Sherlock


Estava de bobeira anturdia quando alguém soltou no Twitter o link para download do primeiro episódio da série Sherlock. Eu tava por fora, não tinha lido referências, as séries policiais que sigo regularmente estão de férias, pensei “por que não?” e baixei no escuro.

Até hoje eu só li quatro aventuras do personagem de Sir Arthur Conan Doyle: Um Estudo em Vermelho, duas décadas atrás; O Vale do Terror; O Signo dos Quatro e O Cão dos Baskerville, os três no ano passado. [Sem contar O Estranho Caso do Gato da Sra. Hudson, título lusitano de As Aventuras Científicas de Sherlock Holmes (pt-br), obra de divulgação científica do físico inglês Colin Bruce.] Você percebe então que meu conhecimento é quase inexistente, né? Por isso comecei a assistir ao episódio A Study in Pink sem nenhuma expectativa.

E os primeiros minutos não me atraíram: eram cenas de soldados na guerra e filmes/séries de guerra ficam bem lá atrás na minha lista de preferências. Tratava-se da introdução do personagem John Watson, um médico formado na universidade de medicina Saint Bartholomew [Barts, para os íntimos] que retornou a Londres depois de ser ferido no Afeganistão.  A sequência de cenas a seguir serviu para construir o momento em que Watson é apresentado a Sherlock Holmes por um conhecido em comum, já que ambos comentaram com ele o quanto as suas características pessoais tornam difícil encontrar alguém para dividir o aluguel de um apartamento.

A partir deste ponto há spoilers

Sherlock Holme e Dr. John Watson, Baker Street 221B

Sherlock Holmes e Dr. John Watson, Baker Street 221B

E aí, BUM!, fui irremediavelmente fisgada. A série transportou as histórias do detetive-consultor da Baker Street 221B vitoriana para a Londres moderna, uma cidade e uma época tão hostis aos fumantes que Sherlock é obrigado a usar adesivos de nicotina em vez de cachimbo [três adesivos, quando o caso demanda]. O vício em drogas mais pesadas não foi abordado, embora uma insinuação aparecesse na cena em que Lestrade faz uma bssca no apartamento 221B, muito sutil. Watson desafia Lestrade a procurar e Sherlock, meio apavorado, sinaliza que não, mas isso foi tudo.

SH domina o uso da tecnologia moderna tais como telefone celular, mensagens de texto [assina seus SMS com as iniciais, SH], Internet e GPS, embora suas investigações não dependam dessa tecnologia como nas séries procedurais norte-americanas.

Sherlock Holmes é um sociopata funcional, como ele mesmo se descreve no primeiro episódio. Ele percebe a dinâmica das ações humanas mesmo sem conseguir extrair-lhe o sentido, mas ele é capaz de usar o que apreende a seu favor; um exemplo disso é o relacionamento dele com Molly Hooper, a legista. Ela tem uma quedinha por Sherlock e resolve usar batom quando ele vai ao morgue. Sherlock percebe e comenta, sem perceber o motivo. Diante de sua indiferença ela limpa o batom, fato que ele assinala de novo. No episódio The Blind Banker Sherlock precisa que ela lhe faça um favor e, manipulativamente, elogia o cabelo de Molly para conseguir que ela viole o protocolo por ele.

Embora Sherlock não retribua os sentimentos de Molly e a considere apenas uma ferramenta útil, ele acredita fazer-lhe uma gentileza ao informá-la que o novo namorado dela é gay em The Great Game. É essa misantropia, aliada ao raciocínio rápido, capacidade de observação, uso da lógica e sarcasmo que o tornam, bem… Sherlock Holmes. 😆

- Tem outro quarto subindo as escadas, se precisarem do segundo quarto. - É claro que precisamos. - Não se preocupe, temos de tudo por aqui. A Sra. Turner, vizinha, fica com os casados

- Tem outro quarto subindo as escadas, se precisarem do segundo quarto. - É claro que precisamos. - Não se preocupe, temos de tudo por aqui. A Sra. Turner, vizinha, fica com os casados

Conforme eu comentei lá em cima, eu não sou assim uma conhecedora profunda, mas achei que os criadores da série mantiveram uma fidelidade ao que é essencial, que é a personalidade dos personagens. A atuação dos atores reforça o vínculo com o espectador – eu não consigo pensar em outros nomes para interpretar esses personagens, nem mesmo em Rupert Everett como Moriarty, um boato que rolou no Twitter recentemente e que foi desmentido no final da temporada [e olhe que eu adoro Rupert Everett!]. Até tem um Rupert no elenco, talvez por isso a confusão, mas é o Graves no papel do Inspetor Detetive Lestrade.

