O Palhaço

Estou deitada na areia sob um piso de tábuas, escondida. Tem cinco tiros no meu braço esquerdo, são de calibre .22. Tento permanecer imóvel para não ser descoberta, mas a mancha de sangue escorre para fora e ela me arrasta para a sala de estar.

Ela é uma enfermeira e já assassinou seis casais, eu testemunhei o último. Ninguém percebeu que foram assassinatos, nem o motivo ou quem teria provocado. Ela apenas tocava a campainha e matava, sumindo em seguida.

Ela tocou a campainha dessa casa onde eu estava e vi seu rosto por cima do ombro da minha anfitriã e a reconheci. Achei que não tinha me visto nem reconhecido, pois não olhou pra mim. Me escondi, mas logo ouvi os disparos e o calor no meu braço. Eram cúmplices, as duas.

Estou a caminho da universidade e procuro a entrada do prédio: clássico, pedra e madeira de lei, amplo e vazio. Quatro escadarias, uma em cada canto, nenhuma acessibilidade. Meus aposentos no alojamento são compartilhados com uma garota com quem antipatizo de imediato, mas eu gosto do namorado dela. Uma pequena disputa pra decidir quem fica com qual quarto – são dois, para chegar ao segundo tem de passar pelo quarto da frente.

Fico com o da frente e abro o guada-roupa para arrumar minhas coisas: as roupas do ocupante anterior ainda estavam lá. Continuo abrindo as portas e gavetas, nunca vi tantas calças jeans fora de uma loja. Camisetas do time de futebol, malhas, cobertores e colchas e ah, a roupa de baixo. Mas… mas… teddies e soutiens? Souvenires, talvez?

Veja, tem uma cômoda gaveteiro. Mais jeans, uma manta de cashmere, oh, essa vou pegar pra mim. Gaveta após gaveta, olhe, ele coloca sachês para perfumar as roupas, até que chego à última, na parte de baixo. Está repleta de fotos do rapaz assassinado pela enfemeira. aquele que testemunhei. Estou infiltrada para investigar o crime.

As fotos mostram o rapaz na praia, de sunga, com um anão também de sunga no colo. Ele usa pintura e nariz de palhaço e percebo que isso resolve o caso.