Desafio Literário | Agatha Christie’s Secret Notebooks: Fifty Years of Mysteries in the Making

Sinopse
Agatha Christie: 66 romances policiais, 20 peças de teatro, 6 romances sob um pseudônimo e mais de 150 contos. Quais são os mistérios que explicam tamanho sucesso?

Em 2004, um incrível legado foi revelado: Descobertos entre outros objetos deixados na casa da família de Christie estavam seus diários – 73 cadernos escritos à mão com notas, listas e desenhos que apresentavam seus planos para diversos livros, peças e contos. Entre essas relíquias, observações, pistas e notas sobre seus famosos livros, que fascinam gerações de leitores.

Repleto de detalhes que a modesta autora jamais revelou, Os Diários Secretos de Agatha Christie inclui dois contos inéditos de Poirot. Imperdível! [Extraído da edição brasileira]

Capa

Quando a escritora inglesa Agatha Christie faleceu, ela deixou sua propriedade Greenway House para a filha Rosalind. Greenway era a casa de verão da família no Devon desde 1938 e após o falecimento de Rosalind passou para o National Trust para ser reformada, entrando no circuito de jardins abertos à visitação pública.

O neto de Agatha então convidou um dos conselheiros da fundação que cuida do legado da autora para um fim de semana na casa, antes da reforma. Num dos quartos-depósitos, John Curran encontrou uma caixa de papelão repleto de cadernos: durante o resto do fim de semana ele só saiu do depósito para dormir [pouco] e comer [arrastado por Mathew Pritchard, seu anfitrião].

Curran trabalhou durante quatro anos nos cadernos de notas [e não “diários”, como aparece em alguns sites e traduções] decifrando, interpretando, organizando e relacionando as anotações ao seu respectivo romance/conto/peça teatral. As duas maiores dificuldades que ele mesmo aponta em seu livro foram decifrar a caligrafia de Agatha Christie e ordenar cada anotação cronologicamente.

O livro traz alguns fac-símiles de páginas dos cadernos de notas e, cara, vou te contar, não é fácil mesmo! Talvez porque os cadernos funcionassem como uma Penseira em que ela despejava suas ideias para analisá-las mais criticamente depois ou porque o pensamento é mais rápido do que a mão, a caligrafia da Dama do Crime parece de médico. Um médico que escreve em pé, sem apoio, entre uma corrida e outra.

Quanto à cronologia, Agatha não seguia os conselhos de sua criação: o detetive Hercule Poirot recomendava trinta e três vezes que a pessoa deve ter ordem e método, mas sua criadora preferia o “método caótico”: ela sempre tinha meia dúzia deles espalhados pelas casas, na bolsa, etc., voltando a usá-los após intervalos de meses ou anos; as ideias para um livro específico podem se espalhar em vários cadernos, variando entre uma linha a vinte páginas, sequenciais ou não; ela raramente datava as entradas.

The best time for planning a book is while you’re doing the dishes.
Agatha Christie

Continuar lendo

Desafio Literário | Cittá di Roma

Nada é impossível
Eu costumo dizer que um livro de memórias, além do prazer que dá escrevê-lo, trazendo lembranças antigas, resgatando amizades perdidas no tempo e no espaço, nos surpreende, por vezes, com gratas surpresas. Eu, que não tomo notas de nada, nunca possuí um diário, tiro tudo da memória à medida que vou escrevendo, além das amizades resgatadas, volto a sentir perfumes, sabores e relembro cores. [pág.70]

Capa

O livro de memórias Cittá di Roma começa contando a história dos avós da autora Zélia Gattai a partir de 1890 na Itália e termina com os seus netos e sobrinhos espalhados pelo Brasil em 2000. São seis gerações, cento e dez anos de mudanças sociais e muitas crônicas deliciosas de ler.

