Touch of Evil / A Marca da Maldade

Pôster do filme

Pôster do filme

Contém spoilers.

Na primeira vez que assisti ao filme A Marca da Maldade [Touch of Evil, EUA/1958] a única coisa que eu sabia era que se tratava de uma obra do Orson Welles. Ao final dos primeiros três minutos e vinte e seis segundos já estava de joelhos, boquiabrida.

A sequência inicial, filmada num único take [não sei se é o termo correto: quero dizer sem cortes de câmera], inicia-se com um vulto armando uma bomba que é colocada no portamalas de um carro. Um casal toma o carro e dirige pelas ruas, a princípio vazias mas que vão ficando mais e mais cheias de gente conforme se aproximam da fronteira entre os EUA e o México. O aumento do número de pessoas e a passagem do tempo aumentam a tensão – e, o melhor, sem musiquinha de tensão!

A trilha sonora da primeira versão que vi desta cena [sim, são duas, depois falamos sobre isso] é de Henry Mancini e tem um ritmo tropical que parece não combinar com o clima noir do filme. No entanto, e apesar das queixas de Welles, combina.

V. abertura na versão de estúdio com créditos e trilha de Henry Mancini no Facebook [link].

A trama se desenvolve com o embate clássico tira bom versus tira mau, luz e sombra, mas sem um viés maniqueísta. Orson Welles foi um defensor dos direitos civis muito antes disso virar política de governo ou de preocupar a sociedade civil, por isso é interessante ver como ele construiu seu Hank Quinlan como um dos vilões mais detestáveis do cinema ao mesmo tempo que lhe concedeu uma certa justiça. Welles colocou o assunto na mesa [abuso de poder, racismo, prostituição] e deixou o julgamento a cargo da audiência em plena era de censura.

Isso ficou ainda mais claro na versão do diretor, lançada 40 anos depois do lançamento do filme usando um memorando que Welles enviou ao estúdio com críticas à edição que fizeram sem seu consentimento.

Abertura planejada por Orson Welles:

Link http://www.youtube.com/watch?v=Yg8MqjoFvy4

Há muitas histórias sobre o filme, listei alguns links no final do post [eu gosto especilmente da que conta como Janet Leigh acabou no elenco depois que seu agente recusou o papel sem consultá-la porque o cachê estava abaixo dos padrões da atriz; quando ela soube disso, aceitou o papel na hora porque ser dirigida por Welles valia mais do que dinheiro, e no fim foi por causa deste filme que Alfred Hitchcock a chamou para fazer Psicose].

Foi Welles, aliás, o responsável pela presença da maioria dos atores já famosos no elenco, em papéis principais ou menores. Então, se o filme é essa obra-prima que sobrevive há mais de 50 anos – e que alguns críticos chegam a dizer que é superior a Cidadão Kane – é tudo graças a ele, inclusive as atuações de seus colegas.

Eu queria fazer uma sessão dupla com as duas versões, mas não encontro a do estúdio em DVD.

O pôster de Touch of Evil é o que recebe mais destaque no consultório do Dr. James Wilson, em House.

House S05E22
House S05E22

Serviço
Critic review no Filmsite
Ficha técnica no iMDB
Hayes Code – Motion Picture Production Code
Memorando de Orson Welles para o estúdio
Verbete no Wikipedia

Livro A Marca da Maldade, de Whit Masterson, à venda no Submarino

Artigo legal
Touch of Evil [1998]: A Great Civil Rights Film Free at Last, no site epinions.com

Post legal
como fazer bons filmes #1 no blog português Obvious – um olhar mais demorado.

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17 comentários sobre “Touch of Evil / A Marca da Maldade

  1. Naomi, Orson Welles era um gênio; só isso explica ele tirar uma atuação memorável de Charlton Heston – num papel de mexicano!
    E a sequência inicial é soberba, sim. A gente só nota que acabou quando sente os dedos ardendo – e as unhas no sabugo.
    Bjs

  2. Sensacional o post! Esse filme deve ser citado em qualquer curso de cinema! Quanto à abertura sem cortes, Hitchcock fez isso em “The Rope” (Festim Diabólico) dez anos antes. Porém, a lenda de que o filme inteiro era sem cortes foi desfeita, já que o que ele fez na verdade foi emendar tão bem os cortes, que deu essa impressão. De qualquer forma, se você ainda não viu o Rope, veja depressa! 🙂

  3. Ótimo artigo, ainda não vi esse filme, mas já deu cosquinha pra assistir…

    A cena de abertura é mesmo excelente, parece que em um filme do início da carreira do Hitchcock há uma sequência parecida, um menino deve levar um pacote para alguém e ali tem uma bomba; ninguém sabe disso, só o espectador. Suspense de primeira (pena que não lembro o nome do filme).

    Abraços!

    PS: te mandei um e-mail, Naomi.

  4. Acredite: ainda não vi.

    Mas está na loooonga fila de clássicos que um dia ainda serão vistos.

    E, claro, é citado em “O Clube do Filme”, que já li e vai merecer resenha em breve no Cinema é Magia…

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