Assassinato por morte / Murder by death

Pôster do filme

Pôster do filme

No milênio anterior, a Sessão da Tarde costumava exibir filmes mais variados do que apenas “uma galerinha do barulho aprontando muita confusão” de hoje em dia. Foi nessa época que vi Assassinato por morte [Murder by death, EUA/1976], um clássico do humor que revi agora no fim de semana.

Trata-se de uma paródia-protesto contra os whodunit ou histórias de detetive que enganam os fãs ao apresentar o culpado no último capítulo sem dar ao leitor a chance de descobrir sozinho. O roteiro usa a estrutura do crime do quarto fechado, isto é, um grupo isolado de personagens em um ambiente controlado. Assim, o[a] criminoso[a] nunca será um personagem desconhecido que só aparece no fim.

O milionário Lionel Twain convida os cinco maiores detetives do mundo para a sua mansão. Ele os desafia a solucionar um assassinato e assim ganhar 1 milhão de dólares. Se nenhum dos cinco resolver o caso, todos devem reconhecer publicamente que Twain os derrotou. Além de Twain e dos cinco detetives, na mansão estão os cinco acompanhantes dos detetives, um mordomo cego e a cozinheira surda-muda.

Ei, é uma comédia, eu te disse!

Lionel Twain: You’ve tricked and fooled your readers for years. You’ve tortured us all with surprise endings that made no sense. You’ve introduced characters in the last five pages that were never in the book before. You’ve withheld clues and information that made it impossible for us to guess who did it. But now, the tables are turned. Millions of angry mystery readers are now getting their revenge. When the world learns I’ve outsmarted you, they’ll be selling your $1.95 books for twelve cents.

Truman Capote em Assassinato por morte

Truman Capote em Assassinato por morte

Lionel Twain é interpretado pelo escritor Truman Capote [Bonequinha de luxo, A sangue frio]. Quando ele apareceu em cena me deu cinco minutos de bobeira e eu pensei que fosse o Philip Seymour Hoffman, juro. Depois me dei conta que foi por causa da interpretação impecável que Hoffman fez de Capote no filme de 2005. Impecável! O nome do personagem é uma homenagem a Mark Twain.

O elenco todo, aliás, já valeria o filme inteiro. O mordomo cego Jamesir Bensonmum [algo como James-senhor Benson-madame, um trocadilho que só fez sentido agora que assisti no idioma original] foi interpretado por sir Alec Guinness. A criada surda-muda e analfabeta Yetta é um dos melhores personagens do filme e talvez o mais conhecido da atriz Nancy Walker, que fez diversos pequenos papéis em filmes e séries.

Além deles, os cinco pares de detetives/sidekicks são:

. Sidney Wang e Willie Wang – Peter Sellers e Richard Narita; uma paródia de Charlie Chan criado por Earl Derr Biggers. Eu assistia muito aos desenhos de Charlie Chan com seus inúmeros filhos, todos detetives…

Jamesir Bensonmum: May I get your bags, sir?
Sidney Wang: Oh, no, no. Son will get bags. That is why I adopted him.

. Sam Diamond e Tess Skeffington – Peter Falk e Eileen Brennan; paródia de Sam Spade e Richard Diamond, ambos de Dashiell Hammett, e de Inspetor Columbo, da série de TV que o próprio Falk interpretava.

Tess Skeffington: I’m scared, Sam. Hold me.
Sam Diamond: Hold yourself. I’m busy.

. Dick e Dora Charleston – David Niven e Maggie Smith; paródias de Nick e Nora Charles, personagens de The Thin Man, também de Dashiell Hammett. Para quem só conhece Dame Maggie dos filmes de Harry Potter, sugiro assistir aos filmes mais antigos dela: um talento que transborda.

Dick Charleston: Up there, Dora, look – a blind butler.
Dora Charleston: Don’t let him park the car, Dickie.

. Milo Perrier e Marcel Cassete – James Coco e James Cromwell; paródia de Hercule Poirot, de Agatha Christie. Estreia de Cromwell no cinema. [No romance Assassinato no Orient Express tem um personagem chamado Cassete.]

Milo Perrier: I’m not a Frenchie, I’m a BELGIE!

. Jessica Marbles e Miss Withers – Elsa Lanchester e Estelle Winwood; paródia de Miss Jane Marple, também de Agatha Christie. Lanchester também trabalhou em Testemunha de acusação. Dizem que ela e Withers detestavam-se dicumforça.