O tom é menos político do que seu livro de estreia [Anarquistas, Graças a Deus – também um livro de memórias] e ela enfoca mais a família mesmo. O avô ateu louco por uma brincadeira que batiza a filha mais nova de Hiena porque, como ele diz ao funcionário do cartório, “se o papa pode ser Leão, por que a filha não poderia ser Hiena?” O avô católico que trouxe a família, seduzido pela promessa de uma vida melhor nas fazendas de café do Brasil que recém aboliu a escravatura e que sê humilhado  e tratado como escravo num país racista e preconceituoso.

As duas famílias saíram do porto de Gênova no mesmo navio [o Cittá di Roma do título] mas só foram se conhecer anos depois em São Paulo, quando Ernesto Gattai e Angelina Dal Col se encontraram nas peças do teatro operário; ambos tinham só quatro anos de idade quando saíram da Itália.

Zélia é a caçula dos cinco filhos do casal, curiosa e perguntadeira. Das histórias contadas em família [na presença das crianças ou entreouvidas atrás de portas e janelas] e das “entrevistas” que a Zélia criança fazia com os tios e primos surgem as histórias desse livro. Elas seguem uma ordem quase cronológica, mas o estilo da escritora permite digressões. Em uma delas, me enterneci com a filha pequena de Zélia e Jorge Amado, que pede um filhote de panda para o pai trazer de lembrança da sua viagem à China.

Continuar lendo

Desafio Literário | Por Enquanto Eu Sou Pequeno

Sinopse
Aqui está um punhado dos mais divertidos versinhos para a introdução da poesia no universo de quem ainda está se alfabetizando. São instantâneos dos pequenos momentos da infância, quando o mundo começa a revelar-se aos olhos daqueles que, apenas por enquanto, ainda são pequenos!

Capa

Quando eu estudava no finalzinho do primeiro grau li “A marca de uma lágrima” do Pedro Bandeira, uma releitura de Cyrano de Bergerac [Edmond Rostand]. Tanto Cyrano quanto Lágrima estão na minha lista de TFF [Top Favoritos Foréva], portanto agarrei a oportunidade de ler outro Bandeira no mês do Infanto-Juvenil.

Só que não pesquisei muito a fundo e acabei com um livro para criança em fase de alfabetização – porém, dentro da proposta do DL [ler junto com as crianças nas férias], tá dentro do tema. 😉

Por Enquanto Eu Sou Pequeno é um livro curtinho [40 páginas] com versinhos para crianças – a maioria quadrinhas, mas tem algumas um pouco mais longas. Cada poema comenta um aspecto diferente da vida pelo ponto de vista da criança, para quem tudo é uma descoberta.

É um leitura leve e rápida, e é interessante por relembrar ao adulto como é estar sempre maravilhado pelas coisas da vida [que é o tema da aula de escrita criativa de Terry Pratchett na Universidade Trinity em Dublin: “The Importance of Being Amazed about Absolutely Everything” – v. vídeo no Youtube].

Entre os temas das poesias tem o circo, o cachorro da família, o irmão mais novo, medo do escuro, o soldadinho de chumbo, o futuro, a famíia, uma adivinha e até uma parlenda. Eu não “testei” com o sobrinho de três anos ainda, mas aposto que a de dez vai gostar.

Tudo tem serventia

Neste mundo tudo serve:
a cadeira para sentar,
nenê pra fazer cocô,
passarinho pra cantar,
a vassoura pra varrer
e o tempo pra passar!

Entrelinhas – Pedro Bandeira

Continuar lendo

Desafio Literário | O Meu Pé de Laranja Lima

Sinopse
Na obra juvenil mais conhecida de José Mauro, a pobreza, a solidão e o desajuste social vistos pelos olhos ingênuos de uma criança de seis anos. Nascido em uma família pobre e numerosa, Zezé é um menino especial, que envolve o leitor ao revelar seus sonhos e desejos, por meio de conversas com o seu pé de laranja lima, encontrando na fantasia a alegria de viver.

Capa

Advertência
Esse livro é muito triste. E o pais preocupados com o politicamente correto devem ser informados de que contém palavrões e eventos funestos.

