Conhecimento acumulado soluciona charadas

CSI S09E19

CSI S09E19

Aaah, senquisóde! É por causa de episódios assim que continuo a assistir CSI! Depois da frustração que foi o 200º, demorei um tempão para baixar o ep seguinte e, quando o assisti, quis acertar o cocoruto da minha cabeça com um bastão: esse, sim, foi um episódio especial.

Teve a participação de todos personagens [oh, bem, exceto do Grissom, claro], um pouco do bom e velho humor negro que é intrínseco à série – ou deveria ser, sempre -, uma conclusão bizarra e casos incomuns que exigem raciocínio lógico, e não apenas seguir as pistas usando os equipamentos caríssimos.

Em The Descent of Man usaram um esquema parecido com o de 4 x 4, da 5ª temporada: Nick e Riley têm de investigar o acidente de um paraquedista belga [não francês!]. A poucas centenas de metros do local onde ele caiu, Langston e Brass se deparam o o cadáver de um asceta no deserto. Catherine e Greg investigam a morte de dois sócios por ataque cardíaco fulminante simultâneo.

Observador de pássaros: Such a lonely place to die.
Raymond Langston: What place isn’t, my friend, what place isn’t?

Aviso: A partir deste ponto pode haver spoiler.


Assim que Greg disse qual tinha sido a CoD dos dois empresários [cause of death ou causa da morte] já chutei digitalina. Além de ser um método de envenenamento rápido e prático [vide a frequência com que é usado nos livros de Agatha Christie], ainda estava fresco na memória um episódio de Eleventh Hour também.

Mais tarde, Greg disse que foi envenenamento por digitoxina, e não digitalina. Balancei, mas uma googlada rápida informou que são a mesma coisa. Ou parentes, no mínimo. Em todo caso, são extraídos de uma planta muito bonitinha chamada dedaleira ou campainha – você já a viu antes no filme Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban: é aquela que congela quando o Dementador passa perto.

– Sei mais ou menos o que houve – disse Mrs. Bantry. – Envenenamento pela digitalina. Está certo?
O Dr. Lloyd assentiu de cabeça, comentando o seguinte:
– O princípio ativo da chamada erva-dedal, a digital, age sobre o coração. Na realidade, trata-se de uma droga muito valiosa em certas perturbações cardíacas. (Agatha Christie, Os Treze Problemas, Nova Fronteira)

Dedaleira ou campainha (Digitalis purpurea L.)

Dedaleira ou campainha (Digitalis purpurea L.)

A digitalina é extraída da Digitalis purpurea L., uma planta herbácea em forma de touceira que apresenta flores roxas, amarelas ou brancas em forma de dedal ou campainha, daí seus nomes em português: erva-dedal, dedaleira ou campainha. Em inglês é conhecida pelo nome Foxglove (luva de raposa) devido à antiga crença de que as raposas vestiam as flores nas patas para abafar seus passos e invadir os galinheiros sem acordar as galinhas.

Pertence à família da escrofulária. Na medicina, a digitalina, em pequenas quantidades, pode ser usada para tratar certas deficiências cardíacas.

A dedaleira cresce de 60 cm a 1,20 m de altura. As folhas longas e ovais brotam ao longo dos caules. As de cores mais fortes podem apresentar maior ou menor quantidade de pintas e crescem de um só lado do pendão. As dedaleiras têm, em geral, dois anos de vida. As sementes novas devem ser plantadas anualmente para manter a planta em floração contínua.

O veneno é retirado de todas as partes da planta e bastam apenas três folhas para obter uma dose mortal.

In fiction, the homicidal use of digitalis has appeared in the writings of Mary Webb, Dorothy Sayers and Agatha Christie. Ten instances in real life of alleged homicide by digitalis and trials of the accused are listed. The drug has been used with suicidal intent rather infrequently, compared with other medications. Possibly, it is more commonly used for such a purpose in France than in England or the United States. (Journal of the American College of Cardiology)

Campainha-roxa ou ipoméia (Ipomoea cairica)

Campainha-roxa ou ipoméia (Ipomoea cairica)

Não confundir com a campainha-roxa (foto), flor oriunda da trepadeira Ipomoea cairica e também conhecida pelo nome ipoméia.

A descoberta da dgitalina é atribuída ao médico escocês William Withering, que teve seu interesse em plantas medicinais despertado pela namorada. Depois da publicação de seu trabalho, tornou-se o médico mais rico da Inglaterra aos 46 anos de idade. Outro marco registrado a seu respeito é que foi o primeiro proprietário de um banheiro (water closet) em Birmigham, na propriedade que atualmente abriga o Edgbaston Golf Club.

Um dos paciente do Dr. Withering apresentou uma condição cardíaca muito ruim e acabou por procurar a ajuda de uma cigana que lhe receitou a receita de ervas que melhorou a doença. Withering interessou-se e obteve a receita da infusão em 1775, mas o uso do veneno já era reportado desde a Era Medieval, quando era usado no “trial by ordeal” (a pessoa suspeita é submetida a esfaqueamento, envenenamento, afogamento ou queimada na fogueira: se sobreviver é inocente). Há um buquê de dedaleiras esculpido no túmulo do Dr. Withering.

A digitalina aumenta o ritmo e a potência das batidas do coração; é usado para tratar casos de arritmia cardíaca. No entanto, uma overdose desacelera o pulso e retarda a transmissão dos impulsos nervosos do músculo cardíaco, além de aumentar a quantidade de sangue bombeado. Efeitos colaterais incluem náusea, vômitos e alterações na visão, inconsciência e morte.

Apesar de não se conhecer ainda um antídoto para overdose de digitalina, pesquisadores estudam o uso de uma substância extraída do sangue de carneiros.

A digitalina foi citada no segundo episódio da primeira temporada (Cardiac) da série Eleventh Hour, na versão norte-americana com Rufus Sewell e Marley Shelton.

Fontes de pesquisa
The Bedside, Bathtub & Armchair Companion to Agatha Christie [aka Objeto de Desejo]
Klick Educação
Jardineiro.net
Molecule of the month
New York Times
Plantas medicinais
Wikipedia

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3 comentários sobre “Conhecimento acumulado soluciona charadas

  1. Uau, interessante os atributos da dedaleira. Uma coisinha, será que dá pra plantar mesmo num vaso da janela? Qto tempo para florecer? É que tenho um pouco de pressa…

    Pulei o texto de CSI e me concentrei na botânica. Aquí passa às quintas, às 21 hs, mas com episódios beeemmm mais atrasadinhos que aí 😦

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