Desafio Literário | Filha da Fortuna

Sinopse
Eliza Sommers é uma jovem chilena que vive em Valparaíso em 1849, ano em que se descobre ouro na Califórnia. O seu amante, Joaquín Andieta, parte para o Norte decidido a fazer fortuna e ela decide segui-lo.

A viagem infernal, escondida no porão de um veleiro, e a procura do amante numa terra de homens sós e de prostitutas atraídos pela febre do ouro, transformam a jovem inocente numa mulher fora do comum. Eliza recebe ajuda e afecto de Tao Chi’en, um médico chinês que a amparará ao longo de uma viagem inesquecível pelos mistérios e contradições da condição humana.

Filha da Fortuna é o retrato palpitante de uma época marcada pela violência e pela cobiça, onde os protagonistas redescobrem o amor, a amizade, a compaixão e a coragem. Neste seu ambicioso romance, Isabel Allende descreve um universo fascinante, povoado de estranhas personagens que, como tantas outras da autora, ficarão para sempre na memória e no coração dos seus leitores.

Capa

Capa da edição brasileira*

Isabel Allende é jornalista e escritora chilena, prima em segundo grau de Salvador Allende, o presidente marxista deposto pelo golpe militar de Augusto Pinochet em 1973. Após o golpe de Estado, sua família refugiou-se primeiro na Venezuela e depois ela naturalizou-se norte-americana, em 2003. Tanto seu pai quanto seu padrasto eram diplomatas, então ela morou em quase todos os países da América Latina quando era criança/adolescente, e depois em vários países pelo mundo quando trabalhava para a FAO, braço da ONU dedicado aos alimentos e à agricultura.

O primeiro casamento de Isabel foi com um descendente de ingleses: enquanto em casa cumpria o papel da esposa obediente e mãe zelosa, profissionalmente fazia traduções de romances britânicos para o espanhol [notadamente Barbara Cartland] e ia construindo sua reputação como jornalista e articulista de revistas femininas. Mais tarde, foi demitida do cargo de tradutora porque ela fazia alterações nos diálogos das heroínas para torná-las mais inteligentes – sem autorização dos editores, é claro. Ela chegou a alterar o final de Cinderela, de modo a torná-la independente e a fazer boas ações.

Todo esse histórico é visível na leitura de Filha da Fortuna, romance publicado em 1999. A sinopse concentra-se num aspecto apenas do livro, que é muito mais do que isso.

A literatura de Allende pertence ao realismo fantástico, um gênero que eu adoro particularmente, mas ela compõe a trama com tanta riqueza de detalhes que me sabe mais a chocolate do que a terra seca e pó, como acontece quando leio os autores homens. Tou com Juan Rulfo, Gabo e Guimarães Rosa na cabeça, é. Sim, a prosa dela me faz lembrar de Laura Esquivel, mas ainda mais.

O realismo mágico se desenvolveu fortemente nas décadas de 60 e 70, como produto de duas visões que conviviam na América hispânica e também no Brasil: a cultura da tecnologia e a cultura da superstição. Surgiu também como forma de reagir, através das palavras, contra as ditaduras da região.

Ele pode ser definido como a preocupação estilística e o interesse de mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum. Não é uma expressão literária mágica: sua finalidade não é a de suscitar emoções, mas sim de melhor expressá-las e é, sobretudo, uma atitude frente a realidade. Uma das obras mais representativas deste estilo é Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez. [Wikipedia]

Para começar, ela ambientou sua história em quatro continentes, além de cobrir fatos históricos ocorridos no espaço de quase um quarto de século [o segundo quarto do século 19]. Nos EUA existem os road movies, filmes em que o protagonista pega a estrada numa metáfora para a jornada de autoconhecimento. Filha da Fortuna é quase um road book. 😆

Mais do que a ambientação e o contexto histórico, que tomaram à autora sete anos de pesquisa, foi a caracterização dos personagens que me conquistou pra fileira de fãs de Isabel Allende, mesmo sendo este o primeiro livro que leio dela. Allende chegou a declarar que ficava nervosa com alguns dos personagens porque “se recusavam a fazer o que ela queria”. Daí se percebe a força desses personagens.

