Joseph e a religião

O jornalista espanhol Miguel Mora publicou no El País um artigo intitulado Decisões anacrônicas mostram incapacidade de Ratzinger em guiar o Vaticano, no qual evidencia o caráter intransigente do Papa Bento 16 e o isolamento em que ele vive, tanto dos próprios pares quanto do mundo em geral.

Se não me engano o conteúdo desse artigo é aberto, se não for é só me dar um grito que envio por email.

A Adrina Poubel, do blog À Cata de Palavras, teceu comentários muito pertinentes e me autorizou a publicá-los aqui no PdUBT [senquiu, frô!]. Os meus comentários seguem logo depois.

Lu, eu sou católica mezzo praticante. Fui batizada, fiz primeira comunhão, casei de vestido branco. Vou à missa de vez em quando. Gosto de conhecer a história da igreja, saber a razão e o porquê dos porquês. Disse isso porque talvez eu não seja isenta o suficiente para emitir a minha opinião, aliás nem sei se esse era o objetivo do seu e-mail, mas lá vai.

O Papa Ratzinger está atrás do nosso tempo. Uns 400 anos atrás. Ele se preocupa mais em levar os dogmas ao pé da letra do que aproximar os fiéis e não fiéis da Igreja. Ele não ser quer paizão, nem simpático, sem acolhedor, nem pop, como era o Papa Wojtyla. Ele quer que as doutrinas sejam seguidas ao pé da letra e pronto.

Ele está errado? Não sei. Ele é o líder, foi eleito por quem tinha o direito de elegê-lo, então está legitimado para exercer o papado. O problema que eu encontro é que as regras foram feitas há muito, muito tempo, e precisam ser adaptadas. Acho ainda que a Igreja deveria gastar mais tempo e dinheiro em divulgar suas doutrinas, suas propostas. A cerimônias, na maioria das vezes, são mecânicas, sem paixão, e essa frieza contrasta com o crescente petencostalismo, por exemplo.

O Catolicismo em geral tem visões interessantes sobre a vida, o amor, a caridade, o livre arbítrio, mas pouca gente conhece, até os católicos mais carolas. Isso causa más e injustas impressões. A questão da camisinha, por exemplo, é muito mal interpretada. Quando o Vaticano diz que é contra a camisinha, por trás tem toda um filosofia de valorização do sexo dentro de um relacionamento estável. Portanto, a Igreja é contra o sexo livre, e a favor do amor. Quando já se ouviu isso? Só de fala que a igreja é contra a camisinha, e pronto.

Acho que o Papa alemão é um linha dura sem carisma que, apesar de ser cheio de boas intenções (como declarou, pela preservação dos valores e da doutrina), está despreparado para lidar com os desafios dos novos tempos. É isso que eu penso, e lamento muito. [Adrina]

Eu invejo a sua clareza de idéias, Adrina, e tentarei manter a coerência das minhas [que se atropelam feito cavalos desembestados].

Fui atraída para a Igreja Católica por um padre que é o oposto do Papa Bento 16. Dos 8 aos 15 anos passava boa parte do tempo livre na casa paroquial e testemunhei o trabalho duro a que ele se dedicava para prover a comunidade com comida, consolação, ânimo, amor, amor próprio e até religiosidade. Na verdade, durante esse período a paróquia teve três padres diferentes [inclusive um da Teologia da Libertação], mas todos com as mesmas características acima e que me ensinaram que Deus é amor, sem caridade não há salvação e algumas outras diretrizes particulares que sigo até hoje.

O problema começou quando minha família se mudou para Pedra Lascada. Eu tive um choque quando descobri que nem todo padre era movido pelo amor ao próximo como os que tinha conhecido, que alguns tinham mais amor ao poder e aos dogmas e aos holofotes. É uma questão de escolha, eu acho; um arcebispo pode escolher entre oferecer amparo espiritual e consolação a uma família violentada ou excomungar a equipe médica que a atendeu, vai depender da sua prioridade moral.

Matutando nisso, lembrei de Joseph e Nelly Dean, os dois criados de Wuthering Heights no livro O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë [o fato de que a história tava bem fresquinha na memória colaborou, heh]. São anglicanos e não católicos, mas isso não importa. O que eu quis dizer é que ambos representam essa mesma divergência de interpretação do que é ser religoso.

Nelly admoesta [eita que sempre quis usar essa palavra!] Cathy e Heathcliff pela falta de temor a Deus e desrespeito às Escrituras, tentando corrigir as suas atitudes sem deixar de lado a compaixão. Ela luta contra a própria repulsa que sente por Heathcliff, o que demonstra uma verdadeira caridade e não aquela que é jogada como um fardo sobre quem a recebe.

Joseph, por outro lado, professa uma religião dura, seca e estéril baseada na obediência à letra, sem amor ou caridade – nem mesmo a caridade que se confunde com esmola [a respeito dessa, Charlotte Brontë a representou bem no personagem Mr. Lockwood e sua família em Jane Eyre]. É essa corrente de pensamento que atualmente está no comando em Pedra Lascada e, pelo que entendemos do artigo espanhol, no Vaticano também.

Não é exclusiva do cristianismo, a gente vê radicalismo em toda parte, é só que essa nos afeta mais diretamente porque a igreja romana ainda tem influência sobre o Estado brasileiro, seja pela pressão da CNBB, seja pelos políticos que a professam e seguem a diretriz da matriz.

