“Eles são gente também”

Estava a ler algumas reações ao comentário do Boris Casoy a respeito da presença de garis numa reportagem [não assisti ao vivo nem vi o vídeo], quando me lembrei da crônica natalina de um companheiro de grupo empresarial dele, o Salomão Schvartzman. Eu confesso que presto pouquíssima atenção nessas crônicas porque mal consigo entender o que ele diz, soa mais como mumble-mumble.

Nessa em questão eu consegui ouvir – mas antes não tivesse. Com a escusa de reclamar dos pedidos de caixinha de natal, o Sr. Salomão listou vários profissionais que, segundo ele, “só aparecem nesta época do ano com as famigeradas caixinhas”. Lembro bem dele dizendo que os lixeiros só serviam para acordá-lo de seu sono quando passavam com os caminhões barulhentos pela sua rua, de madrugada.

Pense em antipatia imediata: foi o que senti pelo jornalista na hora. Aliás, falando em jornalista, teve um que escreveu um livro, não teve, sobre essas pessoas invisíveis? Porteiros, ascensoristas, garis, manicures, faxineiras, carteiros… Tou tentando lembrar do nome dele. E tem aquela moça francesa também, a Anna Sam, que escreveu um livro sobre as atribulações de uma caixa de supermercado.

Por um lado, fiquei contente com o nível de indignação que o comentário do Casoy levantou. Eu trabalhei com atendimento ao cliente, sei bem o que é não ser considerado humana por estes seres superiores – motivo pelo qual nunca atendia mal quando recebia chamada de telemarketing em casa, ou quando sou eu que preciso ligar para algum SAC. Mas será que tem que ser assim, só depois de passar por experiências parecidas é que a pessoa passa a enxergar o próximo como outra pessoa?

After having an awful day at work I went shopping. At the counter in one store there was a sign that read “Please be nice to the staff. They are people too” [It Made My Day]

Depois de um dia horrível no trabalho eu fui às compras. No balcão de uma loja tinha uma placa em que se lia “Por favor, seja gentil com os funcionários. Eles são gente também.”[tradução livre]

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18 comentários sobre ““Eles são gente também”

  1. Lu,
    Achei nojenta a história toda. Absurdo ficar apenas em um pedido de desculpas e tudo igual.
    Eu “estou” artesã e não tenho loja, exponho em feiras de artesanato e posso dizer que é impressionante a “invisibilidade” que adquirimos nesse momento, tive casos de professores da faculdade que cursei, comprando comigo e “não me enxergando”!!!
    Ou então de olham com cara de nojinho ou pena, não sei o que é pior! Seu post foi precisamente doloroso para que todos nós passemos a enxergar o outro, independente de sua tarefa social.
    Beijos

    • Patricia, eu percebo que a maioria das pessoas se esquece da gente, evitando dar a cada um de nós o crédito merecido.
      No entanto, somos as primeiras a sermos lembradas, quando precisam da gente.
      Fui professora de um engenheiro que curtia vender selos depois de formado.
      Nos encontramos na feira de artesanato.
      Comecei a conversar com ele.
      Lembrei do nome dele.
      Quando ele passou a ser um bem sucedido empresário, ele passava por mim como se não me conhecesse mais.
      Parou com a história de vender selos.
      E era um colecionador!
      Tenho pena de pessoas assim.
      Ou estão estressadas e não enxergam mesmo, porque o pensamento está longe…
      Ou são pessoas orgulhosas, arrogantes, que nem merecem nossa atenção.

