Mentes Criminosas e Crimes Assustadores

Capa do livro

Capa do livro

Eu sei que tinha comentado com a Kaká que este livro seria meu autopresente de fim de ano mas paciência não é uma de minhas virtudes. Mentes Criminosas e Crimes Assustadores [The Cases That Haunt Us, Ediouro/2002] já virou um de meus TFF – Top Favoritos Foréva.

O livro analisa crimes reais desdo reporte à polícia, coleta de evidências e testemunhos até o julgamento [ou falta de]. Ao final de cada caso, o autor dá a sua interpretação baseada na experiência de 25 anos na Unidade de Análise Comportamental [Behavioral Analysis Unit ou BAU] do FBI, e outros tantos como consultor particular. Na análise ele ainda indica métodos que usaria na investigação, truques para atrair o suspeito ou ED [de elemento desconhecido], técnicas de interrogatório, etc.

Quantas vezes já lhe disse que, quando se elimina o impossível, o que resta, por mais improvável que seja, deve ser a verdade? [Sherlock Holmes in O Signo dos Quatro, Sir Arthur Conan Doyle]

Os casos analisados são:

From Hell, Alan Moore

From Hell, Alan Moore

. Jack O Estripador [Jack the Ripper], considerado o marco zero na história dos assassinatos em série. Em 1888 o assassinato e evisceração de cinco prostitutas alcóolatras no bairro miserável de Whitechapel, na região leste de Londres, na Inglaterra, e até hoje não solucionado, gerou dezenas de teorias sobre a identidade do criminoso – incluindo a teoria conspiratória que envolve o neto da Rainha Vitória e o médico real. É o único caso não-estadunidense [eita palavrão!] abordado no livro.

. Lizzie Borden, conforme comentei no post dedicado a ela, é considerada a primeira criminosa célebre dos EUA [1892] por quebrar vários estigmas: o parricídio, o fato de ter ocorrido numa família rica tradicional da sociedade, cometido por mulher, branca, religiosa… Lizzie foi absolvida pelo júri mas não pela opinião pública, que até hoje procura pela confimação de suas suspeitas. Uma falha do autor na análise deste crime, IMHO, foi não considerar o background da sociedade onde se deu o assassinato, como fez Florence King.

Assassinato no Orient Express, de Sidney Lumet

. O seqüestro do Bebê Lindbergh, filho de Charles Lindbergh em 1932. A maior parte do capítulo narra os fatos disponíveis, intercalando pequenas considerações pessoais do autor. Talvez porque a documentação deste caso fosse maior e mais disponível, além de cronologicamente mais próxima do que os dois anteriores, ele opina mais a respeito de determinados aspectos que não abordou com Jack e Lizzie.

Apesar de todos os casos subseqüentes, como a conspiração de espionagem atômica, os assassinatos dos irmãos Kennedy, aquele de Martin Luther King, os crimes da família Mason, as mortes de Nicole Brown Simpson e Ronald Goldman e tantos outros, o seqüestro Lindbergh continua, para muitas pessoas, a ser “o crime do século XX”. [pág. 162]

Robert Downey Jr. e Jake Gyllenhaal em cena de Zodiaco

Robert Downey Jr. e Jake Gyllenhaal em cena de Zodíaco

. O Assassino do Zodíaco [Zodiac Killer] é um assassino serial que atacou na Califórnia no final dos anos 60. Ainda há dúvidas quanto a qual foi seu primeiro crime, quantos foram os seus crimes, por que ele parou, quando ele parou e quem era [quase nada, perceba, detalhes menores] mas pelo menos o autor acha que sabe os motivos por quê ele matava. A teoria é bem interessante, verdade, o problema é que eu não tenho interesse por criminosos que matam pessoas que, para eles, não significam nada, só pra mostrar que eles podem. Mesmo assassinos seriais que escolhem uma presa anônima por causa de alguma característica dela [Jack o Estripador, por exemplo] acabam humanizando a vítima, conferindo-lhe uma identidade, mesmo sem querer.

Dália Negra, de Brian de Palma

Dália Negra, de Brian de Palma

. Elizabeth Short, a Dália Negra [Black Dahlia], tadinha, não ganhou um capítulo só para ela, teve que compartilhar o espaço com os dois seguintes, mas o autor demonstra muita compaixão ao contar a trajetória da moça que queria ser uma atriz famosa e só conseguiu fama pela forma como morreu, em 1947. O diretor Brian de Palma fez a mesma coisa no filme de 2006 – aliás, tanto o filme quanto a análise de John Douglas me deixaram com a mesma impressão: confusa e insatisfeita.

. Lawrencia “Laurie” Bembenek [Bambi Bembenek] foi o único caso que eu nunca tinha ouvido falar e é claro que googlei assim que terminei de ler o tópico dedicado a ela, espremido entre duas cause cèlebre. Uma das notícias mais recentes é que ela teve uma perna amputada depois de tentar fugir do quarto de hotel em que a equipe do Dr. Phil a trancou, antes de entrevistá-la em seu programa de TV, em 2002. Ela foi acusada de matar a ex-esposa do marido em 1981. Run, Bambi, Run.

The Boston Strangler, com Henry Fonda e Tony Curtis

The Boston Strangler, com Henry Fonda e Tony Curtis

. O Estrangulador de Boston [The Boston Strangler] foi um assassino em série que atacou mulheres sozinhas em seus próprios apartamentos entre 1962 e 1964. Eu consigo pensar em pelo menos três casos mais interessantes do que este para estudo, mas o autor deve ter incluído o Estrangulador para completar o painel com um criminoso sexual. Ou vários.

