Now, Voyager / Estranha Passageira

The Untold Want
By Life and Land Ne’er Granted
Now, Voyager
Sail Thou Forth to Seek and Find [Walt Whitman]

Pôster do filme

Pôster do filme

Esses versos da obra Folhas da Folhas de Relva, de Whtiman, estão num bilhete do psiquiatra Dr. Jacquith para sua paciente Charlotte Vale e dão o título do filme A Estranha Passageira [Now, Voyager, EUA/1942]. Eu estou com dúvida se tem o artigo no título brasileiro e com preguiça de pesquisar, releve.

Sempre que ouço falar em Bette Davs, a atriz principal deste filme, a primeira ideia que me vem à cabeça é uma personagem fria, determinada, vingativa, proativa [perdão]. Ou seja, tudo o que ela não é neste papel: a filha temporã de uma matriarca dominadora numa das famílias da alta sociedade de Boston. Uma solteirona acima do peso porque sua mãe não acredita em dietas, que lê e fuma escondido, o patinho feio da família.

Como o espectador sabe disso? Óbvio, basta ver a atriz usando óculos e com as sobrancelhas grossas. É o velho truque para enfeiar divas, diria o Agente 86.

Charlotte Vale antes

Charlotte Vale antes

Charlotte Vale é resgatada de casa pelo Dr. Jacquith, um psiquiatra contratado por uma das noras da velha matriarca que teme que a cunhada esteja à beira de um colapso nervoso. A escritora Olive Higgins Prouty é considerada pioneira no uso da psicoterapia como tema dos seus romances. Ela é a autora dos quatro livros que compõem a saga da família Vale em Boston; Now, Voyager é um deles.

Curiosidade: Olive Higgins Prouty foi quem deu apoio financeiro à poeta Sylvia Plath; por causa disso, Plath baseou-se nela para criar a personagem Philomena Guinea em The Bell Jar.

Quando o Dr. Jacquith dá alta a Charlotte, ela está transformada fisicamente. Psiquicamente, entretanto, ainda deve enfrentar suas inseguranças antes de voltar para casa e para a mãe manipuladora [a ótima Gladys Cooper, uma das melhores amigas de Betty Davis na vida real]. Assim, ele a põe num cruzeiro rumo ao Rio de Janeiro.

Vou me abster de comentar o motorista de táxi chamado Giuseppe e o português que ele falava, tá? Desculpaí.

Charlotte Vale depois

Charlotte Vale depois

Durante o cruzeiro ela conhece o arquiteto Jerry Durrance [o ator austríaco Paul Henreid, uma voz linda], que enfrenta um casamento infeliz e que tem uma filha muito como a própria Charlotte – a quem ele chama Camille [camélia] Beauchamp. Ambos se apaixonam. O problema é que este é um filme de 1942 rodado sob o Código Hays: nada de adultério, crianças. Mesmo assim, encontraram uma forma sutil de explorar a sensualidade entre Bette Davis e Paul Henreid numa cena que se tornou clássica: Jerry acende dois cigarros na boca, ao mesmo tempo, e passa um para Charlotte.

Henreid também fez o Victor Laszlo de Casablanca. Que voz. Claude Rains, o Dr. Jacquith, fez o Capitão Renault no mesmo filme.

Charlotte finalmente retorna para enfrentar a mãe castradora. Ela retira forças das camélias que Jerry envia regularmente – mesmo concordando em não se verem mais – e do apoio da nova enfermeira Dora Pickford.

O forte deste filme são as interpretações e os diálogos. No link pra resenha do Filmsite [que é mais um recap, na verdade] tem muitos desses diálogos e citações. A citação mais famosa ganhou o 46º lugar na lista das 100 citações inesquecíveis do American Film Institute: “Não peçamos a lua, nós temos as estrelas.”

Charlotte Vale: Oh Jerry, don’t let’s ask for the moon. We have the stars.

Sensualidade prescinde de nudez

Sensualidade prescinde de nudez

Eu confesso que recebi mensagens conflitantes do filme. Talvez tenha que ler o livro pra entender melhor o que se passa [tem traduzido para português brasileiro,vi na Estante Virtual]. A princiípio me pareceu que Charlotte vivia uma imitação de vida no cruzeiro, uma vida que não era a dela mas que ela copiou de algum lugar – dos livros que lia escondido, talvez?

A menção confusa de uma Renée Beauchamp não ajudou nadinha: era alguém que desistiu da viagem e de quem Charlotte “herdou” a cabine? O que faziam suas roupas ali, então? E por que continham bilhetes dirigidos a ela? Falha do roteiro ou da edição, que no resto criou um filme inesquecível. Camille Beauchamp foi a persona que Charlotte criou no navio para lidar com as relações que faria daí em diante.

Quando Charlotte recebe o pedido de casamento de Elliot Livinsgton, da tradicional família bostoniana e que a ignorava na juventude, ela acha que é sua oportunidade de ter as três coisas “mais importantes” para uma mulher: sua própria casa, seu próprio filho, seu próprio homem. Melhor ainda, sua mãe aprova inteiramente.

É um sinal do fortalecimento e empoderamento feminino da personagem que ela afinal rompa o noivado com Elliot – não para enfrentar a mãe, não para ficar com Jerry [que ela reencontra num coquetel] – mas porque ela não o ama e não precisa se submeter à visão machista e tradicionalista da sociedade. Charlotte passa a viver como um ser emancipado, dona das próprias vontades e ações.

