Queimando livros

Capa de Baby Be-Bop

Capa de Baby Be-Bop

Nas semanas passadas, o assunto do momento nos programas de fofoca e sites dedicados à vida das famosidades era discutir a sexualidade de um participante de reality show. Muita gente [eu no meio] ficou chocada com o fato de ele *não* ter ganhado. Muitos acharam que foi resultado de preconceito do público votante, já que vazaram fotos do competidor travestido dias antes da final. Eu quero crer que não tenha sido isso, mas o fuzuê que a tal “saída do armário” provocou na mídia faz repensar essa crença.

Lembrei disso agora ao ler um artigo no jornal inglês The Guardian sobre uma ação jurídica que o grupo religioso Christian Civil Liberties Union move no Estado do Wisconsin [EUA]. A ação pede à Justiça o direito de queimar publicamente uma cópia do livro “Baby Be-Bop” da autora Francesca Lia Block, por ser “explicitamente vulgar, racial [e não racista] e anticristão”. Além disso, exigem indenização de 120 mil dólares da American Library Association por danos provocados pelo fato de terem sido expostos ao referido livro numa biblioteca pública. Reclama que quatro de seus membros sofreram danos no seu bem-estar mental e emocional.

A ação judicial segue-se a uma campanha do grupo religioso que pretende proibir o acesso a livros com temática sexual aos jovens e adolescentes da cidade de West Bend. O diretor do programa Freedom to Write do PEN America diz que o ato é meramente teatral, que não tem possibilidade de seguir adiante e cujo maior objetivo é ganhar publicidade, porém é preocupante a motivação por trás da ação.

The claimants, he said, “have a right to continue to express their views, and this in a way is a creative attempt to express those views”. But it’s “also a dangerous game when you’re talking about something like book burning, calling on the law to burn books. It’s certainly completely un-American, and if they paused, I think they would agree.” [The Guardian, Christian group sues for right to burn gay teen novel, 12/06/09]

O livro Baby Be-Bop é uma prequel de “Weetzie Bat” e conta a história de um adolescente que entra em termos com seus sentimentos e sua homossexualidade.

V. reviews do livro em inglês no site da Amazon [link].

Lembrei também de um filme que assisti há algumas semanas e que me levou para o lado oposto do pretendido.

O Homem de Palha [The Wicker Man*, Inglaterra/1973] conta a história de um detetive cristão que investiga o provável assassinato por sacrifício humano de uma garota numa ilha governada por ideais pagãos. O roteiro exacerbava os costumes ditos não-cristãos para horrorizar o policial [e quem sabe a audiência também, de forma a criar um laço entre eles?] mas eu me horrorizei foi com a intolerância do detetive, seu desrespeito pela crença e pelos costumes diferentes, enfim, me horrorizei foi com a soberba que demonstrou e achei bem merecido o que lhe ocorreu. É essa a mesma soberba que a tal Christian Civil Liberties Union vem mostrando.

V. post da Adrina sobre a imposição da crença religiosa em 09/06/09.

Ou, como bem disse o escritor Neil Gaiman no Twitter em resposta a um apoiador do grupo:

Dear (fightforyourrightobookburn) Christian Civil Liberties Union, whatever side you’re on, I am now on the other one: http://bit.ly/twerps

O Homem de Palha – resenha de Renato Rosatti.
* Não confundir com O Sacrifício, a refilmagem norte-americana de 2006 com Nicolas Cage no papel do detetive, que perdeu todo o foco.

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A melhor resposta do competidor sobre sua sexualidade: “acho engraçado dizerem que eu saí do armário. Eu nunca estive dentro dele, para começar”. Clap!

Twerp, segundo o dicionário Merriam-Webster, é uma pessoa tola, insignificante, vil ou desprezível. Já o Babylon raduz por idiota ou tapado. O serviço de encurtamento de URLs Bit.ly permite personalizar o link, e Gaiman usou a função e a palavra de propósito.

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5 comentários sobre “Queimando livros

  1. Neil Gaiman is the guy!

    Que reality foi esse que eu perdi? (aka “grande novidade perder algo interessante!!!”)
    Eu sinceramente não tenho mais saco, estômago ou paciência para isso. É a completa e total decadência de uma sociedade, com tudo o que há de mais clichê nisso.

  2. Neil Gaiman rulez. Period.
    Sobre o tal competidor, pois é… quando o rival bem-casado-american-boy estava se apresentando, um dos patrocinantes ficava com a mensagem de vote nele o TEMPO INTEIRO, dando opções de votos por todos os meios que se possa imaginar. Não tinha como o outro e mais talentoso ganhar.
    Ai, ai…

    beijocas

  3. Bata, não conheço este reality e nem o livro ainda, que pena. Se vc não tivesse dado o toque, eu já estaria confundindo com o filme que tem o Nicolas Cage.

    Na realidade, entrei aquí pra confirmar o que vc diz lá em cima, o de ler um excelente post da Adrina de 09-06-09. Ela traduziu de modo exemplar aquilo que deveríamos chamar de respeito ao “diferente”. Beijinhos

  4. Pingback: Semana dos livros banidos « Batata Transgênica

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