Mediante pesquisa e experiência prática, nós, do Centro Nacional para Análise de Crimes Violentos do FBI, em Quantico, dividimos os violentadores em quatro categorias gerais: o violentador para reafirmação de poder, o violentador oportunista, o violentador por ódio e o violentador sádico. [pág. 357]

. JonBenet [Patricia] Ramsey é o único caso que acompanhei desde que aconteceu, em 1996 [os outros ou ocorreram antes de eu nascer ou, no caso de Laurie Bembenek, não ouvi falar]. Provocou a mesma comoção na imprensa que o desaparecimento de Madeleine McCann e a morte de Isabella Nardoni, com as mesmas acusações contra os pais, as mesmas ingerências da promotoria e advogados, as mesmas trapalhadas da polícia, falhas na investigações, peritos contradizendo-se e uns aos outros o tempo todo, abusos e excessos da imprensa, da opinião pública… e a mesma falta de solução.

O autor foi contratado tanto pela defesa quanto, mais tarde, pela acusação para esboçar o perfil do pai e da mãe da menina encontrada brutalizada no porão da casa da família um dia após o Natal. O fato de JonBenet participar de concursos de beleza infantis [inclusive o Miss Sunshine, do filme] gerou críticas contra os pais mais severas do que as que a gente lê nos blogs por aí [neste, inclusive].

Mas o fato importante que quero sublinhar é que uma investigação criminal não é um concurso de popularidade. Não pode – nem deve – ser dirigida pela opinião pública, nem influenciada pela mídia. [pág. 366]

Apenas agora, em 2008, um teste de DNA concluiu que há material genético de um indivíduo desconhecido, que não é da família, na roupa que JonBenet usava quando morreu.

Só pela análise do caso JonBenet já valeria a pena ler o livro, apesar de três pequenos pecados cometidos:
. foco quase exclusivo em crimes norte-americanos, provavelmente justificados porque esta é a nacionalidade do autor e, bem, no país dele os serial killers são mais famosos;
. uma certa petulância do autor em suas considerações, do tipo “se fosse na nossa época nós resolveríamos o caso” – nada que prejudique a leitura, no entanto;
. problemas na ligação entre as frases e na pontuação, truncando o ritmo de leitura. Como não li o original em inglês não sei se isso é problema de redação, de tradução ou de revisão, mas é o mais grave do livro.

A edição brasileira está esgotada mas, ora, para que serve a Estante Virtual? 😉

Uma outra opção é comprar a edição original na Saraiva, na Cultura ou no Submarino, se é fluente em inglês [com a vantagem que é absurdamente mais barato do que o livro em português, de segunda mão!].

Mentes Criminosas e Crimes Assustadores
Autores: John Douglas & Matk Olshaker
Tradução: Octávio Marcondes
Editora: Ediouro – 2ª edição
Ano: 2002
Páginas: 466

Complementos de leitura
A Mente Criminosa [Discovery Channel]
Criminal Profiling – All About Forensic Psychology
Offender Profiling – University of Liverpool
Serial Killer: Louco ou Cruel? [Ilana Casoy] – Viciados em Livros minha próxima leitura, depois de um sobre estigmas.

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11 comentários sobre “Mentes Criminosas e Crimes Assustadores

  1. É um dos meus livros preferidos também. 🙂 Como eu sou ruim de lembrar de detalhes, toda vez que algum desses crimes é mencionado eu leio outra vez. A análise dele do Zodiaco é melhor que o livro que deu origem ao filme.
    Você tem toda razão sobre o ritmo de leitura, eu não li o original em inglês, mas, é como se ele estivesse escrevendo um relatório.

  2. Naomi, lendo o seu post, não teve como eu não associar com uma bizarrice que aconteceu hoje, bem em frente ao prédio que moro. Ainda estou digerindo o sucedido e talvez dê um tempo pra contar porque ando falando demais em morte ultimamente. 🙂

    Beijo.

  3. Esse livro deve ser fascinante!!!
    Li algumas partes de um livro na própria livraria com o mesmo assunto deste e fala de vários casos de serial killers, eu cou procurar e depois coloco aqui qual é.
    O caso que mais me instigou foi de um senhor bem relacionado na comunidade que foi abandonado pela mulher.
    Quando chegou a guerra, ele foi lutar pelo seu país.
    Na cidade dele, por algum motivo estavam precisando de gasolina e lembraram que este senhor tinha na sua garagem imensos barris com o líquido.
    Para surpresa de todos, depois de anos encontraram em um dos barris a esposa dele, morta (claro!) e em um outro, o amante da mesma. Muitas histórias me pertubaram, e essa foi uma que eu não esqueci.
    E eu fico paranóica qdo leio livros assim. rsrrs
    Até

  4. kaká, valeu pela dica!

    kenia, às vezes acontece, né? de um assunto aparecer em várias frentes de uma vez…

    nei, ainda não! os da ilana casoy estão numa lista para ler, mas por enquato só achei esse do louco ou cruel.

    su, esse livro foi citado pelo john douglas na parte que ele fala das teorias sobre a identidade do jack, né?

    crisesdetpm, conta sim! essa do barril parece que eu li a notícia em algum lugar…

  5. Pingback: The Tales of Beedle the Bard « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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