Desafio Clássico | A Vampira de Sussex & Outras Aventuras

No mês passado, comprei uma caixa contendo três livros protagonizados pelos detetive-consultor inglês Sherlock Holmes, criação de Sir Arthur Conan Doyle. Eu já tinha lido dois deles [Um Estudo em Vermelho e O Signo dos Quatro], então só me restava A Vampira de Sussex pra colocar na lista de leitura do Desafio Clássico. Só depois de abrir o livro é que descobri que se trata de uma coletânea de contos – espero que continue valendo mesmo assim.

Os seis contos fazem parte de The Case-Book of Sherlock Holmes [O Arquivo Secreto de Sherlock Holmes, no Brasil], que reúne doze histórias publicadas na Strand Magazine entre 1921 e 1927 e contam os últimos casos do detetive antes da sua aposentadoria, em 1905, conforme relatos do Dr John Watson.

Ilustração: Howard. K. Elcock

“A Pedra Mazarino” [The Adventure of the Mazarin Stone] – outubro de 1921

Serve mais como uma apresentação, caso seja um leitor de primeira viagem das aventuras de Sherlock Holmes. As manias, os  humores e talentos, a amizade com o Dr. John Watson, tudo está condensado neste conto em que Holmes precisa descobrir o paradeiro de um diamante raro, mais para esfregar na cara de uma pessoa que não confia na sua habilidade do que propriamente para fazer justiça.

“A Ponte de Thor” [The Problem of Thor Bridge] – fevereiro / março de 1922

Traz uma personagem brasileira [manauara, mais especificamente] e, de certa forma, me lembra um pouco de Jane Eyre – é como se fosse a história contada pelo ponto de vista de Bertha Mason. Sherlock tem de solucionar o caso da morte da esposa de um homem apaixonado pela governanta.

“O Homem que Rastejava” [The Adventure of the Creeping Man] – março de 1923

Um plot mencionado numa das aventuras de Hercule Poirot [Agatha Christie] parte da seguinte questão: por que o cachorro mordeu seu dono? E tem uma das melhores frases que demonstram a natureza sherlockiana: “Venha imediatamente, se não for incômodo; se for, venha da mesma forma'”.

“A Vampira de Sussex” [The Adventure of the Sussex Vampire] – janeiro de 1924

Desta vez traz uma personagem peruana, que o marido crê ser uma vampira após flagrá-la debruçada sobre o berço do filho com sangue nos lábios. Há alguns elementos góticos no conto, mas a solução é bem prosaica e nada sobrenatural.

“Os Três Garridebs” [The Adventure of the Three Garridebs] – janeiro de 1925

Talvez o meu conto favorito no livro, explora ganância e traz o vilão mais gostável de todos. Dois homens contratam Sherlock para que ele localize um terceiro com o mesmo sobrenome e os três possam, assim, receber uma herança milionária.

As Três Empenas” [The Adventure of the Three Gables] – outubro de 1926

Após receber uma ameaça de um chefão do crime para não interferir num caso, Sherlock decide interferir e descobrir qual o interesse dele na casa simples de uma senhora idosa que perdeu o filho recentemente.

O conjunto

Os contos deste volume não são whodunits em que as tramas apresentam pistas para que o leitor desvende a identidade do criminoso, com exceção talvez de “A Ponte de Thor”. Nos demais, o leitor é mero passageiro conduzido pela narrativa até seu desfecho, sem chance de participar da história.

Conan Doyle já escrevia as aventuras de SH há 40 anos, já o matara uma vez e por essa época andava mais interessado em espiritualismo e sessões mediúnicas. Nenhum dos seis contos apresenta uma solução sobrenatural, mas “O Homem Que Rastejava” aplica pseudociência ao caso – o que pareceria dar um ar de ficção científica futurista na época hoje soa datado e absurdo.

E por falar em época, Doyle também replicou os preconceitos e estereótipos do seu tempo, da sua nacionalidade e classe social em todos os contos, algo que eu já tinha percebido nos outros livros dele que li. Isso me desapontou um pouco e interferiu na avaliação do livro, sem dúvida.

Dos seis contos, dois envolvem ganância e quatro retratam as consequências do amor desvirtuado. No conjunto deixam uma impressão sombria da natureza humana, mas, para o leitor aficionado, traz alguns detalhes que compõem a mitologia do detetive-consultor que ficou tão famoso que as pessoas acreditavam que existiu de verdade, como a caixa metálica em que o Dr Watson guardava seus escritos num cofre de banco e o comportamento cada vez mais inconstante de SH devido ao abuso de drogas.

Jeremy Brett e David Burke (Holmes e Watson, Granada ITV)

Adaptações

Até onde pesquisei, todos os contos foram adaptados pelo menos uma vez, ou em filme ou na série de TV produzida pela Granada com Jeremy Brett no papel principal. Cheguei a baixar The Last Vampyre, o título da adaptação de A Vampira de Sussex, mas não deu vontade de assistir depois que terminei o livro [e olha que deu um trabalho danado pra achar porque o Google insiste em corrigir pra “vampire” e aí acaba indicando links de uma série de vampiros]. Quem sabe numa segunda leitura, no futuro.

The Adventure of the Sussex Vampire em inglês na BBC.

Título: A Vampira de Sussex
Título original: The Case-Book of Sherlock Holmes [Inglaterra/1927]
Autor: Arthur Conan Doyle
Tradução: Antonio Carlos Villela
Editora: Melhoramentos
Ano: 2011
Páginas: 240

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Clássico, proposto pelo blog Nem Um Pouco Épico [v. minha lista de leitura].

4 comentários sobre “Desafio Clássico | A Vampira de Sussex & Outras Aventuras

  1. ainda não li muito do Conan Doyle, só o cão dos baskervilles, um estudo em vermelho e o signo dos quatro. Mas pelo contexto (sempre o contexto!) que você apresentou, esses contos não devem ser os melhores dele; depois que matou o Sherlock, Doyle devia estar meio cansado do personagem, e só continuou pela pressão do público e dos editores; é de se esperar que o antigo entusiasmo estivesse meio murcho…

    Acho que valeria a pena procurar outros contos mais antigos, quem sabe a impressão muda? Acho que vou marcar aqui, “pegar emprestado a coleção do Sherlock com o irmão”… hehe

    Beijos!

  2. eu já li um bocado de Conan-Doyle, mas esse livro de contos eu não tenho. e confesso que prefiro ler os romances ao invés dos contos – um estudo em vermelho vai ser sempre o meu favorito (até agora, pelo menos. rs)
    ps: gostei do lay novo. =)

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