[LieToMe] Moral Waiver

Você já teve a impressão de estar sendo observado?

Você já teve a impressão de estar sendo observado?

[…] consequencialismo, cujos grandes defensores incluem Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Basicamente, eles dizem que não existem princípios externos abstratos como a ideia de Justiça que possam validar ou invalidar nossos atos. A única forma de julgá-los é através das consequências que acarretam. Vale dizer que são boas as ações que engendram bons resultados. No caso específico de Bentham (conhecido como pai do utilitarismo), o que importa é o princípio de utilidade, que pode ser traduzido na fórmula: “o maior bem para o maior número de pessoas”. [Hélio Schwartsman, 20/08/09]

O título do segundo episódio de Lie To Me meio que entrega de bandeja o destino da trama, mas tudo bem, tem algumas coisas interessantes pelo caminho.

Para começar, ele demonstra que a série não vai se apoiar na tecnologia para resolver os casos e sim na análise humana com o apoio da tecnologia, que pode ser mais influenciável e portanto passível de falha porém é o que apreende melhor a complexidade das ações e reações. E com humor.

A cena inicial mostra o Dr. Lightman e o representante de uma agência a testarem a eficácia de um novo modelo de polígrafo portátil. O polígrafo analisa a resposta corporal às perguntas [aumento da transpiração, pressão arterial, batimentos cardíacos, etc.]. Alguns especialistas dizem que o detetor de mentiras tem de 90 a 95% de acuidade, mas os psicológos reduzem essa margem de acerto para 60%.

O problema desse tipo de mecanismo é que ele deteta as variações corporais mas não o contexto em que essas variações acontecem. Quem tem hipertensão sabe que a pressão pode subir na hora de medir só pela presença do médico ou enfermeiro, por causa da ansiedade. Tem até um nome técnico pra isso: Síndrome do Jaleco Branco.

Por isso nem todos os sistemas judiciais aceitam o resultado do teste do polígrafo como prova comprobatória [eita nóis!]. No Brasil não se aceita, se não me engano, e mesmo nos EUA tem Estado que também não.

Isso não foi dito na série, eu que pesquisei. Por cima. E eu tenho a SJB.

A partir deste ponto há spoilers.

Como argumento para rejeitar a proposta de compra do tal polígrafo portátil modernoso o Dr. Lightman usa de truques simples e eficazes: refaz o interrogatório substituindo o pesquisador por uma moça vistosa em roupa justa. O resultado, que antes apontava “verdade”, agora declara que as mesmas respostas que o interrogado deu são “mentira” graças aos efeitos corporais que a entrada da moça vistosa provocou no… no… bom, no estado de espírito do cara.

Quando o mandachuva questiona o defensor da compra se ele investiu muito dinheiro da agência no projeto, outro truque do Dr. Lightman: ele tinha deixado um ovo nas mãos do cara, explicando que era um detetor de mentiras primitivo usado em julgamentos no oeste da África. O ovo é passado de mão em mão e aquele que o quebrar é considerado culpado. Não é invenção da série, é verdade.

Desdém, desprezo.

Desdém, desprezo.

Isso tudo acima não significa que ele é contra a tecnologia, apenas contra a dependência total. É outro ponto a favor da série, pra mim. Eles usam o trequinho lá que identifica o stress na voz e câmeras para rever os interrogatórios nos dois casos da noite, uma soldado que denuncia o sargento por estupro e um jogador de basquete universitário acusado de aceitar suborno.

Aí entra a questão do utilitarismo mencionado na citação de abertura deste post, do nosso amiguinho Schwartsman. O leitor de Harry Potter talvez se lembre também da história da amizade entre Albus Dumbledore e Gellert Grindelwald no volume Relíquias da Morte, do ideal do Bem Maior. É o utilitarismo levado ao extremo, mas é. Mesmo assim, o enredo continua a não manipular o julgamento ético do espectador, o que é coisa difícil de fazer e rara de ver.

A construção dos personagens fixos começa a se definir bem aos pouquinhos. Desta vez a interação Lightman/Torres foi a que me atraiu mais – só que por enquanto serviu apenas para conformar a personalidade do Lightman.

Ayjizuis. Perdão pelo “conformar”. Tou coa cabeça nos trabalhos acadêmicos, esse trem gruda.

