Desafio Literário | O Coração das Trevas

Sinopse
Novela que deu origem ao fillme Apocalypse Now, obra-prima de Francis Ford Coppola, Coração das trevas é uma joia literária. Marlowe, o protagonista, é enviado à selva africana para resgatar o enigmático Kurtz, comprador de marfim cujos métodos civilizatórios põem a nu a selvageria da exploração colonial.

Capa

Quando montei a lista pro DL2010 mantive em mente que os últimos meses do ano são sempre corridos, então escolhi livros mais curtos na esperança de facilitar a leitura e cumprir o compromisso. Tolinha, os dois últimos títulos foram justamente os mais difíceis de ler mesmo sendo pequenos [em extensão].

O Coração das Trevas foi publicado pela primeira vez em 1899 numa revista, dividido em três partes. Seu autor Joseph Conrad é polonês, nascido na Ucrânia, que se naturalizou britânico aos 30 anos de idade, antigo marinheiro a serviço da Coroa Belga do rei Leopoldo 2º durante a colonização do Congo. A trama do livro baseia-se na experiência pessoal do escritor e em pessoas que conheceu nessa fase de sua vida.

A estrutura narrativa lembra Wuthering Heights/O Morro dos ventos Uivantes de Emily Brontë, com uma narrativa em primeira pessoa dentro de outra narrativa em primeira pessoa e muita matutação num clima opressivo e, bem… escuro. Não porque se passe à noite [boa parte transcorre sob o sol da África], mas porque mostra o lado escuro do homem.

Os ideais iluministas dos colonizadores pretendiam “civilizar” o povo bárbaro. Como o protagonista de Conrad relembra antes de começar a contar sua história, essa é uma prática que vem de muito antes: não foram os romanos que fizeram a mesma coisa quando invadiram a Bretanha? Londres não era, então, tão escura quanto as vilas africanas invadidas pelos belgas e britânicos agora?

Os bons ideais dos colonizadores começa a ceder ao se darem conta do caráter explorador e econômico do governo. Kurtz, a figura idealista cuja lenda é apresentada aos poucos ao protagonista Charles Marlow, revela-se enfim um homem transformado pela realidade.

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Desafio Literário | O Amor É Fodido

Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. Merecias uma morte mais violenta. Se eu soubesse, não te tinha deixado suicidar com aquelas mariquices todas. Aposto que não sentiste quase nada. Não está certo. Eu não morri e sofri mais do que tu.

Capa

Acho que devo começar este post a pedir desculpas pela ocorrência involuntária do palavrão. Não tive como evitar, é o título do livro e desde o começo do Desafio optei por distinguir o livro no título do post, que é para facilitar a identificação nos links e leitores de feed. Aconteceu, foi mal.

O escritor brasileiro Mário Prata contou em uma de suas crônicas que o livro do português Miguel Esteves Cardoso estava a sofrer pouca divulgação da imprensa e dos livreiros quando a editora Francisco Alves o publicou no Brasil em 1995, justamente por causa do seu título, e responde: “Miguel Esteves Cardoso é hoje, na minha opinião, o melhor escritor de Portugal, anos-luzes na frente do segundo colocado. A geração lusitana mais velha talvez prefira um melancólico e prolixo Saramago. Mas Miguel já consquistou os mais jovens.”

Saramago era minha leitura alternativa, eu queria escapar um pouco do óbvio.

Por outro lado, em vez da sinopse que abre os posts do DL optei por colocar um trechinho do livro – o primeiro parágrafo dele, móde tentar demonstrar por que ele me agarrou assim que comecei a ler.

O livro é narrado em primeira pessoa por João, que amava Teresa, em narrativa não-linear. MEC declarou no livro que pretendia apenas escrever sobre o amor, mas quem espera um romance cor-de-rosa ou com aquelas pequenas dificuldades de romances de gênero deve estar ciente de uma coisa: o amor que o autor retrata nesse livro é impossível, imperfeito, não-correspondido, cruel e egoísta.

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Desafio Literário | Um Bom Tricô

Sinopse

Um Bom Tricô é uma lojinha em Seattle onde quatro mulheres bem diferentes se reúnem todas as semanas para aprenderem a fazer uma mantinha de bebê. Lydia Hoffman, a dona da loja, sobreviveu duas vezes ao câncer, Jacqueline Donovan é uma socialite em crise no casamento, Carol Girard vive a esperança de engravidar por meio da fertilização in-vitro e Alix Townsend nada mais quer do que cumprir uma sentença da justiça prestando um serviço comunitário. Com um enredo emocionante e envolvente sobre o amor e a amizade.

Capa do livro

Capa do livro

Quando se fala em tricô + literatura, na minha cabeça logo vem Agatha Christie e Ruth Rendell: crimes e assassinatos, portanto. Mas dona mãe fazia aniversário e o presente era dela – e ela não gosta de romances policiais e eu não queria dar outro romance espirita. Li a sinopse de Um Bom Tricô e me pareceu o tipo de leitura que ela gosta. Foi um salto no escuro, já que nunca vi ninguém que eu conheça comentar sobre esse livro, nunca vi na lista de mais vendidos. Nem em lista alguma, na verdade.

