Desafio Literário | Renato Russo: O trovador solitário

Sinopse
Mesmo 10 anos após sua morte, a legião de fãs de Renato Russo vem aumentando. Letras como “Geração Cola-Cola”, “Faroeste Caboclo”, “Índios” até hoje estão na cabeça de milhões de pessoas. Momentos importantes da vida do astro, como o tumultuado show em Brasília no ano de 1988 são contados por Arthur Dapieve.

Capa Relume Dumará

Faz muito pouco tempo que passei a ler biografias, autobiografias e livros de memórias. Ainda está longe de ser meu gênero literário favorito, mas pelo menos já ultrapassei a fase do “não comi e não gostei”‘. Um dos truques que lancei mão foi escolher personalidades de cuja obra sou fã – e assim explica-se a biografia de Renato Manfredini Júnior na minha agenda do Desafio Literário: sou fã das músicas do Legião Urbana.

Quando o primeiro LP da banda saiu eu tinha 15 anos e ouvia Menudos; de repente tinha aquele cara denunciando a ditadura sem esconder em metáforas, criticando uma geração alienada, falando de um sistema totalitário que vinha se desmanchando mas ainda calava quem se opunha, aquela voz grave com dicção perfeita fazendo rock, de repente eu era outra pessoa.

Muita gente então fez de Renato Russo um ídolo, um portavoz. Com o livro de Arthur Dapieve descubro que essa era uma condição que o artista nunca desejou:

Renato estava se sentido desconfortável no papel de novo porta-voz da juventude, ainda mais porque tinha perfeita consciência da responsabilidade social de um artista. Até então não se sentia à vontade para tratar de um tema como identidade sexual, dada a enorme parcela de crianças entre seus fãs. “Sou jovem de vinte e poucos anos, não sei nada da vida”, reclamava. “E as pessoas bebem minhas palavras como água. E escrevo justamente porque não sei. Não quero que minha opinião sobre temas controvertidos, drogas, por exemplo, influencie outra pessoa.”

Capa Ediouro

O livro de Arthur Dapieve dedica-se mais à face pública do líder do Legião Urbana e à sua participação no cenário do rock brasileiro entre o final dos anos 1970 e meados dos anos 1990, pouco mais de 16 anos de carreira, sete CDs com a banda e dois CDs solo. São poucas as passagens íntimas, é como se o autor respeitasse a discrição que os membros da banda se auto-impunham, Renato dando o exemplo. Mesmo assim, e mesmo sendo um trabalho prioritariamente isento , sem arroubos de fã, dá uma boa noção de como funcionava a cabeça dele, de como as referências musicais, literárias e cinematográficas se encaixavam no que acontecia em sua vida.

As passagens são “ilustradas” com trechos das canções – e xeu te contar que conseguia ouvi-las mentalmente, sem precisar procurar nos CDs [aliás, só fui desenterrar meus CDs depois que terminei de ler]. Algumas histórias contadas têm duas versões, algumas enfeitadas por boato e outras esclarecidas por quem participou da história.

Existem duas edições desse livro, a que eu li é da Relume Dumará [coeditada com a prefeitura do Rio de Janeiro] lançada no ano em que Renato Russo faria 40 anos de idade. A Ediouro republicou no aniversário de dez anos de morte [2006] com atualizações de texto, fotos e fac-símiles e introdução de José Emilio Rondeau, o primeiro produtor do Legião.

Contudo, o período no estaleiro não deixara de ter um lado produtivo. Renato leu como um louco e decidiu se interessar ainda mais seriamente por música. Chegou a criar uma banda fictícia para se distrair no seu quarto de paredes cobertas de fotos, a 42th Street Band, na qual o cantor/alter ego se chamava Eric Russell. Esse sobrenome, compartilhado por um de seus pensadores favoritos, o inglês Bertrand Russell, e sonoramente parecido com duas outras fontes de admiração, o também filósofo Jean-Jacques Rousseau e o pintor primitivista Henri Rousseau, ambos franceses, acabou resultando no “Russo” que adotaria, alguns poucos anos depois, como sobrenome artístico.

