The King’s Speech / O Discurso do Rei e O Verdadeiro Discurso do Rei

Finalmente assisti ao filme vencedor do Oscar deste ano, mas antes de comentar o filme e o documentário O Verdadeiro Discurso do Rei deixa eu rever um pouco do contexto histórico [ai que chique!].

George 3º sofria de uma doença – possivelmente porfiria – que o deixou louco. Seu filho George tornou-se Príncipe Regente [v. As Loucuras do Rei George / The Madness of King George, 1994 – faço de tudo pra incluir esse filme quando falo da monarquia britânica!]. Quando Prinny recebeu a coroa após o falecimento do Rei Louco assumiu o título de George 4º e morreu sem gerar um herdeiro, passando o trono para o irmão William 4º, que se tornou mais conhecido por ser o predecessor da Rainha Victoria [v. A Jovem Rainha Vitória / The Young Victoria, 2009].

O filho mais velho de Victoria e Albert sucedeu à mãe [Edward 7º], que deixou o segundo filho como herdeiro da monarquia porque o mais velho faleceu antes do pai. Coroado em 1911,  George 5º foi quem alterou o nome da família de Saxe-Coburg para Windsor, por causa do sentimento anti-germânico que surgiu na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial. Foi durante seu reinado que nasceram os movimentos de libertação da Índia, de republicanos na Irlanda, o socialismo e o fascismo na Europa.

Albert Frederick Arthur George era o segundo filho de George 5º, irmão mais novo do que Edward 17 meses. Pobre Bertie já nasceu no dia errado, no aniversário de morte do avô. Para evitar que Vovó Victoria antipatizasse com a criança, o pai sugeriu batizá-lo com o nome de Albert. Mesmo com a bênção real Bertie ainda tinha problemas familiares: um pai rígido e um irmão bullying. Junte esses fatores com uma governanta sádica e temos uma criança que começa a gaguejar.

George 5º faleceu em 1936, quando um outro movimento social começava a se espalhar na Europa: o nazismo. Seu filho mais velho sucedeu o cargo como Edward 8º e é mas ou menos aí que o filme começa.

O filme

O tema principal de O Discurso do Rei é a relação entre o terapeuta da fala Lionel Logue e Bertie, da técnica que incluía teatro, canto e exercícios físicos para fortalecer a musculatura até a abordagem psicológica para descobrir a origem da gagueira. No pano de fundo, o roteirista David Seidler incluiu os momentos finais de George 5º, o breve reinado de Edward 8º e a entrada da Grã-Bretanha na Segunda Guerra Mundial.

O ator Michael Gambon interpretou o pai de Bertie e ficou muito parecido fisicamente. Sua atuação tornou fácil para mim, como espectadora, simpatizar com o pobre Bertie: impaciente, ríspido, frio. Essas características se ressaltavam quando víamos Bertie em casa, com a esposa e as filhas: um pai participante e carinhoso, tratado com familiaridade e respeito.

Agora, xeu comentar uma coisa rapidinho: estranhei por demais a abordagem feita sobre Edward. Primeiro achei que fosse problema do ator [Guy Pearce, que nunca mais conseguirei desvencilhar do arrivista de Um Faz-de-conta Que Acontece], mas não. Mostraram Edward como um egoísta, fraco e dominado por uma mulher fútil. Edward é obcecado por Wallis Simpson, descuida dos deveres, chora feito criança no ombro da mãe quando o pai morre. O filme dá a entender que Wallis o escravizou através do sexo e, quando ele não suporta mais ficar longe dela, abandona o posto de forma covarde. O que o filme não aborda nem de passagem é que eles associam-se [ou no mínimo simpatizam] com o nazismo.

O título cai no colo de Bertie como uma bomba: os discursos reais começavam a ser transmitidos via rádio em tempo real desde o reinado de seu pai, e filmados para exibição na TV e cinema. Ele teve o incrível azar de estar no meio da revolução tecnológica, atingindo um número muito maior de súditos do que os antigos monarcas.

Se isso não fosse pressão suficiente, adicione uma Europa novamente em guerra e de novo contra a Alemanha. Bertie precisa restaurar a fé do povo na família real, unir os súditos contra o nazismo e liderá-los numa guerra tão pouco tempo após a guerra anterior. O filme mostra a luta pessoal do rei pra superar seus medos e inseguranças e alcançar esses objetivos – não é de se estranhar ter conquistado o Oscar.