Aí um dia comecei a ler, antes de dormir. E lia mais um capítulo, só mais um, pra ver o que acontecia com as personagens, e quando vi tinha varado a noite e terminado o livro numa sentada.

A autora norte-americana Debbie Macomber inicia a trama com uma receita de tricô para manta de bebê. Esta receita, da artesã Ann Norling, será usada na primeira turma de alunas de Lydia, a dona da loja de armarinho Um Bom Tricô na rua Blossom, em Seattle.

As aulas acontecem nas tardes de sexta. Lydia tem três alunas: Jacqueline, esposa do empreiteiro responsável pela revitalização do bairro; Carol, uma corretora de sucesso que abandonou a vida profissional para tentar engravidar; e Alix, jovem rebelde que precisa cumprir horas de serviço comunitário e controlar sua raiva.

Jacqueline vive um casamento de aparências, pois as aparências frente às amigas do Country Club são o que norteiam a sua vida. Ela resolveu aprender a tricotar e fazer a manta de bebê para provar que seria uma boa avó para a sua primeira neta, filha de Paul, seu filho único, e Tammie Lee, a nora sulista que Jacquie desaprova.

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Desafio Literário | Tai-Pan

Capas dos livros

Capas dos dois volumes

Sinopse
Hong Kong, 1841. Os ingleses tomam posse da ilha; a luta pela supremacia do poder econômico – ser “o” Tai Pan, o comerciante mais importante – inicia-se. Entre mortes, amores, estratégias e alianças, o poder de Dirk Struan firma-se.

Taipan, tai-pan ou taepan em chinês significa “empresário estrangeiro”, mas não qualquer empresário. O termo é reservado para o figurão, o manda-chuva. Na China de 1841 o Tai-pan é Dirk Struan, dono de uma frota de navios que transportava ópio na complexa rede política-comercial entre a China e a Inglaterra.

A leitura demora um pouco a engrenar no início por causa do grande número de personagens que é apresentado logo no primeiro capítulo em meio às explicações sobre o comércio regular e tráfico de drogas, a política complicada pelo resistência chinesa contra os estrangeiros e às divagações íntimas do personagem principal [sim, tudo isso no primeiro capítulo!], mas depois de compreender e vencer essa fase o ritmo melhora.

Dirk Struan é um personagem que aqui no interior se diz que “não dá ponto sem nó”. Ele tem um objetivo, fundar a Casa Nobre em Hong Kong, o território que ele acabou de conquistar da China para o Império Britânico, e perpetuar sua dinastia como Tai-Pan. Ele opera a maior frota de navios de ópio, tem influência sobre o Vice-Rei inglês da região, conhece os misteriosos modos de pensar e a cultura dos chineses.

Suas táticas chocam o filho, único sobrevivente da peste [ou praga] europeia, mas acabam por revelar sua capacidade de observação, manipulação e política para alcançar os objetivos, deixando os oponentes sem ação. De certa forma, me fez entender o motivo do autor ter em sua bibliografia a tradução e adaptação de A Arte da Guerra [Sun Tzu]: ele usou seus preceitos neste romance.

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Desafio Literário | Agosto [livro reserva]

Sinopse
Em 1º de agosto de 1954, um empresário é assassinado no Rio de Janeiro. Enquanto isso, o chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas planeja um atentado contra o jornalista Carlos Lacerda – a crise política gerada culminaria no suicídio de Vargas. Misturando realidade e ficção com maestria, Rubem Fonseca relembra um mês marcante para a história do país.

Capa do livro

Capa do livro

O tema do DL de agosto é Romance Policial, um gênero de que eu gosto muito. Mesmo assim demorei a engrenar na leitura: até comecei a ler o livro titular [Cemitério de Indigentes, Patricia Cornwell], mas me pareceu que eu teria de ler os livros da Kay Scarpetta na sequência e não começar pelo quinto volume. 😉

Parti para o livro reserva, cujo título até combina com o mês do tema, veja só! A trama do romance de Rubem Fonseca inicia-se logo na madrugada do dia primeiro de agosto de 1954 na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, com o assassinato do empresário Paulo Gomes Aguiar em seu duplex num edifício de luxo. A investigação cai nas mãos do Comissário Alberto Mattos, um dos raros policiais impolutos da polícia carioca.

Durante a investigação, Mattos encontra pistas que levariam ao Anjo Negro Gregório Fortunato, o chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas. O próprio autor foi comissário de polícia entre 1952 e 1958, portanto podemos supor que o personagem principal de seu livro seja um alter-ego. A narração é feita em terceira pessoa e a atmosfera geral me lembrou um pouco dos policiais noir norte-americanos da década de 1930, com os personagens amorais e cínicos. Alberto Mattos é incorruptível, mas não tem mais ilusões idealistas.

