Desafio Literário | Casa de Bonecas

Sinopse
No final do século XIX a crise das instituições e a moral burguesa entram em cena. Os personagens se livram das máscaras e vivem, solitários, sua verdade. Dessa forma Nora Helmer, a mulher-boneca, renuncia à confortável mentira e elege o risco de ser ela mesma. Precisa de uma nova identidade, de uma nova moral. Para viver, abandona marido e filhos, rompendo amarras, derrubando tabus.

Capa

Depois de duas comédias inglesas, um drama norueguês. Na lista oficial eu tinha escolhido Peer Gynt, que troquei por outra peça do mesmo autor que encontrei escondida na estante. Ibsen lançou Casa de Bonecas na mesma época que Wilde estreou seu Earnest, uma época em que as transformações sociais começavam a mudar a História – era o fim do Período Vitoriano, para começar. A diferença é que Wilde usou a sátira para criticar os ridículos da sociedade, enquanto Ibsen lançava um libelo feminista que chocou a sociedade calvinista.

A peça começa na sala de estar do apartamento dos Helmer, quando Nora retorna das compras de Natal e é recebida pelos três filhos e marido, Torvald, compondo o ambiente doméstico a que se reúnem o Dr. Hank, melhor amigo de Torvald, e a Sra. Linde, antiga colega de escola de Nora que vem para a cidade em busca de emprego após enviuvar. Completam o elenco a babá dos meninos e um empregado do banco onde Torvald trabalha.

Agora xeu contar uma coisa: nas primeiras páginas cheguei a imaginar estar lendo um policial de Agatha Christie e pensava “ah, essa Nora será assassinada, ela é bem o tipo de personagem que todo mundo teria motivo pra matar”. Eu mesma, pra começar. Nora parece tola, cabeça-de-vento, submissa, inútil, incapaz, tudo aquilo que desprezo nesse tipo de mulher.

Aos poucos o foco da minha ira foi se voltando a quem de direito, isto é, ao marido [embora ainda sentisse raiva da Nora também, porque toleimice não é imposta sobre alguém]. Torvald aos poucos mostra sua real face: machista, controlador, arrogante, intolerante; trata a esposa como um bichinho de estimação ["minha raposinha", "minha cotoviazinha"] ou criança ["minha esposinha", "minha Norinha"], uma propriedade, uma boneca em sua casinha de brinquedo.

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[TrueBlood] 9 Crimes

Franklin e Tara

Franklin e Tara, mais um relacionamento abusivo.

Janice Herveaux sobre Debbie Pelt e Alcide: Ela foi o primeiro amor da vida dele, ele nunca tinha conhecido alguém tão cheia de vida, aquela m*rda toda. Mas quantos tiros você tem de levar por alguém, quanta coisa ruim tem de acontecer com você e com quem você ama antes de você perceber que sentir-se vivo não é o suficiente?

Sookie está/é tão obcecada pelo seu relacionamento com Bill que não consegue ver as coisas em perspectiva. É o primeiro relacionamento amoroso da vida dela, e é justamente com um ser a quem ela não consegue ler as intenções ou ouvir os pensamentos. Ser telepata pode não ser grande coisa, afinal, pois a tornou dependente desse dom para conhecer as pessoas ao invés de torná-la consciente dos sinais que enviam pelo comportamento. Tudo tem que ser desenhadinho.

A partir deste ponto há spoilers.

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Desafio Literário | Filha da Fortuna

Sinopse
Eliza Sommers é uma jovem chilena que vive em Valparaíso em 1849, ano em que se descobre ouro na Califórnia. O seu amante, Joaquín Andieta, parte para o Norte decidido a fazer fortuna e ela decide segui-lo.

A viagem infernal, escondida no porão de um veleiro, e a procura do amante numa terra de homens sós e de prostitutas atraídos pela febre do ouro, transformam a jovem inocente numa mulher fora do comum. Eliza recebe ajuda e afecto de Tao Chi’en, um médico chinês que a amparará ao longo de uma viagem inesquecível pelos mistérios e contradições da condição humana.

Filha da Fortuna é o retrato palpitante de uma época marcada pela violência e pela cobiça, onde os protagonistas redescobrem o amor, a amizade, a compaixão e a coragem. Neste seu ambicioso romance, Isabel Allende descreve um universo fascinante, povoado de estranhas personagens que, como tantas outras da autora, ficarão para sempre na memória e no coração dos seus leitores.

Capa

Capa da edição brasileira*

Isabel Allende é jornalista e escritora chilena, prima em segundo grau de Salvador Allende, o presidente marxista deposto pelo golpe militar de Augusto Pinochet em 1973. Após o golpe de Estado, sua família refugiou-se primeiro na Venezuela e depois ela naturalizou-se norte-americana, em 2003. Tanto seu pai quanto seu padrasto eram diplomatas, então ela morou em quase todos os países da América Latina quando era criança/adolescente, e depois em vários países pelo mundo quando trabalhava para a FAO, braço da ONU dedicado aos alimentos e à agricultura.

