Lost in Austen

Lost in Austen

 É uma verdade universalmente conhecida que todos nós desejamos escapar.

A primeira frase da personagem Amanda Price parafraseia a famosa abertura do romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Amanda recorre ao livro para escapar da realidade do emprego tedioso, do apartamento que divide com a amiga Pirhana, do namorado desinteressante, da vida mais-ou-menos que leva. Ela recusa o pedido de casamento de Michael porque aspira por um romance igual ao de Lizzie Bennet e Mr. Darcy.

Amanda chega a preparar noites especiais para reler o livro quando Pirhana e Michael têm outros compromissos [e eu não consegui evitar, lembrei de Renee Zellweger cantando All By Myself na cena inicial de O Diário de Bridget Jones]. Numa dessas noites ela encontra Elisabeth Bennet no banheiro, que tem uma porta interdimensional atrás da banheira. Amanda acaba indo para a Longbourn de 200 anos atrás e Lizzie permanece na Londres moderna.

Essa é a premissa da minissérie em quatro episódios exibida pela ITV em 2008 e que de certa forma realiza o sonho de leitoras fãs de Jane Austen, que imaginam como seria se pudessem entrar nos livros e viver aquelas aventuras.

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Jane Eyre [1934]

Jane Eyre 1934

Após uma pausa, estou de volta à missão de assistir ao máximo de adaptações de Jane Eyre em que conseguir botar as mãos. Esse hiato foi provocado tanto pela paródia de 1949 quanto por esta versão de 1934 [disponível para download em domínio público no Archive.org], que só tem a seu favor o fato de ser a primeira adaptação falada do livro de Charlotte Brontë para cinema – as anteriores eram todas mudas.

Até pouco tempo, havia uma estereotipagem capilar quanto à natureza das personagens: mocinha, boazinha, vitimazinha? Loura. Vilã, louca, malvada, madrasta? Morena. Acho que é isso o que explica a escalação de duas atrizes platinadas e de cabelo cacheado nos papeis de Jane criança e adulta. Virginia Bruce era tão linda que ganhou diversos papeis de mulher fatal e sedutora, o que não tem nada a ver com a governanta sem-graça do filme. Ou que deveria ser a  governanta sem-graça, já que a Jane Eyre deste filme porta-se de maneira arrogante e pedante desde o início.

Seu parceiro de cena Colin Bruce até é relembrado pelos papeis mais angustiados no final da carreira [ele morreu cedo, apenas três anos após gravar este filme], mas entregou um Rochester demasiado suave, que se apaixona demasiado rápido. O roteiro de Adele Comandini é raso e tornou a história cansativa, a ponto de eu achar que o filme dura muito mais do que os meros 62 minutos.

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Jane Eyre [1949]

Jane Eyre 1949

A rede de TV norte-americana CBS tinha uma série que se propunha a apresentar adaptações dos clássicos da literatura em uma hora [ou pouco menos, tirando os comerciais] chamada Studio One. Essa série apresentou duas versões de Jane Eyre, uma em 1949 e outra em 1952. A de 1949 é fácil de achar no arquivo de obras em domínio público, a de 1952 eu ainda estou à procura.

A proposta da tv é interessante, até acharia o máximo ver algo parecido para o público brasileiro, mas, dentro do meu desafio de assistir ao máximo de adaptações possível, essa versão de 1949 fica no fundo do poço das que já vi.

Olhe para as minhas coxas, Jane, e apaixone-se loucamente por mim.

Eu já comentei algumas vezes que não consigo identificar períodos de época pelo figurino, mas neste caso nem preciso ser uma especialista em história da moda para perceber que está tudo errado. E não apenas as roupas:  o cenário é o de uma casa classe média ianque, a “biblioteca” é uma estante de livos, Mr. Rochester nem ao menos tem um quarto e Bertha bota fogo num jornal debaixo da poltrona dele.

Aliás, repare no trupicão que a atriz leva ao descer a escada quando vai incendiar o marido, hilário! Ela para, dá uma olhadinha espantada e continua a descer com cara de louca.

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Jane Eyre [1997]

Ciarán Hinds e Samantha Morton - Jane Eyre 1997

Eu sou paixonada pelo ator irlandês Ciarán Hinds desde a série Roma, quando ele interpretou o imperador Júlio César. Há tempos estava ansiosa para ver essa versão de Jane Eyre em que ele dá vida a Edward Rochester ao lado de Samantha Morton [Minority Report]. Assim como aconteceu na versão 2011, Hinds e Morton tinham idades compatíveis com as de seus personagens literários na época do lançamento do filme [44 e 19, respectivamente].

O filme feito para TV estreou no canal A&E nos EUA apenas um ano depois da versão feita para o cinema dirigido por Franco Zefirelli [aquele com William Hurt e Charlotte Gainsbourg]. Com apenas 108 minutos de duração, o roteiro corta muitas passagens do livro que nem são mencionadas e toma outras liberdades.