O tempo passa: Rupert Graves fez o papel de Freddie, o irmão de Lucy Honeychurch em Uma Janela Para O Amor na versão dos anos 80. Sherlock Holmes é interpretado por Benedict Cumberbatch [Desejo e Reparação] e eu te disse que paixonei na voz dele? É fetiche meu, voz grave. Já o Watson é uma cara conhecida: pros nerds ele é o Arthur Dent de O Guia do Mochileiro  das Galáxias, mas pra maioria das mulheres é o ator de soft porn de Simplesmente Amor. A interação entre eles é um deleite pra quem curte um trabalho mais sutil de atuação, caus que parece que eles foram limando e limando até se encaixarem perfeitamente.

Dá gosto de assistir.

A ideia da série é de Steven Moffat e Mark Gatiss. Ambos são fãs dos livros de Conan Doyle e estavam cansados das versões que se prendiam mais à fidelidade externa [época, figurino, etc.] e resultavam engessadas. Eles bolaram tudo enquanto passavam horas nos trens, indo e voltando dos estúdios onde filmavam Doctor Who.

A produção investiu um bom esforço também na mídia off-TV. Sherlock mantém um website chamado The Science of Deduction, que teve um papel importante no terceiro episódio e pode ser acessado no endereço thescienceofdeduction.co.uk.

Já o Dr. Watson mantém um blog. Foi sugestão da terapeuta, que achava que ele sofria de Estresse Pós-Traumático por conta da guerra e que registrar seu sentimentos o ajudaria a superar. Mal sabia ela que não era EPT, era abstinência de adrenalina. Watson transformou o blog num registro das aventuras de SH que também foi citado no terceiro episódio: johnwatsonblog.co.uk.

A legista Molly Hooper tem um blog também, e pelo template eu deduzo que ela é uma catlover. 😉 www.mollyhooper.co.uk

Todos os sites são redigidos por Joseph Lidster, que também cuida dos websites de Doctor Who e é um dos roteiristas de Torchwood. Tudo em casa.

Haverá mais episódios da série, só não se sabe ainda quantos nem quando, visto que Moffat e Gatiss têm compromisso com Doctor Who [aliás, Matt Smith fez testes para o papel de John Watson mas acharam que a interpretação dele ficava muito parecida com a de Sherlock Holmes. Ele acabou ganhando o papel do Décimo-Primeiro Doutor graças a isso].

Mark Gatiss disse numa entrevista que eles queriam literalmente tirar Sherlock da neblina ao trazê-lo para os dias modernos. Isso significava livrar o personagem da figura clássica do boné e da capa impermeável. O casaco que o Sherlock moderno usa custa mil libras e muita gente procurou nas lojas depois que a série foi exibida. O boné foi substituído por cachecois. O Sherlock do século 21 é estiloso.

A Study in Pink

Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Steven Moffat

Baseado no romance Um Estudo em Vermelho. Dr. John Watson e Sherlock Holmes se conhecem e alugam um apartamento para dividir as despesas. A Sra. Hudson [Una Stubbs], senhoria do prédio, e o dono do restaurante têm em comum o fato de que Sherlock os ajudou anteriormente e ambos acreditam que Sherlock e Watson são um casal. O episódio usou efeitos visuais para mostrar o processo de raciocínio de Sherlock na investigação do que parece ser uma série de suicídios. Enquanto isso o roteiro ia construindo os personagens e estabelecendo conexões e relacionamentos com calma, um luxo a que podiam se dar num episódio com 90 minutos [o dobro da duração dos episódios de séries policiais norte-americanas, praticamente um longa-metragem].

Mesmo assim o caso investigado não foi tratado de forma superficial ou apressada e ainda tivemos a primeira pista sobre a existência da eminência parda do submundo do crime, Moriarty. Eu confesso que pensei que fosse o estranho com o guarda-chuva que sequestrou Watson, mas que acabou se revelando ser Mycroft [Mark Gatiss], irmão de Sherlock. De qualquer modo, achei inteligente como explicaram um rapto na Londres monitorada pelo CCTV [closed-circuit television, o sistema de segurança das câmeras de vídeo nas ruas].

É difícil apontar um momento preferido num episódio excelente do começo ao fim, mas apostaria no momento em que Sherlock percebe que foi Watson quem atirou no assassino e salvou-lhe a vida. Foi o momento em que a dupla  criou uma conexão de amizade.  [5/5]

The Blind Banker

Direção: Euros Lyn
Roteiro: Stephen Thompson

O mais fraco dos três episódios, IMHO. Baseado no conto Os Dançarinos. Novamente há uma série de suicídios, mas Sherlock descobre que são forjados. Cada vítima recebeu uma ameaça codificada e grande parte da trama se ocupou com o detetive tentando decifrar o código, o que ele consegue, é claro, mas contando com uma série de coincidências e acasos. Acho que foi por isso que não curti muito, houve bem menos Ciência da Dedução desta vez.