[Tá, Tia Batata, mas por que Bertie virou George 6º? Dois motivos: Albert estava associado à ascendência alemã e George relembraria ao povo o rei anterior – que pode ter sido um mau pai, mas foi um bom rei.]

Colin Firth foi tão bem no papel do rei gago, com uma dose certa de insegurança, frustração, tensão e uma certa ternura, que a gente até esquece que ele é anti-monarquista. Firth apóia a república publicamente, mas sua atuação foi tão convincente que garantiu um Oscar  e o título de Commander of the British Empire, concedido pela Rainha Elizabeth 2ª [filha de Bertie].

Geoffrey Rush e Helena Bonham-Carter como Lionel Logue e a Rainha-Mãe completam o trio que dá forma ao filme. Rush tem força o bastante para dominar as cenas, mas discordo de quem acha que HBC é figuração de luxo: com pouquíssimo tempo em tela, ela conseguiu dar a dimensão exata dos motivos pelos quais foi tão amada pelo povo inglês, mesmo os anti-monarquistas. Ela não precisa fazer piruetas, mostrar os peitos, gritar e abanar os braços pra mostrar que atriz talentosa ela é.

E, para fãs de Jane Austen em geral e da versão da BBC para Orgulho & Preconceito em especial, o filme traz um mimo: Jennifer Ehle no papel de Myrtle Logue. Mr. Darcy e Lizzie Bennet juntos de novo! [Mesmo que durante poucos segundos.] Eu fiquei “aaah!” o tempo todo. A rainha levou tudo numa boa.😉

O Verdadeiro Discurso do Rei [The Real King’s Speech, Inglaterra/2011] é um documentário feito para TV de pouco mais de 40 minutos produzido pelo Channel4. Três antigos pacientes de Lionel Logue falam sobre o terapeuta e os métodos que utilizava: um foi curado, um ainda gagueja um pouco e outro continuou do mesmo jeito. Eles contam como ouviam os discursos de George 6º torcendo para que fizesse os movimentos corretos, inclusive o filho do líder fascista da Inglaterra, que frequentava o consultório de Logue na mesma época que o rei.

O documentário mostra gravações em vídeo e áudio dos discursos – uma delas é a versão não-editada, que exibe a dificuldade que Bertie tinha para falar em público, a tensão das pessoas em volta. Eu não chorei no filme, mas abri o berreiro no documentário. Além dos ex-pacientes fofos, entrevistaram biógrafos da família real, da Rainha, de George 6º e o roteirista do filme, que contou que O Discurso do Rei só saiu depois da morte da Rainha-Mãe porque ela pediu.

Os biógrafos contam mais detalhes sobre fatos ou não mencionados ou abordados superficialmente na versão cinematográfica, como a atitude hostil do Arcebispo da Cantuária, e se estendem até o fim da Guerra, além do ponto em que o filme termina. Vale a pena procurar, sei que o canal NatGeo exibiu há pouco tempo.

E vale a pena também ouvir os discursos que a BBC disponibilizou no site: ajudam a entender a escalação de Colin Firth no papel de um homem de 30 anos de idade: ambos têm o mesmo timbre de voz.

O Verdadeiro Discurso Do Rei [Parte 01-04] dublado [narração] e legendado [entrevistas]


Link http://www.youtube.com/watch?v=yV5o5e9GYho

Galeria de imagens do filme e do documentário

No iMDB

Título: O Discurso do Rei
Título original: The King’s Speech
• Direção: Tom Hooper
• Roteiro: David Seidler
• Gênero: Drama
• Origem: Inglaterra
* Ano: 2010
• Duração: 1h58min