Eu assisti à novela baseada no livro em mil novecentos e avião a lenha, lembro de nada da trama, e resolvi adicionar à lista do Desafio Literário porque pelo menos me lembro que gostava da novela. Comecei a ler no domingo à tarde, início do ano. Quando terminei, estava tomada duma tristeza sem par.

A história é narrada por Zezé, menino pobre de 5 anos que mora em Bangu, no Rio de Janeiro. A família é grande, o dinheiro pouco e Zezé precisa achar seu lugar na família e no mundo. No meio do sofrimento, o menino cria um mundo de fantasia para se refugiar e curar as muitas dores das surras diárias; nesse mundo seu melhor amigo é Minguinho oi Xururuca, o pé de laranja lima do fundo do quintal.

Zezé apanha muito porque faz muita arte: pra mim, ele apanha porque a família embrutecida pela miséria não consegue educá-lo nem pela sabedoria nem pelo exemplo, e ele faz arte porque esse é o único jeito de ter a atenção dos pais e irmãos mais velhos, tão acabrunhados pela tristeza de serem pobres que não conseguem perceber mais nada além disso. Zezé transborda de amor, mas não tem com quem compartilhar.

Continuar lendo

Desafio de Férias | To Sir Phillip, With Love

Capa britânica

Depois de devorar os quatro primeiros livros da série Bridgerton eu desacelerei um pouco e cheguei a To Sir Phillip, With Love com mais calma – o que foi estranho porque cronologicamente o início da história desse livro começa no meio do último capítulo do livro anterior [penúltimo se contar o epílogo]. Na verdade, começa até antes porque Eloise e Sir Phillip trocam correspondência durante um ano até conhecerem-se pessoalmente.

Eloise é a quinta Bridgerton, está com 28 anos de idade e já aceitara a ideia de ser uma solteirona [estamos em 1824, logo pós as guerras napoleônicas], planejando dividir uma casa com a melhor amiga Penelope Featherington, da mesma idade. Todos presumiam que Penelope permaneceria solteirona também, afinal, se Eloise rejeitara seis pedidos de casamento, Penelope nem mesmo fora pedida – até que Colin Bridgerton o fizesse [v. Romancing Mr. Bridgerton].

As perspectivas de Eloise são de um futuro solitário até que chega a última carta de Sir Philip Crane, o viúvo de uma prima distante dos Bridgerton. Ele tem duas crianças pequenas, uma casa que precisa de cuidados femininos, será que você não poderia dar um pulinho aqui e ver se de repente a sua tampa encaixa na minha panela?

Continuar lendo

Desafio Literário | Os Pequenos Homens Livres

Sinopse
Com apenas uma frigideira e seu bom senso, Tiffany Dolorida, jovem futura bruxa de 9 anos, é tudo o que há entre os monstros do Reino das Fadas e o Giz, sua terra natal. Forçada a seguir rumo ao Reino das Fadas para recuperar seu irmão sequestrado. A senhora do Reino das Fadas pretende dominar o mundo ao eliminar a barreira que separa realidade e sonhos. Com isso, monstros e vilões dos pesadelos e histórias da carochinha irão invadir o Disco e apenas Tiffany poderá impedi-la.
O único problema é que, apesar de toda sua coragem e determinação, Tiffany ainda não sabe usar seus poderes, que certamente serão necessários para salvar o mundo. Ela se alia aos Nac Mac Feegle, também conhecidos como Pequenos Homens Livres, um clã de pequenos seres azuis que adoram beber e se meter em uma boa briga. Juntos terão de enfrentar muitos perigos e desafios até o encontro com a Rainha.
A grande questão é: será que Tiffany conseguirá desenvolver seus poderes inatos até o confronto final com a Rainha?

Capa

Eee começamos o Desafio Literário 2011 com o pé direito! Não apenas é um livro de Terry Pratchett, mas também é um livro excelente – pode parecer redundância, e é mesmo.