De acordo com o blogueiro Henderson Bariani “uma boa biografia deve ter duas qualidades básicas: explicar o contexto da época em que o biografado viveu e dar informações precisas e se possível isentas sobre o mesmo.” [Depokafé]

Esse livro cumpre os dois requisitos: o cenário musical internacional, o momento político brasileiro, a família e o círculo de amizades são o pano de fundo. Já a abordagem pessoal, conforme comentei acima, foge do jornalismo de celebridades; nome de amigos e relacionamentos amorosos só são mencionados se fizerem parte de algum contexto relevante – a opção por um trabalho solo em inglês, por exemplo.

Sidney Rezende entrevista Arthur Dapieve – parte 1 de 3


Link http://www.youtube.com/watch?v=Dd_ndH6o2ws

Link para o post de Sidney Rezende com outras duas partes: SRZD.


Nota: 4

(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2011 [v. lista de livros agendados], tema Biografia e/ou Memórias, e Desafio de Férias 2010/2011 [v. post].

Blog do Desafio Literário e Desafio de Férias 2010/2011

Título: Renato Russo: O trovador solitário
Autor: Arthur Dapieve
Editora: Relume Dumará
Coleção: Perfis do Rio
Ano: 2000
Páginas: 188

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28 comentários sobre “Desafio Literário | Renato Russo: O trovador solitário

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  4. acho que é preciso cuidado com esse tipo de leitura. a vida me ensinou que existe a minha verdade, a sua verdade e a verdade, todas sobre um mesmo assunto. conheci o renato pessoalmente, e ele não tinha muita condição de ser precursor de coisa alguma. era um angustiado e apenas isso. um pouco saía pela música, outro pelas drogas e o final pela morte. isso não chega a ser a história de um stefan haukins …

  5. Báh lendo teu texto fiquei com muita vontade de saber mais sobre o Renato, sempre gostei das músicas dele. Tive um professor na graduação que detestava ele, dizia que era só um produto fabricado para fingir que era contestador, enfim ele é mesmo um figura polêmica mas acho que esse trecho já nos mostra indídicios que meu professor estava errado:
    “Sou jovem de vinte e poucos anos, não sei nada da vida”, reclamava. “E as pessoas bebem minhas palavras como água. E escrevo justamente porque não sei. Não quero que minha opinião sobre temas controvertidos, drogas, por exemplo, influencie outra pessoa.”
    estrelinhas coloridas…

  6. Já faz tempo que eu estou pra comentar o seu post, mas já faz uma semana que eu venho protelando. Sem perder mais tempo segue aqui meus comentários.
    Acredito que um dos principais papeis de uma biografia seja ajudar a desvanecer o senso comum que temos do biografado (quando muito famosos) e muito existe a ser dito sobre Renato Russo, ou melhor, sobre o Renato Mafredini Junior, o homem por trás do mito.
    Foi um enorme prazer ver que um dos livros de entrada do desafio desse mês falava sobre Renato Russo. Felizmente eu posso dizer que eu fui um dos que curtiram a época que a Legião ainda tocava, cresci ouvindo suas músicas e foi com grande pesar que eu e meus amigos recebemos a noticia de sua morte (o que aconteceu com muita gente).
    Foi legal ler sua resenha lembrar relembrar um período da minha vida e é muito bacana saber que o Renato teve uma biografia feita de forma tão competente e que, pelo visto, foge do lugar comum.

    • fábio, o renato russo se recusava a falar com alguns órgãos da imprensa, mas o jornalista arthur dapieve não era um dos banidos. isso e o fato de ele ser um dos poucos que cobriam o cenário do rock brasileiro contribuem muito na credibilidade dessa bio.

  7. Renato Russo teve sim uma trajetória marcante. É legal saber que um cara tão talentoso, inteligente, crítico e criativo, tenha também bebido da fonte da humildade de saber que nada sabe. Gostei demais da resenha e de conhecer a sua visão sobra a obra. Bjs

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