Para além de Eliza Sommers e de Tao Chi’En, me comovi com a história dos irmãos Sommers – especialmente de Miss Rose; de seu pretendente Jacob Todd; da mãe de Joaquín Andieta; de Joe Quebra-Ossos e de Babalú O Mau e de tantos outros. São tipos tão ricos que dá vontade de escrever sobre eles durante horas, mas não é o caso agora. O que eu quero, também, é ler Retrato em Sépia, que é sequência de Filha da Fortuna mas desta vez narrando a vida da neta de Eliza.

Filha da Fortuna é um romance como há muito eu não lia, daqueles que ao mesmo tempo saciam várias fomes e despertam outras: tem a análise sócio-política, tem a crítica religiosa, tem a opinião pessoal da autora sobre o papel da mulher na sociedade e na economia, com uma grande laçada na ética feminista, tem as referências históricas, tem o aspecto sobrenatural, é claro, e tem a ironia velada, um humor ácido contra a utopia comunista aqui e ali.

Virou um dos meus Top Favoritos Foréva à primeira leitura.

Eliza apaixonou-se pela liberdade. Tinha vivido entre as quatro paredes da casa dos Sommers, num ambiente imutável, onde o tempo rodava em círculos e a linha do horizonte mal se entrevia através das janelas estreitas, cresceu na armadura impenetrável das boas maneiras e das convenções, treinada desde sempre para agradar e servir, limitada pelo espartilho, pelas rotinas, pelas normas sociais e pelo temor. O medo tinha sido seu companheiro: medo de Deus e da sua imprevisível justiça, da autoridade, dos seus pais adoptivos, da doença e da maledicência, do desconhecido e do diferente, de sair da protecção de casa e de enfrentar os perigos da rua, medo da sua própria fragilidade feminina, da desonra e da verdade. A sua fora uma realidade adocicada, feita de omissões, silêncios corteses, segredos bem guardados, ordem e disciplina. A sua aspiração fora a virtude, mas agora duvidava do significado dessa palavra. […] Saiu do Chile com o propósito de encontrar o seu amante e transformar-se em sua escrava para sempre, julgando que assim apagaria a sede de submissão e a ânsia recôndita de posse, mas já não se sentia capaz de renunciar a estas novas asas que começavam a crescer-lhe nos ombros. [p. 277~278]

* Não encontrei imagem em tamanho decente da capa portuguesa, mas é quase a mesma da edição brasileira da Bertrand Brasil que ilustra este post [e da edição norte-americana da HarperCollins também].

Fortuna
Acepções
1 Rubrica: mitologia.
na crença dos antigos, deusa que presidia ao bem e ao mal
2 Derivação: por extensão de sentido.
força à qual se atribui o poder de influir no êxito ou no insucesso, na ventura ou desventura das pessoas ou de suas empresas; acaso
3 destino, fado
Ex.: sofria sob o fardo da má f.
4 boa sorte; felicidade, ventura; êxito
Ex.: teve a f. de conhecer o grande mestre
5 má sorte; adversidade, desventura, desdita
Ex.: aos poucos recuperara-se de tal f.
6 conjunto de bens e capital pertencentes a um indivíduo, família, empresa etc.
7 soma vultosa de dinheiro
Fonte: dicionário eletrônico Houaiss

Serviço
eNotes Daughter of Fortune
Verbete na Wikipedia – biografia
Verbete na Wikipedia – Daughter of Fortune
Guia de leitura Harper Collins

Oh Susana – Dueling Banjo tema dos mineradores na Corrida do Ouro


Link http://www.youtube.com/watch?v=ul5wF5CgjmI

Artigo Chile está em uma das áreas mais sísmicas do mundo [Allende cita o terremoto com tsunami que atingiu Valparaíso em 1906 e alguns outros terremotos]
Receita de empanadas chilenas [com fotos]
Artigo Guerra do Ópio
Ponto de bordado chinês “proibido”
Artigo 1848: Corrida do ouro na Califórnia
Artigo Jeans Levi’s

Os caçadores de ouro que acorreram à California na Corrida do Ouro do século 19 ficaram conhecidos como “os de 49” ou “the 49ers”, mesmo chegando antes ou depois daquele ano. Daí os times esportivos da Universidade de Long Beach [Long Beach State 49ers], da Carolina do Norte em Charlotte [Charlotte 49ers] e de futebol americano profissional [San Francisco 49ers] usarem dourado em seus uniformes e escudos.