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14 comentários sobre “Joseph e a religião

  1. Ah, Lu! Cavalos desembestados passam aqui pela minha cabeça, não pela sua! 😀
    Esse é um assunto tortuoso, mas também riquíssimo. Poderíamos escrever um livro, até. O que me preocupa nisso tudo, ao final, é que mais e mais vezes o amor tem sido vencido pela rigidez e pela burocracia. Não podemos (jamais!) dizer que é a regra geral, mas são atitudes que tem ofuscado os que de fato lutam pelo amor e pela compaixão. Beijo!

  2. Que debate de nível, que debate, Adrina e Bata!

    Tenho me desviado de assuntos que tocam esse papa porque os seus discursos tem causado tantas discussões e polêmicas por aquí que acabaram por me causar aversão pelo tema. O que acho é que a eleição do papado ocorreu no período mais obscuro e desastroso, o da era Bush, para contrapor ao “inimigo” do Ocidente, “personificado” por muçulmanos. O tal “choque” de civilização Ocidente X Oriente promovido e enfiado goela abaixo por Bush no mundo inteiro não poderia que estimular o oportunismo da Igreja. Muitos anos antes da morte do papa João Paulo II, cogitava-se fortemente a passagem de bastão ao cardeal Martini de Milão, um religioso de visão progressista, disponível a revisões e aberturas. Tudo ruiu a partir do momento que o Estado e a Igreja decidiram se unir, instrumentalizando reciprocamente a política contra o Mal. O mal dos “Estados canalhas” e o mal do “avanço anti-cristão”. A aliança valeu enqto o Bush estava no poder. Quem perdeu com isso são os próprios católicos.

  3. Lideres são uma raridade.
    Chefes?!
    Tem aos montes…
    João Paulo era um lider.
    Esse aí, é um chefe!
    Uma pena, para ser sincera.

    Nesse caso, eu procuro os líderes locais.
    Padre Fábio de Melo.
    Padre Marcelo Rossi.
    Dentre outros.
    Das turmas dos carismásticos!
    Ué!
    Já que o copo tá meio vazio, vamos valorizar a metade que está cheia!
    😉

    O post me fez lembrar de Morris West, um australiano radicado nos Estados Unidos.
    Um apaixonado pela igreja católica.
    Autor de Sandálias do Pescador, dentre outros livros fascinantes.
    🙂

  4. A Teologia da Libertação foi o grito de século XX que a igreja latino americana deu depois do encontro de Medellin. Eu fiz parte do movimento, atuando na adolescencia em CEB (Comunidade Eclesial de Base). Foi minha iniciação política com sociologia e teologia face a face.
    Desde o papa anterior há essa implosão dos grupos de esquerda eclesiais, excomunhões, isolamentos em rincões e divisão de dioceses e arquidioceses para minar o poder de alguns bispos e arcebispos, como a flagrante divisão da arquidiocese de São Paulo, aposentando D Paulo Arns, um grande líder politico e espiritual.
    Parece que preferem manter os advogados sempre de prontidão para defenderem os pedófilos etc etc.
    Leonardo Boff, Frei Betto, D Arns, D Helder, todos apagados da história da CNBB.
    Eles tem medo de que?
    Das profecias de Fátima, claro.

    Besos!

  5. Eu posso estar enganada, mas a sensação que eu tive ao ler o texto indicado pela Naomi não foi de crítica ao Bento XVI, mas sim de crítica á cúpula da igreja que não se acerta e não se afina com o novo Papa, que, inclusive, não faz a mínima questão de ser mais acessível, o que no final só o prejudica.

    Fora isso, sem maiores comentários. Não sou católica e tampouco conheço muito do funcionamento interno dessa igreja.

  6. Batata querida;

    Acredito que o grande problema é que as pessoas aprenderam a viver de fé dispensando a igreja. Cada vez mais vejo que as pessoas têm fé, acreditam nos ensinamentos dos evangelhos mas se recusam a seguir uma pessoa que prega humildade, castidade e pobreza quando esconde os pecados dos pares (sem puni-los), come em porcelana Limoges folheada a ouro (US$ 6 mil o prato), veste roupas sob medida e sapatos de couro costurados a mão e leva no peito crucifixos de ouro capazes de sustentar uma família por meses – sem falar no modo de vida século XVI.

    Eu ainda sou daquelas que acredita que o papa perfeito é obra de ficção (“As sandálias do pescador”).
    Bjs

    • Suzana, muito oportuna sua colocação, mas não podemos nos esquecer que os líderes protestantes também prezam o luxo e a ostentação, pregando que “a prosperidade é obra divina”. Conheço um pastor que usa um Rolex que dava pra comprar um apartamento.

  7. Oi titia!

    Cada vez mais me convenço que religião e espiritualidade não têm nada a ver uma com a outra. Espiritualidade é algo íntimo, entre cada um e a força superior na qual acredita, seja ela qual for.

    Religião tem mais a ver com crucifixos de ouro, canais de TV, dogmas, rigidez de idéias e manutenção do status quo e do poder. Claro que em todas as religiões há pessoas de boa fé, de bom coração e caridosas. Mas também há muita maçã podre nesses cestos…

    Naomi, se sua mente tem cavalos desembestados, a minha é um estouro de boiada… ah, também notei o contrate entre Nelly e Joseph quando li WH, o Joseph é a mente fechada em pessoa, recitando a bíblia e vociferando (eta, vamos gastar o verbo!) contra todos!

    Também na linha literária:
    1- lembrei dos diálogos deliciosos entre Samuel e Lee, em ‘A Leste do Éden’, quando analisam a história de Caim e Abel. Imperdível! (já leu?)
    2- Precisamos de um papa igual ao do livro ‘As sandálias do pescador’, pena que é só ficção… (eta livro bom!)

    Beijocas!

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