Dexter – A mão esquerda de Deus

Capa da edição brasileira

Capa da edição brasileira

Você sabia que o autor da série de livros Dexter é casado com a sobrinha de Ernest Hemingway e que ela também é escritora, além de roteirista? Então Jeff Lindsay é primo de Margaux, Mariel e ‘Gloria‘ pelo casamento. Mundinho pequeno. [A propósito, este livro é dedicado à esposa.] Será que as relações disfuncionais da família da esposa inspiraram alguma personagem dos livos? No lo creo, pero que las hay… OK, fim do Momento Caras.

Eu já estava com o dedo pronto pra clicar no botão “Compre” do Darkly Dreaming Dexter quando li a notícia de que estava a ser traduzido para pt-br. Decidi aguardar, afinal Titia Batata apóia o fomento nacional [putz!]. Fui agraciada com o título Dexter – A mão esquerda de Deus.

¨¨  <- cara de nhé

Reconheço que é difícil respeitar a aliteração original [é aliteração, né? meu reino por uma gramática] presente nos três títulos da série de livros: Darkly Dreaming Dexter, Dearly Devoted Dexter e Dexter in the Dark [e ainda Dexter by Design, previsto para 2009]; a  segunda solução portuguesa para Darkly Dreaming – Um pesadelo raiado de negro [Bertrand Editora, 2007] – soa estranho para o ouvido brasileiro mas contém todos os elementos presentes no original. É bem verdade que a primeira tradução portuguesa [Um monstro também precisa de amigos, Ed. Quetzal, 2005] ficou meio nada a ver, em todo caso, mas eu gostei igualmente da solução  da Bertrand encontrada para a tradução portuguesa do segundo, Dearly Devoted Dexter [Querido, Querido Dexter, Bertrand, jun/2008].

1ª versão portuguesa

Voltando à solução brasileira, o uso da expressão “mão esquerda de Deus” me incomoda. As primeiras coisas que me vieram à mente quando vi isso foram citações bíblicas negativas do tipo “os bons e os justos à mão direita de Deus e os condenados à esquerda”, “não saiba a mão esquerda o que faz a direita”, e ainda uma referência, desta vez pop, a Drácula – também chamado de “A mão esquerda de Deus” em Van Helsing.

Vale lembrar, a esta altura, que Dexter é um sociopata condicionado para eliminar criminosos que escaparam da justiça. Se a pessoa acredita na pena de morte ou aprova a ação de justiceiros pode até ver sentido na tradução. Eu sou fã da série Dexter, me divirto com ele mas tenho bastante consciência de que se trata de uma obra de ficção [e prefiro que continue assim] e me recuso a dizer que ele é um serial killer “do bem”. Minha relação com as séries e filmes e livros do gênero está no mesmo nível da relação das crianças com os contos de fadas, segundo Bruno Bettelheim: é uma válvula de escape. Colocar Deus no meio soa como uma justificativa moral para o que ele faz, algo que o autor não procura em momento algum.

2ª versão portuguesa

2ª versão portuguesa

Para quem já conhece a série [a primeira temporada está sendo exibida pela terceira vez no Brasil – duas pela Fox e agora pelo FX] o livro apresenta algumas diferenças principalmente depois do primeiro terço, com relação ao desenvolvimento de personagens e de fatos. IMHO, essas diferenças são necessárias porque o que está no livro não funcionaria bem na TV e o ritmo da TV em livro ficaria superficial, por isso dá pra curtir ambos, cada um na sua mídia, sem a necessidade de resmungos “nhé, no livro não foi assim que aconteceu”, porém sabendo que são diferentes.

Enquanto a série é mais solar [a ação se passa em Miami, é uma cidade  tropical muito fotogênica e oferece um contraste perfeito para Dexter], o livro destaca as noites de lua cheia; personagens caricatos na série são retratados mais bizarros no livro; o destino ou a participação de alguns personagens e o desfecho de alguns atos são mais tensos e densos no livro e, no entanto, tem muito mais humor no papel do que na tela. É claro, isso quando existe correspondência entre  o que acontece em ambos, porque tem muita coisa exclusiva em um e em outro.

Um serial killer com um coração... agradeça por não ser o seu.

Um serial killer com um coração... agradeça por não ser o seu.

Não resisto a comentar uma diferença representativa das escolhas dos produtores da série em relação ao livro, demonstrada assim que Dexter  se apresenta: CONTÉM SPOILER –> o assassinato do pedófilo. Na série o sujeito era casado, político ou empresário – não lembro direito, era um cidadão proeminente. No livro original o pedófilo é um padre. O crime era o mesmo, a cena foi transcrita quase que literalmente mas a reação do leitor é muito mais visceral [a minha foi, pelo menos] pelo fato de ter sido cometido por um padre. <– FIM DO SPOILER. Optaram por suavizar.

Outro detalhe que botei reparo, graças ao meu defeito de associar/comparar, é que Darkly Dreaming Dexter de certa forma me lembra O psicopata americano do Bret Easton Ellis. O que me consola é que não fui só eu: num os episódios da série [mas não no livro] o nome do personagem principal de American Psycho [que no cinema caiu nas mãos de Christian Bale e eu de-tes-tei] é citado pelo próprio Dex [é o pseudônimo que ele usa pra comprar aquele produto veterinário]. O que eles têm em comum é que CONTÉM SPOILER –> narram em primeira voz seus pensamentos e atos, e a sensação letárgica que insinuam, como se atravessassem um sonho, como se vivessem num estado dissociativo da realidade. <– FIM DO SPOILER

V. apresentação de Dexter no blog Só Seriados de TV.

Dexter – A mão esquerda de Deus foi lançado no Brasil  em julho de 2008 e já está esgotado em quase todas as livrarias virtuais; mesmo na Estante Virtual são poucos os exemplares disponíveis. Não tem nem referência no site da editora mas a orelha do livro informa que os dois títulos seguintes  [Dearly Devoted Dexter e Dexter in the Dark] serão publicados pela Planeta do Brasil. Eu estou em dúvida se aguardo – e corro o risco de me deparar com outra “Senhorita” Marple como na Mão de Deus – ou se arrisco a ler no original e o fomento nacional que se lasque.

Ah, o berro sinfônico das milhares de vozes ocultas, o grito interior do Necessitado, a entidade, o observador silencioso, o Bailarino da Lua. O eu que não era eu, aquele que zombava, ria e vinha com sua fome. Com a Necessidade. E a Necessidade agora estava muito grande, muito atenta fria enroscada arrastada rachada ereta e pronta, muito grande, bem pronta… mesmo assim, esperava e observava, me fazia esperar e observar. [pág. 11]

Dexter – A mão esquerda de Deus
Darkly Dreaming Dexter, EUA/2004
Autor: Jeff Lindsay [pseudônimo de Jeffry P. Freundlich]
Tradução: Beatriz Horta
Editora: Planeta do Brasil
ISBN: 9788576653455
Ano: 2008
Edição: 1
Número de páginas: 272

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9 comentários sobre “Dexter – A mão esquerda de Deus

  1. Adoro o Dexter. Não li o livro, mas o seriado eu acompanho, hum, religiosamente. hahaha

    Esse mão de deus do título é estranho mesmo. Se eu não soubesse nada sobre o Dexter eu não compraria o livro por esse título. E muito menos pelo ‘um monstro precisa de amigos’ hahaha! 🙂

  2. Pingback: “Pai” de Dexter participará da série « Cinema é Magia

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