Ratatouille

Pôster de Ratatouille

Pôster de Ratatouille

Momento confessional: eu nunca me considerei parte do pessoal que detesta o cinemão hollywoodiano só porque é norte-americano, que idolatra filmes cabeuça europeus e asiáticos e desdenha animações da Disney ou da Pixar – porque me divirto com cinemão e animações, e filme cabeuça só em doses homeopáticas que é pra não me pôr em mais crises existenciais do que sou capaz de superar.

Também na contramão, eu achei Ratatouille [Ratatouille, EUA/2007]apenas legalzinho – mas um legalzinho plus, acima de Sem Reservas. Não consigo pôr o dedo no que foi que aconteceu, no entanto…

Não deve ter sido a tática da antropomorfização [eita palavrão], caus que isso me engana direitinho desde, xeu ver… o Mickey? Os ratinhos da Cinderela? Em todo caso, é logo no comecinho do filme que me pego questionando a intenção do roteiro, quando o rato Remy declara sua admiração pelo Homem e a forma como ele emula comportamentos e ações humanas.

Como disse o fabuloso Maurício, era só uma história sobre pessoas e ratos. E a parte difícil era diferenciar as pessoas dos ratos. (O Fabuloso Maurício e Seus Roedores Letrados, Terry Pratchett, Ed. Conrad, pág. 9)

Puxa, acho que achei a razão: quando se trata de ratos que desenvolvem características humanas enquanto os homens dão vazão aos instintos mais baixos como a inveja, a ganância, o orgulho, os preconceitos e mesquinharias, eu lembro de Terry Pratchett. E como Pratchett escreve um pouco mais filosoficamente sobre o tema [e mais comicamente também], bom, é meio injusto com Ratatouille, né?

Talvez por isso, meu personagem favorito no desenho não é Remy, que alcança o ápice da transformação num ser humano após a briga com Linguini, quando ele deixa seus sentimentos mais mesquinhos surgirem; não é Linguini, o adolescente excessivamente adolescente farsesco norte-americano ; não é nem o vilão Skinner, cuja voz foi emprestada por Bilbo Baggins em pessoa [Ian Holm].

Anton Ego

Anton Ego

O crítico gastronômico Anton Ego é a personagem melhor construída de Ratatouille, apesar de não aparecer muito – e quando aparece rouba a cena.

A figura dele já é impressiva: alto, magro, curvado, pálido-cinzento – dizem que foi concebido sobre a imagem do ator francês Louis Jouvet; ao contrário dos demais personagens, Ego apresenta maior complexidade e profundidade, um pouco de amargura, um tanto de desesperança, um je ne sais quoi

Um dos motivos dos filmes de cozinha, IMHO, é a transformação simbolizada do alimento em comida, daquilo que sustenta o corpo naquilo que alegra o espírito. Em Ratatouille essa transformação acontece em/com Anton Ego, e também é dele o discurso que mais me emocionou no filme inteiro. Transcrevo abaixo, na íntegra, enquanto revejo no Youtube com a interpretação impecável de Peter O’Toole.

In many ways, the work of a critic is easy. We risk very little yet enjoy a position over those who offer up their work and their selves to our judgment. We thrive on negative criticism, which is fun to write and to read. But the bitter truth we critics must face, is that in the grand scheme of things, the average piece of junk is more meaningful than our criticism designating it so. But there are times when a critic truly risks something, and that is in the discovery and defense of the new. The world is often unkind to new talent, new creations, the new needs friends. Last night, I experienced something new, an extraordinary meal from a singularly unexpected source. To say that both the meal and its maker have challenged my preconceptions about fine cooking is a gross understatement. They have rocked me to my core. In the past, I have made no secret of my disdain for Chef Gusteau’s famous motto: Anyone can cook. But I realize, only now do I truly understand what he meant. Not everyone can become a great artist, but a great artist can come from anywhere. It is difficult to imagine more humble origins than those of the genius now cooking at Gusteau’s, who is, in this critic’s opinion, nothing less than the finest chef in France. I will be returning to Gusteau’s soon, hungry for more.

Titia Batata diz: vale cada guinéu da locação do DVD por causa da mini-animação “Quase abduzidos” [Lifted], do documentário animado “Seu amigo o rato” [que não me fez ter menos nojo de ratos mas é interessante, historicamente] e de “Uma conversa com Brad Bird e Thomas Keller” [o diretor do desenho e o restaurateur consultor].

V. resenha mais bem-humorada de Lola Aronovich.
V. receita de ratatouille do blog de Saul Galvão.

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7 comentários sobre “Ratatouille

  1. é beeeem injusto comparar ratatui com os roedores letrados, causa da qualidade do escritor. eu gostei bem da animação, pq gosto de filme de cozinha 🙂

    e, aaai, pratchet, pratchet, vc inda vai me fazer aprender inglês – só pra poder ler seus livros na versão original 😛
    q aqui nos brasis a gente tem quesperar UMA VIDA pra ler tuas obras.. :/

  2. Puxa, sabe que nem me lembro mais de Ratatouille direito? Achei bonitinho, nada de mais. Acho que fiquei com um pouquinho de raiva dele porque concorreu ao Oscar de melhor animação com Persépolis, que pra mim é outro nível. E ainda por cima ganhou!

  3. eu vi quinze minutos, se tanto. quando a técnica de animação me interessa mais do que a história (lindíssimo o amanhecer em paris!) eu desisto de ver.
    é a minha lei anima-mundi: uma história legal sobrevive a uma animação marromeno, mas nem a melhor animação do mundo salva uma história blé.

  4. Eu achei esse filme sensacional. E ele só não concorrer ao Oscar de melhor filme porque agora não pode mais concorrer animação. E ganharia; causque foi um ano fraco em filmes. Mas o filme foi para o Ego: está no título do filme. 🙂

  5. rê, aguarde, que tou numa fase de filmes de forno & fogão agora. 😆
    cara, e nada de livro novo de discworld, que réiva.

    lola, também fiquei com essa impressão de ratatouille: bonitinho [mas não fofinho], legalzinho – mas esquecível. pena!

    telinha, as cenas de paris vista do alto dos telhados eram as coisas mais lindas do filme… só que, além da trama meio óbvia, não consegui me apaixonar pelos personagens, torcer por eles.

    tonh, eu nem lembro quais eram os concorrentes!

  6. Pingback: Sopa & Tortilha « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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