[The Borgias] The Poisoned Chalice/The Assassin

Roma, 1492. O Papa Inocêncio 8º está em seu leito de morte, cercado pelos cardeais que ele acusa de corruptos e sedentos pelo trono. Com o seu falecimento, vinte e quatro cardeais com direito a voto são isolados no conclave [“com chave’], inclusive o Vice-Chanceler do Vaticano, o espanhol Rodrigo Borgia.

A série The Borgias é uma sequência da série The Tudors – não historicamente, claro, mas no canal que as produziu The Borgias talvez não existisse se The Tudors fracassasse na audiência. O projeto dessa nova abordagem de uma dinastia poderosa coube ao cineasta Neil Jordan e esse primeiro episódio duplo já demonstra que o cabra não está brincando em serviço só por causa da mudança de mídia.

A começar pelo óbvio, fotografia e caracterização de época impecáveis. Tive de assistir duas vezes porque fiquei encantada com ângulos, jogo de luz e sombra, figurino, cenário… Depois [ou ao mesmo tempo] o roteiro apresenta a situação política, o caráter dos personagens, estabelece os relacionamentos, enquanto as tramas e complôs se desenvolvem.

Pequena nota pessoal: é curioso como ambas as séries [Tudors e Borgias] têm como pano de fundo a decadência da Igreja Católica. Não estou falando da fé, e sim da instituição.

Rodrgo Borgia é cardeal mas, assim como muitos de seus colegas de batina carmim, tem mulher e filhos. Vanozza Cattanei [Cattaneo na série] era a mãe de quatro filhos de Rodrigo e a única, além dos inimigos e concorrentes do marido, que não desejava que ele obtivesse o pontificado porque sabia que o perderia. Ela e os filhos viviam bem na sociedade hipócrita e venal de Roma, graças à influência dos Borgia.

Cesare é o filho mais velho que Rodrigo deseja tornar seu sucessor na Igreja. Ele é um homem de visão e percebe o quanto sua família estará em risco com a eleição do pai, mas mesmo assim executa suas ordens para comprar os votos necessários. Ao mesmo tempo, alia-se a um assassino profissional depois de impedir que envenenasse o novo Papa. A batina não é sua vocação e sim o exército.

Giovanni [Juan, na série], o segundo filho, é esquentadinho e é quem acaba no exército do papa. Nesses primeiros dois episódios não diz muito a que veio, pois a defesa papal partiu mais de Cesare.

Lucrezia tem catorze anos e uma inteligência acima da esperada para sua idade. Achei ambíguo o relacionamento dela com Cesare, a quem espia as fornicações e que prefere que ela entre num convento a se casar, mas vamos ver pra onde Jordan vai nos levar… Gioffredo [Gioffre, na série] é o caçula, pré-adolescente.

Lucrezia acaba fazendo amizade com Giulia Farnese, a nova amante do pai, que ao que parece terá influência na formação da garota. No final do episódio Giulia aconselha Lucrezia a usar as armas de que dispõe contra o poder masculino: beleza, enquanto a tem, mas principalmente inteligência e conhecimento.

Pequena nota pessoal: Que atuação excelente de Holliday Grainger como Lucrezia, me deixou com uma dúvida enorme se a personagem não armou uma intriga de propósito ao contar sobre o retrato de Giulia Farnese para a mãe.

Rodrigo Borgia, ou melhor, o Papa Alexandre 6º tem de lidar com os demais cardeais que desejam o seu posto – um dos grandes atrativos da série, pelo que vi até agora, é que não existem mocinhos e vilões. A escalação de Jeremy Irons pra este papel me parece perfeita porque Rodrigo Borgia me lembra do Patrício de Ankh-Morpork, Lord Vetinari, e, bom, Irons interpretou Lord Vetinari em A Cor da Magia. Além disso, reputa-se [ui!] Borgia de inspirar O Príncipe [“os fins justificam os meios”] de Maquiavel.

