Cyrano de Bergerac | Adaptações, versões, inspirações

Sinopse
Cyrano é um brilhante poeta e bravo espadachim que vive na França do século XVII. Dono de um enorme nariz, e achando-se feio e desprezível, teme declarar o seu amor a Roxana, sua bela prima. Esta, por sua vez, é apaixonada por um colega de Cyrano, o cadete Cristiano, que não tem qualquer talento para expressar seus sentimentos pela jovem. Sem esperança de conquistar a prima, Cyrano ajuda o cadete, redigindo suas declarações de amor.

Capa

A trama de Cyrano é uma das minhas favoritas de todos os tempos [não lembro quem foi que disse que na verdade só existem cinco ou seis histórias no mundo e que todas as outras são variações dessas cinco ou seis]. Me apaixonei pela história muito antes de ler o livro, ao assistir a uma adaptação modernizada na Sessão da Tarde lá pelos anos 80 [Admiradora Secreta].

Anturdia fui reler o livro de Edmond Rostand [uma peça teatral, na verdade – Cyrano de Bergerac – França/1897] e fiquei matutando umas coisas que não botei reparo da primeira vez – e aqui devo agradecer de novo à Vivi pelo Desafio Literário, que me obrigou a amadurecer a forma como eu leio, a prestar mais atenção [não incluí Cyrano no DL2011 porque a ideia do desafio é ler livros que não tinha lido antes]. Além disso, meu próprio amadurecimento pessoal proporciona um olhar diferente sobre coisas já vistas há algum tempo [quase dez anos, no caso do livro].

A peça de Rostand baseia-se na vida de um personagem verídico, o dramaturgo e duelista francês Hercule-Savinien de Cyrano de Bergerac. O Cyrano fictício tem uma inteligência rápida, a língua afiada e uma disposição de espírito galante, pronto a ofender os orgulhosos e a defender os fracos. Assim como nos romances de cavaleiros andantes, Cyrano dedica-se a façanhas em nome de sua adorada musa. Porém, ele não se atreve a declarar seu amor porque tem medo de ser ridicularizado por causa do “enorme nariz” e passa a intermediar o romance entre Roxane, sua amada, e Cristiano, seu colega de regimento por quem Roxane se apaixona.

Eu tive um problema com Roxane e com Cristiano e até com Cyrano, depois de um tempo. Meu problema com Roxane é que todos os homens se apaixonam por ela porque ela é linda e delicadinha e cê sabe da antipatia que eu sinto por esse tipo de personagem “inha”. E quando Cristiano decide mostrar-se como é, ou seja, sem a ajuda da verve de Cyrano, Roxane fica toda nervosinha porque ele falha em dizer-lhe o quanto a ama por ser tão maravilhosa e coisa e tal. Roxane não ama Cristiano: ela ama a imagem de si mesma que Crstiano reflete. E é daí que vem meu problema com Cyrano, por idolatrar uma pessoa tão vazia assim.

Em todo caso, é um prato cheio em matéria de sacrifícios e amores não correspondidos, o que talvez justifique a quantidade de adaptações e versões e o uso do fator Cyrano em tantas mídias [v. lista de exemplos no TV Tropes, que inclui Unseen Academicals do Terry Pratchett].

Meu exemplar

Infelizmente, o livro que tenho traz uma tradução plagiada: a tradução original é de 1906 feita pelo pernambucano Porto Carreiro, mas a Nova Cultural publicou em 2003 creditando-a a Fábio M. Alberti [fonte: Lendo]. Na época em que comprei a coleção não sabia dessas práticas espúrias, mas hoje em dia já pesquiso antes e evito algumas editoras.

Adaptações para TV e cinema [e literatura]

Tem um monte! além das homenagens listadas no TV Tropes tem as adaptações formais [ou nem tanto] listadas no iMDB, vou me limitar a comentar cinco.

Alerta de spoilers

Cyrano [Cyrano de Bergerac, França/1990]

Uma adaptação fiel da peça, com Gérard Depardieu no papel de Cyrano que quase não precisaria da prótese de nariz [/maldade], Anne Brochet de Roxane e Vincent Perez de Cristiano [Perez foi o segundo Corvo, substituiu Brandon Lee depois daquele acidente fatal no primeiro O Corvo]. É uma versão OK, boa pra quem quer  se situar na trama, além de ser a primeira adaptação fiel em cores.

Depardieu recebeu uma indicação ao Oscar por este papel [assim como o intérprete anterior de Cyrano, o ator José Ferrer em 1950] e batizou sua filha com o nome de Roxane – aliás, a mãe de Roxane depois teve filhos também com Vincent Perez. Ê vida que imita a arte, né? A tradução dos versos do francês para o inglês tanto na versão de 1950 quanto na de 1990 são fo escritor Anthony Burgess [Laranja Mecânica].

No iMDB

Cyrano de Bergerac (1990) – Trailer


Link http://www.youtube.com/watch?v=JgbygwrsJwY

Admiradora Secreta [Secret Admirer, EUA/1985]

Essa é uma versão modernizada e colegial, uma moda dos anos 80/90 [v. As Patricinhas de Beverly Hills, 10 Coisas Que Odeio Em Você, Segundas Intenções], só que com inversão de gênero, isto é, Cyrano agora é uma garota interpretada por Lori Laughlin [90210]. O equivalente de Cristiano é Michael [C. Thomas Howell] e de Roxane é Deborah Anne [Kelly Preston, Sra John Travolta].