Ou quase isso, dentro do possível.

Dr. Jacquith apresenta Whitman a Charlotte

Dr. Jacquith apresenta Whitman a Charlotte

O filme também marca o empoderamento da atriz nos estúdios. Até então ela era considerada uma estrela, mas a partir daqui ela passa a ter maior poder de decisão e de interferir nos trabalhos em que atuava. Ela trabalhou junto com Orry-Kelly no figurinos de Charlotte, sugeriu o cabelo de Paul Henreid e teve influência até em decisões do diretor Irving Rapper.

Bette Davis foi indicada ao Oscar por este papel, perdeu para Greer Garson [a tal o discurso mais longo]. Gladys Cooper foi indicada para o Oscar de atriz coadjuvante [mesma categoria e no mesmo ano que Agnes Moorehead por The Magnificent Ambersons/ Soberba], perdeu para Teresa Wright.

Ficha técnica
Título no Brasil: Estranha Passageira
Título Original: Now, Voyager
País de Origem: EUA
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 117 minutos
Ano de Lançamento: 1942
Estúdio/Distrib.: Warner Bros.
Direção: Irving Rapper
Roteiro: Casey Robinson, baseado em livro de Olive Higgins Prouty
Produção: Hal B. Wallis
Música: Max Steiner
Fotografia: Sol Polito
Direção de arte: Robert M. Haas
Figurino: Orry-Kelly
Edição: Warren Low

Elenco
Bette Davis …. Charlotte Vale
Paul Henreid …. Jerry Durrance
Claude Rains …. Dr. Jaquith
Gladys Cooper …. Sra. Henry Windle Vale
Bonita Granville …. June Vale
John Loder …. Elliot Livingstone
Ilka Chase …. Lisa Vale
Lee Patrick …. “Deb” McIntyre
Franklin Pangborn …. Sr. Thompson
Katharine Alexander …. Srta. Trask
James Rennie …. Frank McIntyre
Mary Wickes …. Enfermeira Dora Pickford

Serviço
Artigo no The Walt Whitman Archive
Ficha no iMDB
Resenha no Filmste
Verbete no Wikipedia

Filme completo no Googlevideo, sem legendas

Link http://video.google.com/videoplay?docid=-1599124184265475151#

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12 comentários sobre “Now, Voyager / Estranha Passageira

  1. Eu tbém não ví o filme, mas ela encarnava tão bem a maldade histérica que, tadinha, acho que a atriz ficou encurralada naqueles papéis. Tanté que,
    fico surpresa neste papel que vc descreve. Descendo um tiquinho de alguns degraus, sabe aquela mesma impressão que temos do Hugh Grant? De que ele encarna ele mesmo em qualquer filme? A gente sempre acaba criando expectativas de uma Bette Davis com aquele olhar brilhante, esfregando as mãos pra mais uma maldade.

    Fico tão curiosa de saber se na vida privada ela fosse boazinha. Vai ver era uma santa, tadinha….. 🙂

  2. Uau! Seu artigo me deu vontade de ver o filme agorinha mesmo… (mas o trabalho me espera; vou ver depois no Google vídeo). Bette Davis era mesmo excelente, achei legal o desfecho da história, e as escolhas que ela faz.

    Acho que sou estranha mesmo, eu não ligo de saber os spoilers, mesmo assim assisto o filme e gosto; mas felizmente, ninguém me contou o final do sexto sentido nem do Sweeney Todd, senquisgódi!

    Ah, quanto à dúvida da Luma, outro dia vi um documentário sobre a Bette Davis na TV, ela era uma pessoa comum, uma mãe que lutava para conseguir trabalho e poder sustentar seus filhos, tem aquele episódio em que ela coloca um classificado no jornal se oferecendo para trabalhar como atriz. Ela já havia passado dos 40, e os papéis de mocinha escasseavam para ela. Mesmo assim, conseguiu dar a volta por cima. Mulher admirável!

    Beijocas!

  3. Pingback: [LieToMe] A Perfect Score « Batata Transgênica

  4. Foi com muita alegria que assisti o filme aqui.Nos anos 70 tive oportunidades raras de ver os filmes de BD.Porém as tvs.não ‘passam’ mais os fimes maravilhosos feitos nos EEUA nosanos 30,40,50.Ah…outros tb.não.

  5. Ao contrário do que muitos pensam, Bette Davis deu vida a vários personagens intensos, trágicos e sofridos. O que se percebe é que hoje o que se destaca na carreira dessa atriz são os filmes onde viveu mulheres más, pérfidas e frias. Talvez essa associação de ideias venha por conta dos filmes ruins que fez nos últimos anos de sua vida profissional e em quase todos eles praticamente encarnava bruxas malévolas ou mulheres de índole duvidosa. Este Now, Voyager – apesar do ditatismo da narrativa – é um dos grandes momentos da atriz. Seu fã clube foi ao delírio com os vestidos, sapatos e penteados que desfilou durante os 117 minutos de narrativa. De certa forma, viver Charlotte Vale foi como mostrar ao público que ela podia ser uma mulher de classe, refinada e sofisticada sem sofrer algum tipo de revés por isso. Sem dúvida um grande filme!

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