Skank – Formato Mínimo

Estava a ouvir/assistir o DVD Cosmotron, do Skank, com a legenda ligada e só então me caiu a ficha: cada verso da música Formato Mínimo termina com uma proparoxítona!

[Bom, exceto o último verso, né: rubrica é paroxítona*, vogal tônica é BRI e não RU, mas licença poética serve é pra essas ocasiões.]

Eu gosto do Skank por demais da conta, primeiro por causa do alto astral das canções – mesmo nas canções de protesto – e também por causa das letras, que não são indigentes quanto alguns sucessos atuais, nem tão pseudointelectuais que chegam a ser herméticos.

Formato Mínimo me lembrou de duas coisas: a profa Clara e seu caderninho de ortografia [eu adorava procurar cinquenta proparoxítonas por ano] e Chico Buarque.

Skank – Formato Mínimo

Link http://www.youtube.com/watch?v=nZjhoxmx4ik

Formato Mínimo
Skank
Composição: Samuel Rosa – Rodrigo F. Leão

Começou de súbito
A festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe
Ele procurava a próxima
Ele reparou nos óculos
Ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo o máximo
Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido
Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida
O medo redigiu-se, ínfimo
E ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito
Desenhou-se a história trágica
Ele, enfim, dormiu apático
Na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida
Feita do desejo à vítima
Fugiu dali tão rápido
Caminhando passos tétricos
Amor em sua mente épico
Transformado em jogo cínico
Para ele, uma transa típica
O amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando, clínico
Da triste solidão, à rubrica

Chico Buarque – Contrução

Link http://www.youtube.com/watch?v=JnOAYO8aOrU

Construção
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

* Agradecimentos à @brunaguerrier, @fwtoogood e @telinha.

TCC: O discurso-arte de Chico Buarque: poder sobre o sujeito brasileiro, por João Marcos Mateus Kogawa

Anúncios

9 comentários sobre “Skank – Formato Mínimo

  1. Naomi, Não conheço muito o Skank, mas o pouco que ouví foi bem alto-astral. Esse erro da rubrica é muito comum mesmo, tanto qto ínterim ou filantropo. Cafunde a cabeça de qualquer um 🙂

    Já o vacabulário aqui é maioria proparoxítona. No italiano, paroxítona é que é exceção 🙂 Ah, rubrica aqui é exceção por ser paroxítona, interessante né? E o filantropo se pronuncia ‘filântropo’. Agora cê entende porque sou cafusa? 🙂

  2. Dentro da estética parnasiana, a rima proparoxítona era considerada empobrecedora da composição. Em espanhol, proparoxítona tem por sinônimo o termo esdrúxula, que, por sua vez, é o mesmo que canhoto. Não sou maniqueísta, mas o esquerdo é contrário de direito. Direito = bem, esquerdo=mal. Estaria aí uma forma velada de protesto inteligentíssimo nas letra de Formato Íntimo (Skank), de Construção (Chico Buarque) e também de Rosa de Hyroshima (Vinicius de Moraes). Esta última, por sinal, com outra particularidade: todas as palavras reportam ao gênero feminino, exceto PERFUME. Alguma consideração sobre o que o poeta intentou sobre isto?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s