Além da trama Cyranesca, ainda tem muita confusão por conta das cartas anônimas. Bem Sessão da Tarde, combina bem com pipoca e guaraná e tem um final meio Lady Dorinda

No iMDB

Secret Admirer (1985) – Trailer


Link http://www.youtube.com/watch?v=x5X0L-YAJfE

Feito Cães & Gatos [The Truth About Cats & Dogs, EUA/1996]

Um dos meus Top Favoritos Foréva, também é uma modernização só que para a faixa dos vinte e muitos ou mesmo trintões, e também tem inversão de gêneros – neste caso, dos três personagens principais. Abby [Janeane Garofalo, de Criminal Minds: Suspect Behaviour] tem um programa de rádio dedicado a comportamento animal. Brian [Ben Chaplin, ô lá em casa!] é um fotógrafo com problema com uma de suas modelos que fica atraído pela voz e pela conversa de Abby. Quando ele pressiona para conhecê-la pessoalmente, porém, Abby manda a amiga Noelle [Uma Thurman] no lugar.

Janeane Garofalo é uma ativista pelos direitos civis, dos animais, das mulheres, etc. Ela detestou o filme, disse que é anti-feminista [acho que ela teve o mesmo problema que eu tive ao ler o livro]. Por outro lado, ela adotou um cachorro enquanto filmava Feito Cães e Gatos [eu tinha o link pressa notícia no Miguelito que morreu…].

No iMDB

The truth about cats & dogs (1996) – trailer


Link http://www.youtube.com/watch?v=rBvwueGobMk

Chapolin – A História de Cyrano de Bergerac [Erase un hombre a una nariz pegado, México/1978]

Chapolin Colorado (Chespirito) é chamado por um homem (Ramón Valdez) que terá um encontro às cegas e está muito nervoso. O herói resolve contar a ele a história do francês Cyrano de Bergérac (Ramón Valdez), um homem narigudo que matava a todos que zombassem de seu nariz e que era apaixonado por sua prima Roxana (Florinda Meza) – a qual era apaixonada por Cristiano de Neuvilette (Chespirito) e que havia pedido a Cyrano para este proteger Cristiano. [Chespirito Wikia]

Oh, veja você mesmo!

Parte 1


Link http://www.youtube.com/watch?v=M-BqKTXsxOg

Parte 2


Link http://www.youtube.com/watch?v=Gqbnb0g0I6g

A Marca de Uma Lágrima – Pedro Bandeira [Brasil/1985]

De longe, é a minha versão favorita: é modernizada [passa-se nos tempos atuais] , colegial, com reversão de gêneros. Tem uma investigação policial no estilo Agatha Christie, tem debates existenciais adolescentes – o que o torna um livro ótimo para essa fase – só que o que o torna meu favorito é outra coisa: nesse livro, “Cyrano” não morre sozinho mas, ao contrário das variações acima, também não fica com “Roxane”.

Pedro Bandeira introduziu um quarto personagem à altura da inteligência e coragem de Isabel, a “Cyrano”, e a guia para fora do amor idealizado [ou da “ilusão de amor”] do original de Rostand – além de homenagear os reis espanhois que descobriram a América.

8 comentários sobre “Cyrano de Bergerac | Adaptações, versões, inspirações

  1. Romeu e Julieta deve ser a outra história que rende muitos derivados.

    Adoro Admiradora Secreta! Classic 80s. Mas o meu Cyrano preferido é o Steve Martin em Roxanne, onde ele faz aquele set de piadas sobre o nariz.

  2. Que ótimo retrospecto de Cyrano, Naomi! A primeira vez que li essa história foi na adolescência e me lembro que também fiquei com raiva dos pitis da Roxane. E, sem dúvida, A Marca de uma Lágrima é um clássico! Eu fico muito feliz de ter dito ao Pedro Bandeira, certa vez em uma Bienal do Livro, quanto eu gosto dessa história.

  3. Meu Cyrano preferido é o Gonzo no Muppet Babies.
    (Hoje mesmo estava assistindo Criminal Minds: Suspect Behaviour e tentei lembrar do nome do filme com a Janeane Garofalo e a Uma Thurman. Coincidência?)

  4. Olá, Lu! Cyrano é um clássico de valor inestimável. Após a leitura desse post-homenagem, deu vontade de relê-lo. Para mim, Cyrano é a epítome do cavalheirismo, da nobreza…é tão quixotesco o seu amor romântico que, certamente, ilustra o espírito de uma época. Aonde a gente colocaria um cara como Cyrano nos dias de hoje?

    Agora, deixa eu te dizer o quão oportuno vem a ser esse post. Assisti Feito cães e gatos no início da semana, e estou a resenhá-lo, e muito do que li aqui cria uma misturinha reflexiva boa. Amo esse filme de paixão!

    No mais, gostei de ver esse elenco de versões e adaptações. Uma boa pedida para uma sessão de lazer.

    Bem, não posso deixar de agradecê-la pelo feedback espontâneo com relação ao Desafio literário. Depoimentos assim, alegram a alma da gente. Valeu muito mesmo!

    Beijocas

  5. Pingback: Cyrano nas telas « Cinema é Magia

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