Discworld | Small Gods

Capa

O escritor britânico Terry Pratchett criou um mundo paralelo em que parodia a vida na Terra, o Discworld. Esse mundo é plano e vaga pelo espaço equilibrando-se sobre quatro elefantes, que por sua vez estão sobre as costas da tartaruga gigante interestelar Grande A’Tuin. Ninguém sabe para onde ela vai, mas sabem que o Sol gira ao redor do Disco arrastando a luz atrás de si.

Small Gods é o décimo-terceiro livro da série regular [trinta e nove até setembro passado], o que significa que li pouco mais de um terço da série até agora – considerando-se que li uns três posteriores fora da ordem e sem considerar os títulos YA [O Fabuloso Maurício] ou companion [The Folklore of Discworld].

Esse livro faz parte da subsérie dos Monges da História que também aparecem em Pirâmides, The Thief of Time, etc. Os Monges da História da Ordem de Wen O Eternamente Surpreso têm uma missão importante: são os guardiões da História, cuidadosamente compilada em vinte mil livros de 3 metros de altura com a letra tão miudinha que você tem de ler com uma lupa.

A questão filosófica “se uma árvore cai no meio da floresta mas não há ninguém para ouvir, ela ainda faz barulho?” não faz sentido para esses Monges, pois as coisas que acontecem são coisas que acontecem. Porém, se há alguém que observe as coisas que acontecem então temos a História, que, de outro modo, seriam apenas coisas que acontecem. Então, esses Monges não apenas guardam a História, eles a observam também.

E a História que um deles [Lu Tze] é enviado para observar está acontecendo em Omnia, a terra monoteísta regida pela Igreja do Grande Deus Om. Mas vamos falar um pouco sobre os deuses do Disco, sim? Como alguém pode notar, a realidade no Disco não obedece às leis naturais, ela se sustenta mais na crença. É a fé das pessoas que dá o suporte para as coisas que existem e acontecem no Disco, portanto há mais terreno para a percepção de deuses por lá.

Existe o panteão dos deuses maiores que residem em Dunmanifestin como o Cego Io, Offler o Deus Crocodilo, Destino, P’Tang P’Tang, A Senhora e outros; os deuses das montanhas Ramtops como Herne o deus dos caçados; existem representações antropomórficas como Morte, Tempo, Caos, que não são deuses mas que também são moldados pela crença. E existem os deuses esquecidos.

 

 

Et pur si muove

 

They are small gods, and most of them stay that way. Because what they lack is belief. A handful, though, go on to greater things. Anything may trigger it. A shepherd, seeking a lost lamb, finds it among the briars and takes a minute or two to build a small cairn of stones in general thanks to whatever spirits might be around the place. Sometimes it goes further. More rocks are added, more stones are raised, a temple is built…. The god grows in strength, the belief of its worshippers raising it upwards like a thousand tons of rocket fuel.

Mas como, alguém pergunta, pode um deus com mais de dois milhões de seguidores ser esquecido a ponto de perder suas forças e só conseguir se manifestar na forma de uma tartaruga quando chega a hora de aparecer para seu oitavo profeta? [Oito é o número mágico no Discworld.] É aí que entra a genialidade de Terry Pratchett, pequeno gafanhoto.

O autor critica a igreja dogmática que mantém seus fieis presos pelo temor, pelos rituais, por mandamentos supostamente proclamados pelo deus onipotente e onisciente através da boca dos profetas, a intolerância religiosa contra o livre-pensamento e contra outros sistemas de crenças religiosas. O interessante é perceber como Pratchett, um ateu convicto, é capaz de criticar a religião ao mesmo tempo em que mantém o respeito pelo verdadeiro fiel. Ele não confunde as coisas.

Mais ainda: Pratchett não poupa os filósofos e os cientistas da crítica, tampouco. Ninguém que não demonstre respeito pelo outro está livre da ironia e do sarcasmo do autor.

[Terry Pratchett] didn’t know what the ending of Small Gods was going to be until the last page. “It’s called narrative dynamic. All options close and close and close – and there’s your ending.” [Irish Times, 06/10/201]

Esse é o pocket book que me valeu um desconto da Livraria Cultura por conta de um amassado na capa [v. post], praticamente imperceptível.

A leitura não rendeu tantas gargalhadas quanto outros livros da série, mas isso não diminui a cotação em nada. Pelo tema mais controverso isso era até esperado, e o livro ganha pontos extras por provocar a reflexão sobre diversos temas – religião, filosofia, política, diplomacia, vida, morte, o universo e tudo mais – sem entretanto entregar as respostas. É um livro que pretendo reler muitas vezes.

Minha avaliação:  5 de 5.

Para saber mais
Anotações, referências, etc.
Crédito da imagem da tartaruga: Luke
Verbete Discworld Gods na Farlex Encyclopedia
Verbete Small Gods na Wikipedia

Ficha técnica
Título: Small Gods
Autor: Terry Pratchett
País: Inglaterra
Ano: 1994
Editora: HarperTorch
Páginas: 357

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3 comentários sobre “Discworld | Small Gods

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