóspito, respeitando cultura e os costumes dos lugares por onde passam e ambos sentem empatia pelas pessoas/criaturas diferentes que encontram pelo caminho.

Chega a ser curioso caus que, na semana passada, vi dois dos papéis mais recentes de O’Toole: o Rei de Stardust e o Papa Paulo 3º da série The Tudors. São 45 anos separando estes de Lawrence… Mais do que eu tenho de idade.

Segundo aviso: se você é do tipo que curte um ritmo frenético ou prefere que todos os minutos de um filme sejam preenchidos com algo de relevante, afaste-se. Existem muitas cenas em Lawrence em que a câmera apenas aponta para um local vazio no meio do deserto, aguardando que algo aconteça. Os diálogos também são tortuosos para o padrão ocidental mas, pra quem não tem pressa, vale totalmente a pena.

To film Omar Sharif’s entrance through a mirage, ‘Freddie Young (I)’ used a special 482mm lens from Panavision. Panavision still has this lens, and it is known among cinematographers as the “David Lean lens”. (iMDB)

V. cena da miragem no Youtube [quase 8 minutos] que exemplifica o ritmo e a excelência do filme.

Lawrence e Ali

O poema abaixo abre a autobiografia de T. E Lawrence; alguns pesquisadores atribuem as iniciais S. A. a Selim Ahmed (“Dahoum”), um dos órfãos que servem a Lawrence no deserto.

To S.A.

I loved you, so I drew these tides of men into my hands
and wrote my will across the sky in stars
To earn you Freedom, the seven-pillared worthy house,
that your eyes might be shining for me
When we came.

Death seemed my servant on the road, till we were near
and saw you waiting:
When you smiled, and in sorrowful envy he outran me
and took you apart:
Into his quietness.

Love, the way-weary, groped to your body, our brief wage
ours for the moment
Before earth’s soft hand explored your shape, and the blind
worms grew fat upon
Your substance.

Men prayed me that I set our work, the inviolate house,
as a menory of you.
But for fit monument I shattered it, unfinished: and now
The little things creep out to patch themselves hovels
in the marred shadow
Of your gift.

Fonte: Project Gutenberg

A S.A.

Amei-te, e por isso tomei nas minhas mãos esta maré de homens,
e escrevi a minha vontade em estrelas pelo céu
Para te dar a Liberdade, essa preciosa casa de sete pilares,
para que que os teus olhos me fitassem, brilhantes
Quando chegássemos.

A morte parecia servir-me, no caminho, até nos aproximarmos
e te vermos à espera:
Quando sorriste, ela, cheia de inveja, ultrapassou-me
e levou-te consigo:
Para o seu silêncio.

O amor, fatigado da jornada, procurou o teu corpo, nossa breve
recompensa, enquanto nossa,
Antes que a mão macia da terra explorasse as tuas formas,
e os vermes cegos se alimentassem
Da tua substância.

Pediram-me os homens que erguesse a nossa obra, a casa
inviolada, em memória de ti.
Mas, porque não era o monumento adequado, despedacei-a,
Inacabada: e agora
Pequenos seres rastejam no silêncio, construindo choupanas
na sombra arruinada
Da dádiva que eu te destinava.

Fonte: Jorge Vargas, no blog Aventuras em mim (menor)

O real T. E. LawrenceCom o passar do tempo, muitos dos fatos descritos por Lawrence estão sendo revistos, seja do ponto de vista da acuidade histórica, seja da perspectiva que foi contada.

No primeiro caso, por exemplo, o pesquisador James Barr refuta a afirmação de que Lawrence tenha sido sexualmente agredido por guardas turcos em Deraa.

O que esse aluno brilhante, formado em história por Oxford, oficial da inteligência inglesa, foi fazer no Oriente Médio? A pergunta tem muitas respostas. “Eu vim porque o deserto é limpo”, dizia Lawrence. O biógrafo Brown acha que seu objetivo não foi outro senão buscar elementos narrativos para escrever um grande livro. (Veja)

Quanto à situação atual na região que El Aurens tentou unificar e tornar independente, bem… Omar Sharif tem mais autoridade para comentar.

Egyptian actor Omar Sharif — best known for his film roles in Lawrence of Arabia and Doctor Zhivago — reportedly blasted U.S. policy in Iraq and said Americans are ignorant.
According to The Middle East Media Research Institute, Sharif said the “East” will never have a democracy because people like him “prefer to go to the neighborhood sheik.” [Fox News]

Anúncios

14 comentários sobre “Lawrence da Arábia – Versão restaurada

  1. Menina, eu também vi (completei a maratona TCM com “Harati, ontem de madrugada). E fiz o xixi mais corrido da minha vida. Comecei a ver bebericando um copo com meio litro de suco de maracujá – e fiquei depois duas horas procurando uma cena que valesse o sacrifício de correr até o banheiro.

  2. Nossa,
    vc está desenterrando filmes antigos.

    Eu assisti a Ponte do Rio Kwai, a muito tempo atrás. Não lembro mais nada do filme, só da musiquinha assobiada.

    Nossa… vc me fez lembrar desta musiquinha, que até fez parte de um comercial antigo.

    PS: Este filme “Lawrence da Arábia” não era, originalmente P&B? Ou já era em technicolor?

  3. marco, já era technicolor, não era??
    ponte sobre o kwai eu assisti uma vez na band, dublado, muito tempo atrás e também só lembro da música-tema…

    palpai, valeu pelo link, cada coisa legal que tem nesse site, ô meu jizuis amado do consumo exacerbado!

  4. Uma observação, Dahoum não é nenhum dos órfãos que aparecem no filme, mas um carregador de água da época em que Lawrence era arqueólogo, num período anterior ao retratado no filme. Ele morreu mais ou menos nessa época, mas já havia perdido o contato com Lawrence.

  5. Olá,

    estou reativando meu blog sobre cinema: (www.christianjafas.wordpress.com) o Imagem em Movimento.

    Fiquei uns anos sem escrever, mas agora estou voltando.

    um abraço,

    Christian

  6. Pingback: Domingueiras « Batata Transgênica

  7. Pingback: Blogagem coletiva | E meu Oscar vai para… O Homem que Não Vendeu Sua Alma « Batata Transgênica

  8. Tenho uma particular afeição por este filme, que assisti a primeira de muitas vezes em 1970 na telona do finado Bruni Flamengo, antes de ser dividido e demolido. Tinha onze anos e fui ver com minha mãe. Ainda me arrepio ao lembrar as emoções que senti com as belíssimas imagens em 70 mm do deserto, a música magistral de Maurice Jarre e as interpetações marcantes de Peter O´Toole (injustiçado pelo Oscar) e Alec Guiness. O maior filme de todos os tempos, arrisco dizer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s