O Cardeal Orsini é o primeiro a sucumbir, mas que fique registrado que foi ele quem provocou seu próprio destino. Concorrente direto nas votações, Orsini foi um mau perdedor e antagonizou  direta e repetidamente o novo Papa. Borgia ia relevando tudo até que Cesare descobriu o plano para envenenar a si e ao pai e virou o jogo, ganhando um novo aliado [Micheletto, o assassino].

O Cardeal Della Rovere foi o segundo porquinho [“oinc oinc”, piada interna]. Candidato derrotado tanto na eleição para o papado quanto na indicação para Vice-Chanceler, o que lhe daria um orçamento fabuloso, Della Rovere era a eminência parda do plano de envenenamento do qual Orsini foi a única vítima. Gato escaldado, convoca todos os cardeais que não votaram em Rodrigo Borgia para depô-lo juridicamente: de acordo com a lei canônica, o Papa pode ser deposto se se comprovar que fornica, de forma pública e notória.

Os cardeais pretendem acusar o Papa por sua relação com Giulia Farnese mas Della Rovere é traído por Micheletto, que arma para que o cardeal seja acusado do assassinato da testemunha do caso.

Alexandre 6º percebe a fragilidade da sua situação, visto que foi eleito pela maioria mínima exigida [14 de 24], e procura a ajuda do mesmo especialista em direito canônico que aconselhou Della Rovere, o dottore Johannes Burchart. Johannes o aconselha a reforçar a “base aliada” aumentando o número de deputados cardeais no Colégio.

Pequena nota pessoal: O dottore Johannes exclamando “Oh boy” ao perceber que o Papa sabia que foi ele quem descobriu como depô-lo do Trono de São Pedro!

O Cardeal Sforza [reconheço esse nome de algum lugar relacionado a Da Vinci…] foi o terceiro porquinho, o mais esperto: transferiu seus votos para Rodrigo Borgia e comprou assim o cargo de Vice-Chanceler [e a vida, talvez].

Contagem de corpos [relevantes]: 1 morte natural, 2 assassinatos, 1 macaco.

Momento didático: o teste “bene pendente“.😆

15 comentários sobre “[The Borgias] The Poisoned Chalice/The Assassin

  1. Oi, Naomi;

    O Vaticano era um reino como outro qualquer, com a vantagem que o papa mandava no pedaço dele e nos dos demais. Uma leitura edificante é “Os reis malditos” de Maurice Druon. A descendência de Felipe, o Belo também daria uma belíssima série principalmente por conta da filha de Felipe, Isabel – a única entre os quatro irmãos a realmente usar calças. Ela não podia herdar o trono (por conta da lei sálica) e acabou casada com um rei inglês que a-ma-va os pedreiros que estavam reformando seu castelo. Sem poder ser rainha na França, foi ser rainha (regente) na Inglaterra, enquanto na França o trono, depois de sentarem-se nele os três filhos varões de Felipe, o Belo, acabou nas mãos do irmão deste (e aí começou a Guerra dos Cem Anos).
    Enfim. A França mandou e desmandou nos destinos do Vaticano (e do mundo) por muito tempo (foi por ação do filho de Felipe, o Longo que os cardeais passaram a ser trancados quando da escolha do novo papa) e, por isso, “Os Reis Malditos” nos dá uma visão brilhante de como fé, caridade e espiritualidade nada tinham a ver com a Igreja – o que também deve nortear esse “Borgias”.
    Bjs

  2. Eu tenho o Borgias em algum lugar aqui no computador. Agora que vc fez esse ótimo post, fiquei com muita vontade de assistir! (sempre abismada com tanta coisa interessante que vc posta. Adorei o teste do ‘testis’.

      • Eu baixei The Borgias desde que começou a passar, mas não via pq o episódio inicial era duplo e eu sempre lembrava já madrugada, e não me animava para começar um episódio tão longo de uma única vez.
        A Thais Afonso vivia fazendo comentários de amor à Lucrecia e eu só na vontade, mas sem o ânimo necessário. Até que seus posts (os quais não li, pq queria ver antes) deram o empurrãozinho que faltava. Acabei vendo metade do piloto em um dia e a outra metade no dia seguinte (se eu tivesse feito isso desde o início, não teria me atrasado tanto). Adorei.

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