Elenco
Colin Firth … King George VI
Helena Bonham Carter … Queen Elizabeth
Derek Jacobi … Archbishop Cosmo Lang
Robert Portal … Equerry
Richard Dixon … Private Secretary
Paul Trussell … Chauffeur
Adrian Scarborough … BBC Radio Announcer
Andrew Havill … Robert Wood
Charles Armstrong … BBC Technician
Roger Hammond … Dr. Blandine Bentham
Geoffrey Rush … Lionel Logue
Calum Gittins … Laurie Logue
Jennifer Ehle … Myrtle Logue
Dominic Applewhite … Valentine Logue
Ben Wimsett … Anthony Logue
Freya Wilson … Princess Elizabeth
Ramona Marquez … Princess Margaret
David Bamber … Theatre Director
Jake Hathaway … Willie
Michael Gambon … King George V
Guy Pearce … King Edward VIII
Patrick Ryecart … Lord Wigram
Teresa Gallagher … Nurse
Simon Chandler … Lord Dawson
Claire Bloom … Queen Mary
Orlando Wells … Duke of Kent
Tim Downie … Duke of Gloucester
Dick Ward … Butler
Eve Best … Wallis Simpson
John Albasiny … Footman
Timothy Spall … Winston Churchill
Danny Emes … Boy in Regent’s Park
Anthony Andrews … Stanley Baldwin
John Warnaby … Steward
Roger Parrott … Neville Chamberlain

The Real King’s Speech – King George VI – September 3, 1939

Link http://www.youtube.com/watch?v=opkMyKGx7TQ

13 comentários sobre “The King’s Speech / O Discurso do Rei e O Verdadeiro Discurso do Rei

  1. Gostei imensamente deste filme. A aflição do rei tentando falar sem conseguir me comoveu. HBC dá show, sim, principalmente porque consegue passar tanta força aparecendo tão pouco. O documentário eu também vi, e achei muito legal que Lionel Rogue tenha recebido as honras merecidas.

  2. “Eu não chorei no filme, mas abri o berreiro no documentário” [1]
    Uma das demonstrações mais inglesas da família real foi a recusa da rainha em sair de Londres, quiçá da Inglaterra, mesmo com os bombardeios (“As crianças não irão sem mim. Eu não deixarei o Rei e o Rei nunca deixará seu povo.”)
    Eu tinha uma gravação da família real – não editada. Depois do discurso do rei o locutor diz que as princesas falarão, e aí você ouve a vozinha da Elizabeth II sussurrando ao fundo:
    “Vai, Margareth, é sua vez de falar!”

  3. Já, no meu caso, nunca mais conseguirei desvencilhar Guy Pierce da enloquecida Felicia de “Priscila, a rainha do deserto”. Se Titia Batata não viu ainda, veja, é ótimo. O Guy Pierce é um excelente ator, mas optou por trabalhos mais alternativos e, de vez em quando, aparece numa ‘grandesuperprodução’ e nem sempre dá certo. De resto, o Discurso do Rei é maravilhoso, o Rush é show e o Firth, como diria um amigo meu, é um gato (talentoséssimo, claro).

  4. uau!!!
    Ainda não vi esse filme (procê ver, pretendo ver a origem hoje na tv, não tenho mesmo pressa de ver os lançamentos), mas agora já fiquei com cosquinha…

    Parabéns por aplicar tão bem o método de leitura+pesquisa+contexto também às críticas de cinema, essa ficou sensacional! Titia Batata dá uma aula de história, e das boas!

    Juro que não consigo imaginar Timothy Spall como Churchill, mas essa eu quero ver!🙂

    Também fiquei imaginando o que teria acontecido se Edward não tivesse renunciado… não teríamos a Rainha Elizabeth tanto tempo no trono, Lady Di, nem aquele pretzel horroroso… rs

    Baccio!

    • hahahaha! boa lembrança, o chapéu da princesa beatrice!

      eu tenho um problema com oba-oba: quanto maior, menor o meu interesse pelo objeto. de tanto o povo falar “aaah, discurso é legalzinho mas não é pra oscar” me deu vontade de ver antes do prazo de 1 ano que costumo demorar pra assistir aos filmes.

      vai rolar resenha de inception?😉

      • tem prazo de um ano? aqui vejo os lançamentos quando dá, geralmente quando passa na TV ou se topar com um bom link, mas não tenho pressa mesmo… pra ver no cinema só mesmo HP ou os filmes ‘crepúsculo’ (vou de carona com as filhotas, vi eclipse na estréia e rolei de rir com a gritaria das menininhas)

        tô pensando aqui na resenha, vamos ver se rola, o duro é vencer a inércia e começar a escrevinhar…😉

  5. Pingback: Rato de Biblioteca » Blog Archive » Semana do Rato

  6. Pingback: O Discurso do Rei, por Luciana Naomi « Cinema é Magia

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s