A partir deste ponto há spoilers

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Jane Eyre [1983]

Jane Eyre 1983

Eu costumo gostar das adaptações que a BBC faz de obras literárias porque mantém o máximo de fidelidade à letra e ao espírito do livro, com alterações mínimas. Além disso, o próprio formato minissérie é mais adequado no caso de histórias extensas como Jane Eyre, da escritora inglesa Charlotte Brontë.

No caso da adaptação exibida em 1983, por exemplo, foram onze episódios totalizando quatro horas. Isso deu tempo suficiente para abordar todas as fases da vida da órfã Jane desde a morte do tio e guardião Mr. Reed em Gateshead Hall, passando pelo período em Lowood, em Thornfield Hall e em Moor House, até chegar a Ferndean.

Personagens e fatos excluídos de outras adaptações encontram espaço no roteiro de Alexander Baron e por enquanto essa foi a versão mais fiel que assisti [lembrando que só vi as de 1944, 1970, 1983, 1996, 2006 e 2011 – e estou com as de 1949, 1973 e 1997 na fila].

A partir deste ponto há spoilers

Uma cena icônica: Jane Eyre de castigo no banquinho

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Jane Eyre [1970]

Detalhe de uma das capas de DVD

O que fazer quando você é a pessoa deslocada que não gostou de um filme no meio de todos os outros que amaram? [E por você leia-se eu.] Aproveitei que dei conta de assistir à versão 2011 de Jane Eyre sem legendas [meu listening é ruim] e fui assistir á versão de 1970 – dá pra baixar legalmente porque está em Domínio Público [e portanto posso botar o link aqui, hehehehe…] Não é integral, mas são apenas 11 minutos de corte que não parecem ter interferido muito na impressão geral – de qualquer  forma, é exatamente a mesma duração dos dvds disponíveis no mercado, porque os rolos originais de 35mm foram destruídos.

Feito originalmente para exibição na TV, faz parte de uma trilogia da NBC junto com O Morro dos Ventos Uivantes [com Timothy Dalton no papel de Heathcliff] e David Copperfield [com Laurence Olivier]. Jane Eyre 1970 foi exibido no Brasil com o título O destino de uma paixão – senquisgóde esse título se perdeu e o DVD nacional saiu como Jane Eyre mesmo.

A trilha sonora de John Williams venceu o Emmy e o ator principal, George C. Scott, levou o Oscar – não por este filme, claro, porque foi feito para TV [embora fosse exibido em cinemas na Europa] e sim por Patton: Rebelde ou heroi?. Ele recusou e devolveu o Oscar, mas isso não vem o caso aqui.

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Jane Eyre [2011]

Jane Eyre 2011

Em um episódio de Phineas & Ferb [“A hard day’s knight”, S01E11, exibido em 14/6/8], os personagens repetem uma frase diversas vezes: “Ouvi dizer que estão fazendo uma nova versão de Jane Eyre”. Não era só frase de efeito, era verdade mesmo.

Na época a sensação geral era de que não tinha necessidade, afinal a própria BBC exibira uma adaptação para TV em 2006 que foi muito elogiada e que mereceu até uma indicação ao Emmy para sua atriz principal [Ruth Wilson]; era muito recente.

As notas sobre contratação de diretor e escalação de elenco saíam em meio a boatos – quem acompanha o PdUBT desde aquela época deve se lembrar de alguns, como a agência EFE confirmando Ellen Page para o papel principal. Três anos depois o filme estreia nos EUA com Mia Wasikowska [Alice de TIm Burton] e Michael Fassbender [X-Men First Class] com o par central.

A partir deste ponto há spoilers.

Mr Brocklehurst (Simon McBurney), patrono da Escola Lowood

A roteirista Moira Buffini optou por usar o recurso do flashback para contar a primeira parte da história do livro de Charlotte Brontë, iniciando o filme já na parte em que St. John Rivers e suas irmãs encontram Jane desfalecida na chuva. Foi uma opção válida, mas não sei se a audiência que não leu o livro conseguiu captar o desenvolvimento da personagem, de uma menina “sedenta de amor” cheia de vida, coragem e paixão de viver que teve seus direitos sonegados até ser dobrada por uma disciplina cruel e fria.

Nesse ponto me rendo à interpretação de Mia Wasikowska. A jovem atriz conseguiu transmitir pelo olhar, pela postura corporal e pela entonação de voz aquilo que o roteiro deixa subentendido. Fiquei agradavelmente surpresa com a atuação dela, e olhe que não botava muita fé. Mesmo num momento em que achei que o roteiro estava indo por um caminho errado [quando Jane se joga na chuva depois de abandonar Edward, uma passagem que está no livro mas muito menos dramático] a atriz mantém a dignidade da personagem.

“Posso viver sozinha, se o respeito próprio e as circunstâncias exigirem que o faça. Não preciso vender minha alma em troca da felicidade. Tenho um tesouro íntimo que nasceu comigo, e que pode me manter viva se todos os prazeres externos me forem negados, ou oferecidos apenas a um certo preço, que não posso permitir-me pagar.” [Jane Eyre de Charlotte Brontë, trad. Marcos Santarrita, Francisco Alves Editora]

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