Filha Da Fortuna
Título Original: Hija de La Fortuna [1999]
Autor: Isabel Allende [isabelallende.com]
Tradução: Maria Helena Pitta
Editora: Difel [Portugal]
Ano de Edição: 2001
Nº Páginas: 408
ISBN: 9789722904575

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2010 [v. lista de livros agendados], tema Escritor[a] Latino-Americano[a].

Blog do Desafio Literário

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25 comentários sobre “Desafio Literário | Filha da Fortuna

  1. Pingback: Blogagem Coletiva | Desafio Literário 2010 « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  2. Uau!

    Agora me escondi debaixo da cadeira, minha resenha não está nem de longe tão completa como a sua…

    Também fiquei fã da Isabel Allende na primeira leitura (A casa dos espíritos), agora este livro e Paula já estão na minha lista. Adorei o o estilo dela, começamos a ler e não dá vontade de parar.

    Grande beijo!

    • ah, munição pra tu: a casa dos espíritos tá na lista dos 100 livros mais “challenged” nos eua 😉

      no começo minha leitura não rendia [livro em português de portugal…] mas da metade pra frente não conseguia largar.

  3. Esse ainda não li, brigada pela dica.

    O que me fez descobrir Isabel Allende foi “Contos de Eva Luna”: histórias tão surpreendentes que o meu queixo “caía” a cada conto. Além desse, recomendo “Casa dos Espíritos”, “De amor e de sombras”, “Paula” e “Meu país inventado”. Só não gostei de “A cidade das feras”, que iniciou uma das mais recentes trilogias da autora.

    Ainda na América Latina, uma ótima surpresa foi “Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa. Dizem que não é o melhor do peruano, que foi escrito para “leitores comuns”, mas é muito intenso e os personagens são muito ricos; pela sua resenha, desconfio que será muito do seu agrado.

  4. Pingback: Desafio Literário | Lady Dorinda / Rosa do Oriente « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  5. A pessoa sabe q tá idosa qdo tá na dúvida se leu um livro…

    Ocorre q época dessas tive surto da Allende, li vários da biblioteca da facul. Li com certeza Retrato em Sépia, Paula, Do amor e de Sombra, A casa dos espíritos, e A cidade das feras. Esse eu acho q, se li, ñ foi td, ñ sei, agr ficou coçando a dúvida… Li tanto q as histórias se misturaram, juro…

    Eu me lembro desse médico chinês, catzo.

    Bj

  6. Pingback: Rato de Biblioteca » Blog Archive » A Casa dos Espíritos

  7. Eu nunca consegui ler Isabel por inteiro. Falta de oportunidade, apenas isso. Porque adoro a história de vida dessa mulher e sou uma espécie de masoquista da leitura. Já li muita pessoas comentanto sobre o tom de tragédia de suas obras e como isso faz com que elas se afastem de Isabel. Já eu quero me aproximar, experimentar um pouco dessa tristeza e da tragédia que ela escreve, descreve e compartilha com o leitor. Simpatizo com as tragédias mais do que com as histórias felizes.

    Abraços.

  8. Parabéns pela ótima e completa resenha, Naomi. Fiquei feliz por ler uma crítica positiva, pois os livros da Isabel Allende não estão fazendo muito sucesso no Desafio. Eu adoro, e esse ainda não li. Quero muito lê-lo, assim como sua sequência. Bjs

    • oi, lia! é meio estranho isso, não? por um lado, allende parece ter sido a mais escolhida mas, depois de lida, a menos aprovada.

      por mim, quero ler tudo dela em que eu conseguir botar as mãos.
      😉

      bjos e brigadê!

  9. Menina, quero ler esse livro. Nunca li nada dessa autora. Uma cisma que não sai de mim, sei lá. Com o seu comentário, por sinal riquíssimo, a curiosidade ficou aguçada. Excelente o trabalho de pesquisa apresentado.

    Beijocas

    • vivi, acho que te entendo. antes do desafio, o que me ficou na cabeça sobre allende foram os comentários sobre paula e casa dos espíritos, que são meio pesados e até lúgubres, a se julgar pelos tais comentários.

      inda bem que pude abanar essa dieia. 😆

  10. Pingback: Retrospectiva Literária 2010, Top 5, Bottom 3 « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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