Jane Eyre [1983]

Jane Eyre 1983

Eu costumo gostar das adaptações que a BBC faz de obras literárias porque mantém o máximo de fidelidade à letra e ao espírito do livro, com alterações mínimas. Além disso, o próprio formato minissérie é mais adequado no caso de histórias extensas como Jane Eyre, da escritora inglesa Charlotte Brontë.

No caso da adaptação exibida em 1983, por exemplo, foram onze episódios totalizando quatro horas. Isso deu tempo suficiente para abordar todas as fases da vida da órfã Jane desde a morte do tio e guardião Mr. Reed em Gateshead Hall, passando pelo período em Lowood, em Thornfield Hall e em Moor House, até chegar a Ferndean.

Personagens e fatos excluídos de outras adaptações encontram espaço no roteiro de Alexander Baron e por enquanto essa foi a versão mais fiel que assisti [lembrando que só vi as de 1944, 1970, 1983, 1996, 2006 e 2011 – e estou com as de 1949, 1973 e 1997 na fila].

A partir deste ponto há spoilers

Uma cena icônica: Jane Eyre de castigo no banquinho

Por exemplo na cena em que Mr. Brocklehurst, o patrono de Lowood, coloca Jane sobre um banquinho e a aponta como mentirosa e ingrata na frente de todas as alunas e professoras, uma passagem existente em todas as versões que assisti: em quase todas fica-se com a impressão de que Jane transforma-se numa pária a partir daquele instante, mas na verdade [e apenas nesta versão mostra-se isto] Mr. Brocklehurst é tão detestado por sua sovinice e injustiça que as meninas simpatizam com Jane depois disso. Também mostra-se a investigação que Miss Temple, a diretora, faz do caso e a consequente inocência de Jane.

Outra passagem bem explorada no roteiro de Baron foi o interlúdio em Moor House com St. John, Mary e Diana Rivers. Para mim, esse trecho do livro é importante porque é quando a autora reforça seus pontos de vista em relação à sociedade inglesa, à família, ao amor e à religião – gente, só pra reforçar, Jane Eyre não é um mero romance de folhetim, o livro chocou a sociedade da época com seus ideais feministas e considerados anti-cristãos. Poucas versões fizeram justiça a esse aspecto do livro da filha de um clérigo anglicano como essa daqui.

Se alguém sabe de algo que se oponha a este casamento...

O grande problema nessa adaptação de 1983 é a escalação de elenco. Timothy Dalton ainda era desconhecido, mas Zelah Clarke era uma estrela de TV. Pra mim, Zelah teve uma atuação limítrofe: acho que ela compreendeu a essência de Jane Eyre, só que não conseguiu mostrar isso na atuação. Nas cenas em que deveria aparecer uma Jane contida, que reprimia suas paixões, ela se reprimia tanto que parecia robotizada. Nas cenas em que Jane demonstra sua natureza passional ela parecia livre demais, a atriz não soube dosar.

Existe um pequeno monólogo que aparece em todas as versões e que eu considero a prova de fogo pra atriz que interpreta a personagem-título: é a que Jane profere logo após Mr. Rochester dizer-lhe, sob o castanheiro, que encontrou trabalho para ela na Irlanda. Zelah Clarke não passou na prova.

— Digo-lhe que tenho de ir! — retruquei, inflamada por alguma coisa semelhante à paixão. — Pensa que posso ficar para tornar-me um nada para o senhor? Pensa que sou um autômato… uma máquina sem sentimentos? E que posso suportar ter meu naco de pão arrancado de meus lábios, e minha vital gota d’água derramada de meu copo? Pensa que, porque sou pobre, obscura, sem atrativos e pequena, não tenho alma nem coração? Está pensando errado! Tenho alma tanto quanto o senhor… e um coração tão pleno quanto o seu! E se Deus me houvesse dotado de alguma beleza e muita riqueza, eu tornaria tão duro para o senhor deixar-me quanto é para mim deixá-lo. Não lhe falo agora por meio dos costumes, convencionalismos, nem mesmo da carne mortal: é meu espírito que fala ao seu; do mesmo modo como se ambos tivéssemos passado pela sepultura e estivéssemos aos pés de Deus, iguais… como somos! [Jane Eyre de Charlotte Brontë, trad. Marcos Santarrita, Francisco Alves Editora]

Zelah Clarke e Timothy Dalton

Tanto Zelah Clarke quanto Timothy Dalton declaram que seus papeis em Jane Eyre foram seus melhores trabalhos. Clarke nunca mais teve papeis de destaque e acabou abandonando a carreira de atriz. Em uma entrevista, ela declarou que Jan Eyre é um cálice de veneno porque todos se lembram dos Rochesters, nunca das Janes.

Timothy Dalton acabou tornando-se James Bond, um dos mais canastrões mas um 007, em todo caso. Na maior parte do tempo a atuação dele é histriônica, com aquela impostação de voz característica do ator e que me fazia rir em momentos inadequados, mas ele teve alguns pontos altos: a cena da cigana foi perfeita para o estilo de atuação dele; a cena do primeiro aperto de mão entre Jane e Rochester; a cena em que ele manda Jane devolver-lhe nove das dez libras que ele pagou antes dela partir para a casa da moribunda Mrs. Reed e a cena de ciúme quando ele a interroga sobre St. John em Ferndean. No geral, Dalton se saiu melhor do que Clarke.

