Desafio Literário | Memorial de Maria Moura

Sinopse
Interior do Brasil, século XIX: família, honra, terra. Estas eram as três únicas razões da vida de uma mulher da época. Maria Moura perdeu todos esses motivos. Mas não se deu por vencida: preferiu pegar em armas e ir atrás dos seus sonhos e de suas terras. À luta de Maria Moura, soma-se a tragédia do amor proibido entre o padre José Maria e a beata Bela e a paixão corajosa da submissa Marialva com o trapezista Valentim. Histórias de lutas e desafios, mas com armas bem diferentes.

Capa do livro

Capa do livro

O Desafio Literário by Romance Gracinha foi uma oportunidade ótima pra me comprometer com a leitura de livros que estavam/estão se acumulando na estante, à espera do “tempo” pra ler. É o caso de Memorial de Maria Moura da Rachel de Queiroz, que ficava pra trás por causa da sua extensão [600 páginas nesta edição] – mas, oras bolas! Eu li forçado um romance de mais de 640 páginas que não gostei [Casório], comé que poderia não ler o de uma autora que eu gosto? Então vamos lá!

MMM é uma saga que se passa no interior do Ceará  e Pernambuco na metade do século 19. O Brasil ainda é um império escravagista e a lei da igreja romana predomina. A mulher era menos do que um objeto, propriedade do pai, dos irmãos ou do marido. Saber disso torna a leitura mais enriquecedora; é diferente de mergulhar na trama como se fosse atemporal ou em qualquer outro lugar.

Rachel de Queiroz criou três núcleos neste livro: o de Maria Moura, a sinhá que se envolve numa guerra pela posse de terras da família; o do padre Zé Maria, que vira um fugitivo; e o de Marialva, prima de Maria Moura que foge do controle dos irmãos. Eventualmente estes núcleos passam a interagir entre si; até lá, cada capítulo é narrado por um dos personagens. Não se preocupe com as mudanças de narrador, ele ou ela é identificado logo no título do capítulo mas, mesmo se não fosse, a autora dá a cada um o seu estilo próprio de narrativa. São diferenças no vocabulário, na construção de frases, na musicalidade da fala que identificam quem é que conta a história.

Sobre a criação desse livro, Rachel de Queiroz já contou: “Eu estava fazendo um trabalho com minha irmã Maria Luíza sobre a seca do Nordeste. Fomos procurar livros antigos e descobrimos que a primeira grande seca registrada oficialmente aconteceu em Pernambuco em 1602. Nessa seca, uma mulher chamada Maria de Oliveira tornou-se conhecida, porque, juntamente com os filhos e uns cabras, saiu assaltando fazendas. Pois eu fiquei com essa mulher na cabeça. Uma mulher que saía com os filhos e um bando de homens assaltando fazendas era a Lampiona da época, pensei. Ao mesmo tempo, eu sempre admirei muito a Rainha Elisabeth I da Inglaterra, que morreu no início do século XVII. Li várias biografias dela, a ponto de me sentir uma espécie de amiga íntima, dessas que conhecem todos os pensamentos e sofrimentos. A certa altura, pensei: ‘Essas mulheres se parecem de algum modo’. E comecei a misturar as duas. Estava pronto o esqueleto do romance. A partir daí fui desenvolvendo os episódios.” [Resumos comentados]

Rachel de Queiroz é mestra.

E não é só na forma, não, é no conteúdo também. Eu terminei o livro em duas sentadas porque não conseguia parar, emendava capítulo atrás de capítulo querendo reencontrar os “meus” personagens, saber o que estiveram a fazer enquanto um dos outros contava a sua parte na história. É isso, eu me envolvi com eles, é como se fossem minha família, me interessei por seus destinos, criava empatia.

Glória Pires – Memorial de Maria Moura (Depoimento)


Link http://www.youtube.com/watch?v=LDRVOHEdWc8

A autora terminou de escrever MMM em 1992, aos 82 anos de idade [Rio 22 de fevereiro de 1992 – onze da manhã. pág. 606]. Foi o seu último romance. O livro foi adaptado para a TV em 1994 pela Rede Globo, com a Glória Pires no papel de Maria Moura, Kadu Moliterno como Padre José Maria e Cristiana Oliveira de Marialva. Eu não assisti; dizem que Rachel de Queiroz gostou da adaptação, com seu senso de humor e savoir faire – e completou dizendo que foi a Globo que não gostou do livro dela, porque mudaram tudo [Observatório da Imprensa].

Em 2010 comemora-se o centenário de nascimento de Rachel de Queiroz, primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras e a ganhar o Prêmio Camões, equivalente ao Nobel de literatura em língua portuguesa. Além de escritora, ela também foi jornalista e tradutora [a tradução que ela fez para Wuthering Heights/O Morro dos Ventos Uivantes será relançada em banca no próximo dia 24 de julho] e Memorial de Maria Moura ganhará uma edição em francês para comemorar os 40 anos da editora Metailie, coletâneas inéditas de contos e uma biografia no Brasil [PubliFolha], além de uma reedição de MMM pela José Olympio.

[A partir deste mês, usarei o sistema de pontuação da Lulu Coruja nos posts do DL.]

Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Serviço
Biografia da autora no hotsite da coleção Grandes Escritores Brasileiros [Folha de São Paulo]
Verbete Rachel de Queroz na Wikipedia
Verbete Memorial de Maria Moura, a minissérie, na Wikipedia

Para comprar o box de DVD da minissérie no Submarino.

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2010 [v. lista de livros agendados], tema Escritora Brasileira.

Blog do Desafio Literário

Título: Memorial de Maria Moura
Autor: Rachel de Queiroz [Brasil, 1992]
Editora: MediaFashion
Coleção: Grandes Escritores Brasileiros [Folha de São Paulo]
Ano: 2008
Páginas: 606

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16 comentários sobre “Desafio Literário | Memorial de Maria Moura

  1. Pingback: Blogagem Coletiva | Desafio Literário 2010 « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  2. Uau, que resenha excelente!

    O único livro da Raquel de Queiroz que li foi O Quinze, e não guardei muita coisa (leitura pra escola, sacumé…) Mas só pelo trechinho do comentário dela já simpatizei com a autora e seu estilo.

    Também não cheguei a assistir a minissérie, mas deve ter sido ótima, pelo menos pela interpretaçao da Glória Pires (lembro dela como Ana Terra, perfeita).

    beijos!
    Taí umlivro que merece ser lido e apreciado. Obrigada pela dica.

  3. Pingback: Follow Friday Blogs #10 | Garota It

  4. Olá Naomi,
    estive no apartamento da Rachel aqui no Rio justamente na época da série. Meu marido a conhecia (Ela e o falecido pai dele foram amigos, quando ele ainda era vivo…) e me levou lá, me dando o prazer de conhecê-la. Ela era uma pessoa muito simples e super hospitaleira, me recebeu com muito carinho, à moda do Nordeste. Quanto à adaptação para TV, ela comentou apenas que eles pagavam muito bem para não filmar o que ela tinha escrito…
    Mas ainda não li este romance, está na minha lista.
    Um abraço,
    Mom

  5. Nossa, exelente resenha, parabéns! ainda mais por ser sobre um dos meus livros prediletos dessa autora que é demais de boa!
    Já li todos dela, e agora começei a releitura!

  6. Pingback: Retrospectiva Literária 2010, Top 5, Bottom 3 « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

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