Também pode ser porque envolvia uma gangue de contrabandistas chineses e eu gosto mais de casos que envolvem elementos domésticos. Espionagem, gangues chinesas e conspiração internacional são impessoais e distantes. E, por fim, foi um episódio sem Mycroft, Lestrade e Sally, a sargento que se opõe à presença de SH nas investigações policiais, sem os diálogos rápidos e afiados do primeiro episódio e sem humor.

Um fator positivo foi a introdução de Sarah [Zoe Tellford], a médica que se transforma no interesse romântico de Watson. Sherlock e Watson dividem um apartamento, trabalham juntos mas são indivíduos com interesses próprios. A cena inicial da luta de Sherlock com o criminoso de um caso que ele disse a Watson ter recusado e a corte que Watson faz a Sarah [mesmo prejudicada pela interferência de Sherlock] demonstram isso.

E a Sra. Hudson é uma querida, né?

O ponto alto do episódio foi Watson tentando explicar que ele não era Sherlock Holmes. [3/5]


The Great Game

Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Mark Gatiss

Ah, esse foi muito melhor! Não consegui achar o título traduzido da história em que o roteiro se baseou, mas só de ouvir Benedict Cumberbatch dizendo “The game is on!” foi demais. O episódio traz de volta aquele humor sardônico logo na introdução, quando Sherlock interroga um jovem russo acusado de assassinar a esposa e o interrompe a todo momento para corrigir-lhe a gramática. Depois de recusar o caso [e depois do episódio anterior, convenhamos] ele está mortalmente entediado, um estado de espírito que tenta remediar ao disparar tiros contra a parede do apartamento.

Watson ainda está se adaptando com as esquisitices, manias, falta de empatia, alterações de humor e preguiça do colega de apê, o que provoca os diálogos mais engraçados, mas é legal ver que, a seu modo, Sherlock precisa dele, mesmo que seja para alcançar-lhe o celular no bolso do casaco que etá vestindo. É assim que Watson assume a investigação de um caso do interesse de Mycroft e que SH recusou.

O que ele não pode recusar é uma série de casos que lhe vêm em sequência após a explosão do apartamento abaixo. Há uma mente criminosa que determina que outras pessoas morrerão se ele não resolvê-los, o que o coloca numa corrida contra o relógio. Algumas pessoas reclamaram do pouco tempo dedicado aos crimes, mas eu achei que o ponto central do episódio não era o procedimento, e sim a construção dos fatos que ajudam a explicar quem e o quê é Moriarty e nisso o roteiro foi perfeito.

Steven Moffat diz que Sherlock Holmes é um personagem amoral, então para transformá-lo num herói é necessário um vilão realmente assustador e psicopata. Alguém que usa sua inteligência, comparável à de SH, para o mal, apenas para passar o tédio.

E, cara, esse Moriarty do Andrew Scott é de dar medo!

A melhor cena foi a sequência na piscina, com aquele gancho espetacular para a segunda temporada. [5/5]

BBC Sherlock trailer


Link http://www.youtube.com/watch?v=cSQq_bC5kIw

Sherlck: Steven Moffat and Mark Gatiss interview


Link http://www.youtube.com/watch?v=rEdWwb6lhQo&NR=1

Steven Moffat and Sue Vertue talk about Sherlock (Breakfast, 10.8.10)


Link http://www.youtube.com/watch?v=e0i02yc7y3Y

BBC’s Sherlock opening theme


Link http://www.youtube.com/watch?v=kPoOE5UFusY

Até a trilha sonora é excelente, a música incidental dá o tom certo sem chamar demais a atenção para si.

Sherlock: Benedict Cumberbatch interview – Updating Sherlock


Link http://www.youtube.com/watch?v=e1sscxvETn4

A voz, a voz, A VOZ!! #morri

Serviço
Ficha técnica no iMDB
Site oficial na BBC
Verbete na Wikipedia

Posts legais, todos da Bruna Guerreiro no blog Quarto Escuro
Sherlock Holmes – Um Escândalo na Boêmia
Um Estudo em Vermelho – o primeiro caso de Sherlock Holmes
Sherlock Holmes & Hercule Poirot
“Whodunit”? – “ A Faixa Malhada” e “As Faias Cor de Cobre”
A Inglaterra de Agatha Christie e de Sherlock Holmes
Mycroft Holmes, o proto-nerd
Gregory House & Sherlock Holmes
BBC’s Sherlock: Holmes no século XXI – spoilers do 1o. episódio

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11 comentários sobre “Sherlock

  1. Pingback: Tweets that mention Sherlock « Pensamentos de Uma Batata Transgênica -- Topsy.com

  2. Eu coloquei o link para o primeiro episodio no site TVix no twitter , mas não devo ser o unico.

    Sou um grande fã de toda a mitologia Sherlockiana, tenho todos os livros e ja inumeras versões.