Jessica Marbles: I smell gas!
Miss Withers: I can’t help it, I’m old.
Jessica Marbles: No, not that kind of gas. The kind that kills!
Miss Withers: Well, sometimes my gas…

Elenco de Assassinato por morte

Elenco de Assassinato por morte

Com um elenco desses, é claro que o diretor tinha toda a segurança para entregar o roteiro de Neil Simon nas mãos dos atores sabendo que disparariam os diálogos à perfeição. O trabalho corporal, as expressões faciais, a entonação da voz deles é de cair o queixo. É o tipo de filme que dá gosto de assistir várias vezes, para descobrir um detalhe diferente a cada vez.

É o tipo de filme também que fica melhor quanto mais se assiste, porque o humor parece óbvio da primeira vez mas a ironia dos diálogos vai se refinando a cada reprise. A identidade do[a] criminoso[a] é o que menos interessa aqui [embora a reviravolta final seja muito boa], o que importa é que se trata de uma obra que excede as expectativas. Alá, já deu vontade de rever.

Dizem que há cenas deletadas em que Peter Sellers aparece no papel de Sherlock Holmes: Holmes chega à mansão depois que o crime foi resolvido. A cena não entrou na edição final por problemas na compra dos direitos e nem no DVD. Aliás, até o DVD saiu de catálogo, não consigo achar em loja nenhuma.

Dizem também que o papel de Sidney Wang era para ser de Orson Welles, que estava ocupado na Itália na época. Se sem Welles Assassinato por morte já é um dos meus Top Favoritos Foréva, como ficaria com ele?

Serviço
Ficha técnica no iMDB
Verbete no Wikipedia

Resenha legal
“ASSASSINATO POR MORTE” (“Murder by Death”, 1976), de Robert Moore – Valise de Cronópio

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Testemunha de Acusação

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15 comentários sobre “Assassinato por morte / Murder by death

  1. A-do-ro!!!

    Esse filme é uma obra-prima da comédia, naquela época os filmes com histórias de Agatha Christie e outros esbanjavam elencos com atores de peso, que sozinhos já garantiriam a bilheteria. Todos juntos, então….

    Estava pensando em escrever sobre esse filme, mas já desisti; a titia Batata o fez com perfeição. Aliás, numa faxina ‘dasbrabas’ outro dia, encontramos uma Veja de 1976 (!) e na seção de estréias no cinema, adivinha quem estava? Assassinato por morte. Até guardei a revista.

    Agora fiquei com vontade de ver de novo… nhé.

    Beijos!

  2. Eu vi esse filme láááá nos anos 80, com meu pai. Me lembro que já na hora em que apertam a campanhia da mansão tive um ataque de asma de tanto rir. A empregada gritando na sala de jantar me fez correr pro banheiro, porque estava quase molhando as calças. O meu favorito é Maggie Smith – chiquerésima em todo o seu ar esnobe/blasé

    Aaaaaaaaaaaaaaaamo. Viro madrugada mas não perco nem uminha reprise. E você tem razão: cada vez que eu assisto acho uma piada nova.
    Bjs

  3. Aaah, um dia desses me deu uma sapituca doida e eu resolvi pegar o DVD só pra lembrar de quando era menina e blá blá e era doida pelo filme. Ainda que fosse tão menina que não sacasse metade das piadas. Mas nunca me esqueci da abertura, da animaçãozinha. Do grito da campainha, como bem lembrou a Suzana.
    Também tive o déjà vu de olhar pro Capote e ver o PSH, pensar automaticamente “nossa, como parece!”.
    E outro dia minha mãe me “torpedeia” dizendo “Assassinato por morte no TCM”. Não fui ver, mas não me lembro por quê. Queria ter podido assistir com ela.
    Beijo!

  4. Atiçou a minha (re)curiosidade. Lembro que assistí em algum tempo do “milênio anterior” como vc diz, pra me sentir um tiquinho mais velha, danada. Vc não fez uma resenha, vc fez História. Com nascimento, vida, morte e milagre do filme. Depois dessa, craro, quero rever o filmão. Ai, vc leu que o Peter Falk, com 81 anos está com demência. Me doeu o coração. Aquí, o Columbo tem uma nação inteira como seu fã. Passam, repassam a velha e a nova versão de Columbo eternamente, e o povo o revê com o mesmo entusiasmo do passado.

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