O assassinato retrospectivo – parte 5

A senhora era a única filha e neta, criada como a herdeira intocável a quem nada era negado. A senhora adorava seu tio. Era o seu deus. Deve ter sofrido um choque quando ele surgiu com uma noiva. De uma hora para outra ele já não era seu deus-escravo e era preciso puni-lo, por isso o matou. Creio que foi a senhora também quem espalhou os boatos sobre a traição da noiva, que conspurcou seu deus. A senhora desejou sujar o nome dela, não foi? Do mesmo modo que uma criança faria.

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O assassinato retrospectivo – parte 4

D. Agripina vivia sozinha; nunca se casara, não tivera filhos, não tinha empregados. Nem mesmo um cão ou peixes dourados no aquário seco sob a janela da sala. E, no entanto, mantinha no armário roupas de um homem de aproximadamente 1,84m, 75 – talvez 78 kg. A descrição batia com as medidas do desaparecido. O que todas aquelas roupas faziam ali, no quarto de uma solteirona arruinada? Fechei a porta do guarda-roupa e sentei na beirada da cama, pensamentos voando.

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O assassinato retrospectivo – parte 2

Voltei a mirar a fotografia de um homem de cabelos lisos, sorrindo para a lente da câmera, o braço esquerdo em volta da cintura de uma menina loura com os cachos presos em dois rabos-de-cavalo, de pé sobre um degrau.

— Foi no dia da minha comunhão — ela depositou a bandeja com o café e biscoitos sobre a mesinha de centro, afastando no mesmo movimento o vaso de violetas e o cinzeiro de cristal amarelo, vazio.

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O assassinato retrospectivo – parte 1

– Era tão moço — suspirou — e tão bonito.

As palavras de D. Agripina mal penetravam em meu cérebro enquanto virava as páginas do álbum de fotografias.

— Morreu de quê, D. Agripina?

Os olhos, era isso. Mesmo através das fotos em preto-e-branco, muitas quase desbotadas, era possível perceber que eram olhos tristes. Olhos que encaravam diretamente a lente da câmera

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O porco voador

flying_p.gifJorge Porco era um leitãozinho rosado que morava com Papai Porco, Mamãe Porco e seus irmãos Porco numa chácara no interior de Portugal. Quando Mamãe Porco estava grávida de Jorge e seus sete irmãos teve um sonho estranho: um anjo apareceu em uma nuvem ao nascer do sol. O anjo era humano – digo, tinha formas humanas. Não que fosse humano, você entende. Anjos não são humanos. Alguns são bem cruéis, até.

A voz do anjo dizia à Mamãe Porco coisas que ela não entendia. Não era comida, não era banho nem era vacina. Algumas palavras soavam como enviado, paz e missão. Ela contou o sonho a Papai Porco mas ele também não entendeu a fala do anjo. Discutiram o dia inteiro a respeito do sonho e por fim decidiram que, sim, podiam comer mais um balde de milho antes de dormir.

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Carpe Diem

Olhou para o lado: sim, ele estava ali. Lembrou-se de quantas vezes sonhou com isso, de quantas vezes desejou isso, e se acalmou.

No colégio era a amiga para todas as horas, a companheira intelectual perfeita, dizia. Intelectual? De que serviam neurônios e sinapses se tudo o que queria era ser linda de um modo que nem ele pudesse recusar? Sofreu quando ele se interessou por outra e se afastou. Chorava à noite e sorria de manhã… Afinal eram bons amigos.

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