Dr. Cal Lightman: Sabe, eu queria…
Ria Torres: É, seu sei.
Dr. Cal Lightman: O que?
Ria Torres: Você teve um pequeno sorriso de gratidão. O que, está surpreso? Sério? Sabe, apenas porque eu não conheço a sua ciência não significa que eu não saiba das coisas.
Dr. Cal Lightman: Quando você NÃO sabe a ciência, você não vê o quadro todo. As pessos se ferem.
Ria Torres: O que foi isso? O que aconteceu?
Dr. Cal Lightman: O que?
Ria Torres: Vergonha. Quando disse que as pessoas se ferem, você se mostrou envergonhado.
Dr. Cal Lightman: Não sei do que você está falando.
Ria Torres: Você está mentindo.
Dr. Cal Lightman: Acostume-se com isso.

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Verdade ou mentira, Alex Rodrigues?

Verdade ou mentira, Alex Rodrigues?

O site da ESPN norte-americana brincou de Lie To Me em fevereiro de 2009, depois que A-Rod [o ex da Madonna, lembra] foi flagrado sob influência de esteroides. Na matéria do site tem o vídeo da declaração pública dele, a magem encontrei no blog TV by the numbers.

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11 comentários sobre “[LieToMe] Moral Waiver

  1. Essa SJB deve ser bem comum.
    A pressão de amigos meus vão nas alturas, só de saber que estão em consulta.
    Eu disfarço…
    Brinco como nunca.
    Converso sem parar.
    E, tento fazer o controle da respiração.
    SJB também com dentistas.
    😆

  2. Eu sempre encontro belas dicas de filmes e livros neste blog que é uma parada mais que obrigatória, então venho anunciar a nova temporada do Cine Conhecimento 2009 que começa hoje às 23:30. Com reprises aos sábados 22:30 e domingo às 22:00.

    Veja abaixo a ordem de exibição dos filmes de outubro:

    2, 3 e 4/10 – A Mulher do Lado (François Truffaut)
    9,10 e 11/10 – Os Incompreendidos (François Truffaut)
    15/10 – O Triunfo (Randa Haines)
    16, 17 e 18/10 – O Amor em Fuga (François Truffaut)
    23, 24 25/10 – De Repente, num Domingo (François Truffaut)
    30, 31/10 – Melodia Infiel (Alain Resnais)

    Promessas: Grande Ditador e Tempos Modernos de Charles Chaplin. Melodia Infiel, de Alain Resnais e Intolerância, de D.W. Griffith . Outros menos conhecidos, como os iranianos Dez, de Abbas Kiarostami e O Silêncio, de Mohsen Makhmalbaf .

  3. Eu devo ter a Síndrome da Depilação. Quando sei que irei na depilação à noite (ou no dia anterior) fico com o coração disparado o dia inteiro, tremor nas pernas, problema com a respiração…morro de medo, vc não faz idéia.

    Mas voltando ao que importa, fico super feliz com a sua indicação. Assisti 4 episódios de Lie to Me até agora (indo para o 5º) e estou amando. E fico cá pensando nas minhas microexpressões (as vezes não tão micro) e lembrando o que vc disse de que os atores tem que ser bons para conseguir fazer o que precisa ser feito e não recair sobre hábitos universais e automáticos.

    • síndrome da depilação foi ótimo! deve entrar na mesma categoria que tpm.

      eu ainda não assisti do 3º em diante, por enquanto tou curtindo… esse mundo é um enorme projeto colaborativo, né? de indicação a indicação. 😆

      quanto às microexpressões, me divirto com o sobrinho de 2 anos que é bem expressivo. enquanto brincamos eu fico observando as caras que ele faz. por enquanto aprendi a identificar o momento em que ele quer fazer cocô, heheeeh.

    • Eu gostei, Tommy!
      As cenas paradisiacas do que devia ser o pantanal e parecia ser a chapada…
      Até mesmo o inusitado me divertiu.

      Impagável foi a cena do pai da Santinha conversando com a empregada e dando a entender que vai se entender com ela, depois que a mãe/megera for para o convento.
      😆

      Só pude ver na reprise.
      Na sexta, só pedaços.

      Mas, em relação às chamadas para o capítulo final, tenho que admitir que elas foram mais promessas que não se cumpriram.
      Talvez por isso o desagrado geral.
      😉

  4. Pingback: [LieToMe] Unchained | Do No Harm « Batata Transgênica

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