  2. Eu não gosto de telemarketing. Atendo, explico isso e geralmente sou entendida pela pessoa que conversa comigo.
    Quando tenho que usar o SAC costumo explicar que se estou reclamando é porque quero preservar o bom relacionamento com eles. Via de regra dá certo.
    Mas, há pessoas que “se acham” quando na posição de repassar informações. Não assumem responsabilidade e ainda dizem “de nada” e desligam, assim sem mais nem menos…

    Quanto ao episódio do Boris… Ele parece viver em um mundo isolado.
    Tece comentários sobre o que não sabe, como se fosse o dono da verdade.
    Já vi reportagens dele desancando com pessoas cuja função ele desconhece, e ao invés de se ater ao tema a ser divulgado, ele critica e fala absurdos sobre o que nem sabe o que é a que veio.
    Nem me decepcionei com esse último episódio dele.
    Só confirmou o que eu pensava dele.
    Porque acrescentar comentários, e não apenas divulgar a matéria?
    Dá nisso: passam a se achar deuses quando na verdade são iguais a todos nós.

  3. Eu assisti à falha do Boris Casoy no momento em que passou. Tenho um primo que é gari, e sei que ele é uma ótima pessoa, excelente pai de família, e sustenta seus filhos com aquele trabalho. Fiquei indignada pra caramba, mas imagino que outros apresentadores tambem façam o mesmo, protegidos pelo silêncio do áudio. Quando o negócio “vaza” é que tudo vêm à tona. Quem não lembra do epísódio do Pedro Bial com o pessoal do BaléKirov (eu acho): “Isso é coisa de viado”? Hiprocrisia, teu nome é televisão.
    Outra coisa: eu já fui caixa. Eu JAMAIS deixo de dar um bom dia/tarde/noite para essas pessoas, mesmo que não me respondam. Eles não são nossos empregados, são pessoas exercendo ocupações (mal) remuneradas para tentar se manter.

    • bem lembrado, o caso do bial! e teve o william bonner declarando que edita o jn para o homer simpson.

      o bom [?] nesses casos é que a indignação que gera podem ser o estopim pra mudança de perspectiva e de atitude de quem nunca parou pra pensar nisso antes.

      assim espero.
      :lol::

  4. Olá Naomi!

    Não sei se é esse o texto que você lembrou, mas lembrei da crônica “o padeiro” do Rubem Braga (http://www.almacarioca.net/o-padeiro/). Será que é essa?

    Não deve ser fácil para quem trabalha nessas profissões “invisíveis”, a auto-estima deve sentir muito. Mas também acho que quem ignora esse pessoal acaba aprendendo um dia, de um jeito ou de outro.

    Às vezes perco a paciência com algumas empresas (por ex. hoje, com o Pag Seguro) e acabo sendo meio seca com alguns atendentes, mas logo depois me arrependo, eles não têm culpa da incompetência da empresa.

    Não deve ser fácil trabalhar no telemarketing, o mínimo que podemos fazer é ser gentis e simpáticos. Naomi, você já ganhou seu cantinho no céu…

    Beijocas!

    • não conhecia este do rubem braga, senquiu! – como empre, ele vai direto na veia. qualidade dum bom cronista!

      mas não era esse jornalista, o que me lembro [vagamente] é que o cara trabalhou num desses “empregos invisíveis” e depois escreveu um livro sobre a experiência. e eu aaacho que é não-brasileiro, mas não tenho certeza…

  5. Naomi, esse blogtequim é uma aula.
    Quanta informação, minha flor!

    Passei no Querido Leitor e a Rosana Hermann fez um post sobre o tema alavancado com o pedido inusitado de um nobre parlamentar, que pediu um avião porque ele não queria mais “lavar louça”…
    tsc tsc tsc

    Vou deixar por lá o link para esse post seu.
    Informação e cultura nunca são demais.
    Sempre tem espaço.
    O post é “trabalhadores braçais, uni-vos”. Aqui:

    http://blogs.r7.com/querido-leitor/2010/01/07/trabalhadores-bracais-uni-vos/

    Agora, vou daqui para lá, para fazer o mesmo.
    Com este post, claro!
    😉

  6. Sugiro a quem se interessar pelo tema o post da Rosana Hermann de 07/01/2010 Trabalhadores braçais, uni-vos.
    Já tentei colocar o link por aqui, mas, não sei o que acontece, não publica!
    Uma instabilidade momentânea, talvez…

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