A história se passa no Discworld, o mundo achatado como uma pizza nas costas de quatro elefantes que se apoiam sobre o casco da tartaruga interestelar Grande A’Tuin, porém não faz parte da série regular. É um livro para leitores mais jovens, assim como O Fabuloso Maurício e Seus Roedores Letrados, e portanto pode ser lido isoladamente, sem nenhum conhecimento prévio do universo criado por Pratchett.

Tiffany Dolorida é uma personagem adorável, muito estranha, que usa o próprio irmão caçula como isca para atrair Jenny Dentes-Verdes, um ser folclórico criado para manter as crianças longe de rios e lagos. Ela derrota Jenny, mas no dia seguinte seu irmão desaparece e ela é tomada por um enorme sentimento de culpa porque se ressentia dele por tomar seu lugar de caçula e por ser o único menino numa família com seis filhas. O remorso e a raiva pela petulância de raptarem seu irmão são o combustível que movem Tiffany, armada e perigosa.

Nunca subestime o poder de uma frigideira bem aplicada.

Tiffany é neta da única bruxa do Giz, só que não sabe disso porque o Barão proibiu a bruxaria depois que seu filho desapareceu um ano antes. O Giz não parece ser um lugar propício para formar uma bruxa, é macio demais – isso é o que pensa a Senhorita Carrapato, a bruxa estrangeira que identifica a existência de uma passagem entre o Reino das Fadas e o Disco e a potencialidade da menina.

Quem está familiarizado com o monomito ou a jornada do heroi já deve ter percebido o padrão aqui, né? Mas não é a Senhorita Carrapato que acompanhará Tiffany na jornada, e sim seu sapo e os Nac Mac Feegle [os Pequenos Homens Livres], seres que vivem para beber, brigar, roubar, beber e brigar. Os Nac Mac Feegle carregam uma espada que emite um brilho azul na presença do inimigo mais temido: advogados.

Continuar lendo

Desafio de Férias 2010/2011 | Romancing Mr. Bridgerton

Capa britânica

Antes de escrever sobre esse livro, xeu comentar uma coisa a respeito da autora: Julia Quinn é uma pessoa gentil. Nada mais explica o tratamento concedido a seus personagens: é muito fácil ser espirituosa com duques e viscondes e outras personagens cuja beleza física e/ou caráter salta à vista, mas eu não me lembro de outra escritora tão generosa com personagens “invisíveis”, as wallflowers.

A maioria das escritoras românticas cai logo na armadilha fácil de criar Mary Sues, a garota adoravelmente atrativa e única que logo é alvo da atenção do herói – e de preferência que tal herói seja byrônico: lindo, inteligente, sarcástico, taciturno, sedutor e misterioso. Muitos críticos explicam que Mary Sue representa um avatar de tal espécie de autora, que se projeta numa personagem de papel do modo como gostaria que as pessoas a vissem e com o poder de conquistar o homem que outras mulheres não conseguem, ou ficar deliciosamente indecisa entre dois homens perfeitos que disputam sua afeição. Quase ninguém se interessa em escrever sobre uma garota simples, sem beleza e graça natural, inteligência brilhante, que não se destaca. Uma wallflower.

Uma única exceção que me lembro assim de cara é Jane Eyre [Charlotte Brontë] e, agora, Romancing Mr. Bridgerton. Outro ponto em comum entre os dois livros é que a personagem feminina central tem uma força de caráter acima da média nesse tipo de romance. Ela não assume uma postura de coitadinha: embora sua timidez atrapalhe, há um bocado de Girl Power nela. Virei fã – bom, na verdade eu já vinha desenvolvendo uma forte simpatia por ela desde o primeiro livro da série Bridgerton. Esse é um outro ponto que gostei: nos anteriores, os pares centrais eram relativamente novos para o leitor, nesse aqui já estamos familiarizados com eles [se lermos na sequência, claro].

[E xeu te contar outra coisa: tem referência ao Guia do Mochileiro das Galáxias do Douglas Adams logo nos primeiros capítulos desse romance de época. FTW!]

Continuar lendo