Mr. Rochester: Você acha que sou repugnante, Jane?
Jane Eyre: Sim, senhor. Mas o senhor sempre foi, sabe disso.

Vale lembrar também que Timothy Dalton interpretou outro personagem icônico bronteano, o Heathcliff de O Morro dos Ventos Uivantes em 1970; na mesma adaptação ele contracenou com Morag Hood, que interpretou Mary Rivers em Jane Eyre e Frances Earnshaw da adaptação do livro de Emily Brontë.

Meu sonho é ver esse mesmo roteiro encenado por bons atores…

No iMDB

Jane Eyre 1983 – Timothy Dalton, Zelah Clark – Part 1/20


Link http://www.youtube.com/watch?v=XRESJf1tmiI

Título: Jane Eyre
Título original: Jane Eyre
• Direção: Julian Amyes
• Roteiro: Charlotte Brontë (romance), Alexander Baron (roteiro)
• Gênero: Drama/Romance
• Origem: Inglaterra
* Ano: 1983
• Duração: 3h59min
Elenco
Zelah Clarke … Jane Eyre
Timothy Dalton … Edward Fairfax Rochester
Carol Gillies … Grace Poole
James Marcus … John
Jean Harvey … Mrs. Fairfax
Joolia Cappleman … Bertha
Eve Matheson … Leah
Damien Thomas … Richard Mason
Colin Jeavons … Briggs
Kate David … Bessie
Blance Youinou … Adele
Elaine Donnelly … Diana Rivers
Morag Hood … Mary Rivers
Sian Pattenden … Jane as a Child
Judy Cornwell … Mrs. Reed
Robert James … Brocklehurst
Vicky Ireland … Barbara
Sarah Caisley … Servant
Christopher Burgess … Carter
Graham Weston … Rogers
Mary Tamm … Blanche Ingram
Sylvia Brayshay … Maria
Norman Rutherford … Sir George Lynn
Gabrielle Glaister … Amy Eshton
David Dodimead … Colonel Dent
Joyce Cummings … Mrs. Dent
Lockwood West … Wood
Andrew Bicknell … St. John Rivers
Anne Dyson … Hannah
Posts relacionados
Jane Eyre [1970]
Jane Eyre [2011]
Uma nova Jane Eyre
10 livros em 10 dias | Livro que gostei mais
Heathcliff e Edward Rochester
Os 10 herois românticos da literatura
Jane Eyre – série [2006]
Top Letrinha Fazível – Mr. Rochester

9 comentários sobre “Jane Eyre [1983]

  1. Já estou com os links do youtube dessa versão nos favoritos, mas ainda não vi. Gostei da análise, é curioso ver como cada versão é diferente, e sempre há a influência da época em que foi interpretada. Ambos são ótimos, mas os Rochesters de Orson Welles e de Toby Stephens são muito diferentes, cada um fruto da época dos atores, afinal, são 70 anos de diferença, né?
    E infelizmente a Zelah Clarke tem certa razão, a interpretação do Rochester chama mais a atenção que da Jane, embora isso seja uma injustiça.

    Beijocas!

  2. Não esqueçam que ainda tem a versão de 1934… vou ver ainda, mas confesso que estou com receio… uma Jane Eyre loura e encacheada não sei, não… mas tenho que enfrentar o lance da datação… meu graal é ver todas as versões de Jane Eyre….

  3. Sério que são só 4h de duração? Era tanto ep. que quando eu assisti achei que durava umas 7h.AHUAHUAHAU
    Enfim concordo com tudo que disse, mas mesmo o Timoty Dalton tendo essa cara de “malandro catador de comercial de desodorante”, eu adoro ele, deve ser por causa da minha paixão juvenil depois do filme com a Fran Drescer.

  4. Decidi tomar coragem e estou baixando a versão com o Timothy Dalton… não sei por que, mas sempre que vejo a foto da Zelah Clarke, lembro da Dona Florinda do Chaves…

    Por falar nisso, alguém achou o sr. Rocherster do William Hurt pavoroso? A tal Charlotte Gainsbourg não fica muito atrás.

    Orson Welles tem um jeito rochesteriano poderosíssimo, mas confesso que não engulo muito aquele eterno olhar embasbacado que a Joan Fontaine lança para ele… O Rochester do Ciarán Hinds também tem uma força adequada ao personagem, mas não é meu favorito.

    Já vi a nova versão umas cinco vezes e ainda estou pensando se gosto ou não. Tem uns momentos que parece que vai engatar, mas… aí dá a sensação de que falta um monte de coisa. Ainda acho o Fassbender muito jovem pro papel.

    Por isso a minissérie de 2006 ainda é a minha favorita. Eu sei, eu sei, é uma minissérie, dá pra expor mais a história, dã! Mas acho que, além da química dos dois juntos, o Toby Stephens e a bicuca Ruth Wilson passam uma humanidade, uma verdade tão forte… Até uma nova versão, são meus favoritos disparados.

    Estou relendo o livro, na nova tradução… o que as anteriores pecam pelo empolamento, a nova às vezes resvala em umas estruturas meio moderninhas, sei lá… Mas é um exercício delicioso ver como é o original e como ele foi reconstruído nas diversas versões.

    O livro realmente é ousado para seu tempo, mas a Charlotte Bronte se viraria no túmulo se visse as versões mais calientes de seus personagens. Eu acho ótimo.

  5. Pingback: Jane Eyre [1997] « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  6. Pingback: Jane Eyre [1949] « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  7. Pingback: Jane Eyre [1934] « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s