Sobre Batatas Cor-de-Rosa e Brigadeiros

— Provedor Tuiuti, Luciana, bom dia. Em que posso ajudar?

Lidar com usuários o dia todo é interessante, são vários tipos diferentes e diferentes modos de abordar e reagir.

De manhã ligam os clientes corporativos, as “pessoas jurídicas”. Quando era criança achava que pessoa jurídica eram os advogados, os juízes, os promotores… Quem lidava com carros era uma pessoa mecânica, e médico era o homem-que-dói, ou o homem que espeta. Sempre associei dor com médico e gente de branco. Deve ser por isso que até hoje tenho medo de mãe-de-santo.

À tarde e de noite predominam as pessoas físicas. Por que não pessoa-alma ou pessoa-espírito ou, sei lá, pessoa-antimatéria? E porque exatamente física? O mais certo não seria pessoa físico-química? Ou pessoa química-orgânica? Para abreviar podia se dizer: Fulano é uma pessoa orgânica, para diferenciar das empresas, que seriam inorgânicas. Mais esquisitas ainda são as categorias das empresas.

Uma empresa limitada lembra um prédio cercado de muros com placas indicando: “você está entrando nos limites da Fábrica Inorgânica Limitada; ninguém entra, ninguém sai”. Já uma sociedade anônima soa como um filme noir, uma empresa que só funciona em noites de neblina, em salas com um vigia na porta que pede a senha pra todo mundo que chega e os funcionários usam codinomes no crachá. E a americana incorporated, incorporada? Mais do que vestir a camisa, quem trabalha numa empresa Inc. carrega ela no corpo, num caso clássico de obsessão. Quando o sujeito é demitido chama-se um padre para exorcizar e depois incorporar aquele pedaço da empresa num novo funcionário.

Outro telefonema me salva de idéias cada vez mais non-sense.

— Lu, minha senha não entra. — Morar em cidade pequena tem dessas vantagens, não existe a profissional Luciana, mas a Lu, filha da dona Therezinha e do Teruo da quitanda. Podem nunca ter me visto na vida mas
sabem de tudo a meu respeito, o que automaticamente torna todo mundo amigo de infância.

— Vamos ver o que está acontecendo. — Alguns comandos — Tenta agora.

— Nada ainda. — Hora de cercar o problema, o que às vezes exige uma diplomacia de fazer inveja à D. Lúcia Flexa de Lima, embora nem sempre dê resultado.

— Você pagou a última mensalidade? — Silêncio do outro lado.

O departamento financeiro é centralizado em São Paulo e enquanto procuro o número do telefone ouço o pedido:

— Resolve isso pra mim? — É verdade, tem gente que morre de medo do desconhecido do outro lado da linha: trava, gagueja, não entende os procedimentos e no fim culpa o pobre atendente dizendo que ele não resolve nada. Assim, já fui Suely, Danielle, Ana Laura, Cidinha, Fátima e uma vez até fui Eduardo. Um psiquiatra se deliciaria com esse caso de personalidade múltipla: quem é você hoje?, ele perguntaria.

Bem, doutor, hoje eu sou uma planta. [Espanto] Sou uma batata rosa. [Mais espanto] Acho que ele nunca teve uma paciente batata, quanto mais cor de rosa. Na verdade, ele nunca deve ter * visto* uma batata cor de rosa, o que torna tudo muito mais engraçado.

— Lu, não consigo ver meus e-mails direito! Vou jogar esse computador no lixo, eu estou irritado! — Reconheço a voz sem que ele precise se identificar. É o dono do bufê mais famoso da cidade, um cara alegre e divertido.

— Mas como assim? — Ás vezes fico perdida com os problemas que aparecem — Você não consegue baixar os e-mails, é isso? Como tá a sua configuração SMTP? [E às vezes sou cruel. Só de vez em quando, mas sou.]

— Não, menina… As mensagens ficam todas pela metade, faltando letra do lado direito, a tela tá torta, e até aquela barrinha que rola pra cima e pra baixo sumiu, você sabe qual é, né? — Continuo perdida.

Segue-se uma discussão altamente técnica onde os termos mais comuns são ‘coisinha’ e ‘quadradinho’. No desespero, chuto.

— Experimenta dar dois cliques na barra azul-escuro lá em cima, onde tá escrito… — Bingo!!

— Ah, que maravilha, apareceu tudo! Olha só, estou preparando uns brigadeiros pro aniversário da Fulana, depois deixo uma dúzia pra você.

Desligo o telefone. Ganhei o dia.

Publicado originalmente em dezembro de 2000 no e-zine 700km.

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18 comentários sobre “Sobre Batatas Cor-de-Rosa e Brigadeiros

  1. Lu, não consigo abrir uma página nova menas de 5 minutos! Me dá uma ajudinha? Será que é aquele treco que fica piscando, o modern, ou Fox Modem, ou murder, sei lá…? Ou será que preciso clicar naquele coiso com a letra “E” pequenininho? Me dá uma mão(um braço, um pc decente e sobretudo, uma cabeça pensante), por favor, me liga… Clic. (Desliga, pra economizar a ligação, esperando que o interlocutor retorne com a explicação. Vc conhece gente assim? rs!!!!)

    Sobre a sociedade anônima, eu pensava que ninguém conhecia ninguém. Tipo, o diretor não sabe a quem responde e de onde vem o salário da turma…

    • luma, conheço gente assim 😉

      mas a lentidão é vero? geralmente, nesse caso uma esvaziada na memoria cache ajuda. me grita se for o caso.

      [lóvo a idéia da sociedade anônima, é quase compatívl com a realidade!]

  2. Opa, parabéns? É isso mesmo?
    UHUUUUUUUUUUU, FELIZ ANIVERSÁRIOOOOO, já ví que não precisa de brigadeiro, então, felicidadesssss, u-huuuuuuuuuuuuuu!!!

    😉

    Ai, queria ser tão espiritusa como você…

  3. Adorei seu artigo (ou crônica, será?), você é mesmo espirituosa, imagina só, pessoas jurídicas, pessoas mecânicas, quanta criatividade! E esse pedacinho então, morri de rir:

    “E a americana incorporated, incorporada? Mais do que vestir a camisa, quem trabalha numa empresa Inc. carrega ela no corpo, num caso clássico de obsessão. Quando o sujeito é demitido chama-se um padre para exorcizar e depois incorporar aquele pedaço da empresa num novo funcionário.” (rsrs)

    Aliás, ficou bem chique o novo leiaute, uau! E agora vou lá mudar o link da Batata nos dois blogs, para o nome novo. Nome novo e a qualidade de sempre!

    Liga não, Naomi, a essa hora da noite o Tico e o Teco já estão meio devagar e começo a divagar…. mas ganhar brigadeiro é o máximo, não? Agora fiquei confusa, é seu aniversário? Se for, parabéns! 😉

    Beijos sonolentos,

    Cris

    • oi, cris, bregada!

      ó, nem precisa se abalar pra alterar o nome caus que ele volta quando eu trocar de template de novo [não consigo ficar muito tempo com o mesmo].
      😉

      ah, e na falta de brigadeiro também aceito camafeus…
      😆

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