    A principio fiquei com o pé atraz com essa ideia de trazer o Grande Detetive para o século XXI, mas acabei gostando muito.

    No primeiro episodio é legal cruzar as referencias com o UM Estudo em Vermelho que é o primeiro livro.

    Curiosidades como a interpretação da palavra Rachel ser o inverso do livro, ou o fato de que os produtores nem precisaram mudar a historia do Watson (tanto agora como no sec XIX ele lutou no Afeganistão), os livros e artigos de jornais serem subistituidos por site e blogs.

    Os efeitos monstrando os detalhes que só Holmes percebe.

    Muito bom.

    Estranho mesmo é ve-lo sem cachimbo, violino e a dupla se tratando pelo primeiro nome.

    Bem, pelo menos parece que essa serie não vai me fazer passar raiva.

  3. ai, tô apaixonada pela série. também vi alguém comentando no twitter (será que foi vc? oO) e corri pra baixar. tudo bem, só li “um estudo em vermelho”, mas deu pra reconhecer coisas do livro no 1º ep de forma genial.
    acho que cai de amores pelo sherlock antes mesmo dele aparecer, com as SMS que ele mandou pra geral. um amor!

  4. Eu me apaixonei por Sherlock. Uma tristeza que não terei mais episódios tão cedo, mas fico feliz de que pelo menos os que tivemos foram de qualidade.
    Quanto ao Moriarty eu estou com sentimentos conflitantes. Eu gostei dele, mas o achei meio irritante com aquela vozinha enjoada. Andei lendo mil e uma teorias diferentes (como a de ser Molly o verdadeiro Moriarty, ou Moriarty ser uma junção de Molly com Jim e aquela ser apenas uma faceta dele e por aí afora) e na minha opinião há mais do gênio do crime do que nos foi mostrado. Mas terei que esperar até os próximos episódios para ter certeza.

  5. AH, e a trama de fundo do episodio é retirado de um dos casos de Holmes, que tinha justamente o nome de Os planos do Submarino Bruce-Partington.
    A trama e o desenrolar são os mesmo, mas na serie ela é só um adendo a historia principal.

  6. Como o Lord Anderson e eu, fã é um bicho tão chato de agradar, né? Pois a mim acertou em cheio! Só hoje terminei de ler teu post, fiquei rendendo as entrevistas, e só quis ler depois de ter visto os três episódios (vi o terceiro esta semana). É extremamente bem-feito. A relocalização no tempo salpicada de referências originais que são os anzóis dos fãs mais dedicados. O gozo que é reconhecer uma fala, uma cena!

    Cumberbatch, minha nega, eu nem sei mais o que dizer sem passar por tiete de 13 anos de idade. E a voz, que é o teu fraco, lembra aquele timbre grave Alan-Rickman-de-ser, hein?

    Vai rolar mais um post sobre o segundo e o terceiro epis no QE, mas este findi eu tô enrolaaaada!

  7. Comecei a assistir essa semana (estou na metade do segundo episódio) e vim correndo ver se vc tinha feito review! (yay, vc fez)
    Não conheço muito as história do Sherlock mas estou adorando (por falta de comparativo com os livros, estou comparando Sherlock & Watson com House & Wilson). Acho que vou acabar ficando com vontade de ler os livros.
    Quanto terminar volto pra ler o post inteiro (decidi não ler spoilers dessa vez… um progresso pra mim! A força de vontade venceu a curiosidade dessa vez!).

  8. Pingback: The Tenant of Wildfell Hall / A Inquilina de Wildfell Hall [1996] « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  9. Poxa, eu assisti essa série nos últimos dois dias e gostei bastante. A intenção era fazer um post no blog sobre ela, mas agora que li seu artigo aqui, nem sei mais se farei rs
    Ficou muito bom! Me diz uma coisa que eu ainda não entendi… No primeiro episódio, aquele comprimido que ele – Holmes – ia tomar era o com veneno ou não?
    Também não entendi a razão do Watson ter escondido que foi ele que atirou no Serial Killer.

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