Rubem Fonseca trabalha três núcleos no livro: o primeiro é o dos fatos históricos ocorridos no mês de agosto de 1954 que se iniciaram no complô do assassinato do jornalista Carlos Lacerda, o Corvo. Lacerda sobreviveu, mas seu guarda-costas morreu – como o guarda-costas era um major da Aeronáutica [Rubem Vaz], as Forças Armadas aproveitaram a desculpa para tomar posição contra Getúlio, que vinha perdendo força e poder dentro do governo.

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Desafio Literário | Auto da Compadecida

Sinopse
A peça teatral de Ariano Suassuna é uma comédia em três atos que mescla elementos da literatura de cordel nordestina e da tradição religiosa em uma história que envolve a avareza humana, a fé e mesmo algum teor fantástico com as aparições de Jesus Cristo, Nossa Senhora e o Diabo.

Considerada um clássico e aclamada pela crítica tão logo foi encenada pela primeira vez, a trama de “Auto da Compadecida”, que conta a história dos malandros João Grilo e Chicó, ganhou novo fôlego de popularidade recentemente ao ser adaptada para a televisão e para o cinema em produções homônimas.

Capa do livro

Capa do livro

Eu gosto tanto da minissérie e do filme adaptados desta obra que um de meus gatos se chama João Grilo, por ser amarelado – não amarelo, e sim cinza amarelado [e pensei em chamar Nestor de Chicó, mas acabou pegando Nestor mesmo]. Por muito tempo, ainda, peguei a mania de responder “Não sei, só sei que foi assim” com a mesma entonação do Selton Mello, e quando a coisa apertava eu soltava um “Ai como eu sofro!” ao estilo do Matheus Nachtergaele.

Devo ter irritado muita gente. 😆

O filme de 2000 é muito fiel ao livro [que na verdade é uma peça teatral] exceto por alguns personagens: Rosinha, o Cabo Setenta e o valentão Vicentão não são desta peça [a historinha da porca é contada na peça O Santo e a Porca], também de Ariano Suassuna; o roteiro do diretor Guel Arraes ainda excluiu três personagens do livro na adaptação [o palhaço, o sacristão e o frade], mas, fora isso, os diálogos não tiveram muita alteração. Eu lia o livro e “ouvia” os atores recitando suas falas na minha cabeça, foi bem legal.

João Grilo: Ah, isso é comigo. Vou fazer um chamado especial, em verso. Garanto que ela vem, querem ver? (Recitando.) Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré! A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer. A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé. Já fui barco, fui navio, mas hoje sou escaler. Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher.
Encourado: Vá vendo a falta de respeito, viu?

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Desafio Literário | Memorial de Maria Moura

Sinopse
Interior do Brasil, século XIX: família, honra, terra. Estas eram as três únicas razões da vida de uma mulher da época. Maria Moura perdeu todos esses motivos. Mas não se deu por vencida: preferiu pegar em armas e ir atrás dos seus sonhos e de suas terras. À luta de Maria Moura, soma-se a tragédia do amor proibido entre o padre José Maria e a beata Bela e a paixão corajosa da submissa Marialva com o trapezista Valentim. Histórias de lutas e desafios, mas com armas bem diferentes.

Capa do livro

Capa do livro

O Desafio Literário by Romance Gracinha foi uma oportunidade ótima pra me comprometer com a leitura de livros que estavam/estão se acumulando na estante, à espera do “tempo” pra ler. É o caso de Memorial de Maria Moura da Rachel de Queiroz, que ficava pra trás por causa da sua extensão [600 páginas nesta edição] – mas, oras bolas! Eu li forçado um romance de mais de 640 páginas que não gostei [Casório], comé que poderia não ler o de uma autora que eu gosto? Então vamos lá!

MMM é uma saga que se passa no interior do Ceará  e Pernambuco na metade do século 19. O Brasil ainda é um império escravagista e a lei da igreja romana predomina. A mulher era menos do que um objeto, propriedade do pai, dos irmãos ou do marido. Saber disso torna a leitura mais enriquecedora; é diferente de mergulhar na trama como se fosse atemporal ou em qualquer outro lugar.

Rachel de Queiroz criou três núcleos neste livro: o de Maria Moura, a sinhá que se envolve numa guerra pela posse de terras da família; o do padre Zé Maria, que vira um fugitivo; e o de Marialva, prima de Maria Moura que foge do controle dos irmãos. Eventualmente estes núcleos passam a interagir entre si; até lá, cada capítulo é narrado por um dos personagens. Não se preocupe com as mudanças de narrador, ele ou ela é identificado logo no título do capítulo mas, mesmo se não fosse, a autora dá a cada um o seu estilo próprio de narrativa. São diferenças no vocabulário, na construção de frases, na musicalidade da fala que identificam quem é que conta a história.

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