O primeiro casamento de Isabel foi com um descendente de ingleses: enquanto em casa cumpria o papel da esposa obediente e mãe zelosa, profissionalmente fazia traduções de romances britânicos para o espanhol [notadamente Barbara Cartland] e ia construindo sua reputação como jornalista e articulista de revistas femininas. Mais tarde, foi demitida do cargo de tradutora porque ela fazia alterações nos diálogos das heroínas para torná-las mais inteligentes – sem autorização dos editores, é claro. Ela chegou a alterar o final de Cinderela, de modo a torná-la independente e a fazer boas ações.

Todo esse histórico é visível na leitura de Filha da Fortuna, romance publicado em 1999. A sinopse concentra-se num aspecto apenas do livro, que é muito mais do que isso.

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Mr. Smith Goes to Washington / A Mulher Faz O Homem

Capa do DVD

Capa do DVD

Homem simples do interior com valores morais firmes, Jefferson Smith [James Stewart] é indicado ao Senado dos EUA por causa de sua disposição dócil e manipulável. Um grupo de políticos o acompanha até Washington, onde assumirá uma cadeira no Senado. Eles o adulam para que vote a favor de um projeto do Senador Paine [Claude Rains], que por sua vez é manipulado por um empresário que controla quase toda a mídia em seu Estado. Paine incumbe a relações-públicas Clarissa Saunders [Jean Arthur] de assessorar e direcionar Smith.

Achou familiar?

Eu também. Tanto é que durante muitos anos pensei que era James Stewart que tinha feito O Galante Mr. Deeds e nunca lembro quem é que foi para Washington: a trama é bem parecida, o diretor é o mesmo Frank Capra e até a Jean Arthur aparece nos dois filmes como a garota que luta pra vencer na cidade grande, torna-se durona e se apaixona pelo homem ingênuo e de caráter firme que veio do interior.

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The Undead and Philosophy – Chicken soup for the soulless

Capa do livro

Capa do livro

Eu sei que tinha dito que ia parar com essa série Cultura Pop & Filosofia depois dos volumes dedicados aos Beatles e ao Metallica. O caso é que esqueci que já tinha encomendado The Undead and Philosophy – Chicken soup for the soulless na Livraria Cultura, que não o tinha em estoque e levou um mês e meio pra entregar. Que sorte, viu. Se eu tivesse parado nos volumes musicais provavelmente não voltaria a ler nada da coleção e perderia o melhor deles que li até agora.

A explicação para eu gostar mais desse do que dos cinco volumes que li antes está explicado num capítulo do próprio livro, o “Heidegger the Vampire Slayer: The Undead and Fundamental Ontology” de Adam Barrows. Primeiro porque ele explica os dois principais objetos de estudo da filosofia, o conhecimento [epistemologia] e o ser [ontologia]. Os cinco livros que li antes eram mais epistemiológicos, enquanto esse dedicado aos vampiros e zumbis é mais ontológico.

Ê lasquêra! Quer dizer o quê, sua amostrada? Que aprendeu duas palavras novas?

Ahn… Sim, isso e o fato de que os artigos desse livro tratam muito mais da primeira questão que a gente imagina quando se fala em filosofia: quem sou eu?

O que define a pessoa como um ser? O que define vida? O que acontece com o ser depois que ele morre? Os primeiros artigos tentam estabelecer tudo isso antes de pensar nas questões éticas que envolvem vampiros, zumbis, replicantes e zumbis filosóficos. Os autores optaram por não incluir lobisomens, fantasmas e outros seres sobrenaturais por questões práticas, isto é, não ampliar a discussão para a psicologia e a teologia.

Epa, você disse replicantes, Titia Batata? Tipo assim, igual os replicantes de Blade Runner, O Caçador de Androides?

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Livro | Como Água Para Chocolate

Capa do livro

Capa do livro

Isso ainda há de virar meu mantra: sempre é tempo. Finalmente li Como Água Para Chocolate, o romance da escritora mexicana Laura Esquivel que deu origem ao filme do seu marido, Alfonso Arau. O flme é um dos meus Top Favoritos Foréva e o livro acabou indo pelo mesmo caminho – em parte porque foi adaptado fielmente em película.

Durante esse intervalo todo eu matutava no significado do título: trata-se de uma expressão típica do México que Tita menciona no livro. Lá  se prepara o chocolate quente dissolvendo-se a barra caseira de chocolate em água, em vez de leite. Para que o chocolate derreta é preciso que a água esteja fervendo; então, se a pessoa está “como água para [fazer] chocolate” significa que está fervendo – de raiva ou de outra emoção.

O livro é dividido em doze capítulos, cada capítulo correspondendo a um mês do ano embora a história não se passe neste intervalo de tempo: ela começa com o nascimento de Tita de la Garza e acompanha sua vida durante a Revolução Zapatista nas primeiras décadas do século 20 em um rancho próximo da fronteira México-EUA.

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Beatles | Metallica | Filosofia

Capa do livro

Capa do livro

Terminei de ler mais dois livros da série Cultura Pop & Filosofia, do William Irwin, ambos relacionados à música – mais especificamente ao rock’n’roll.

Os dois livros têm em comum a estrutura dos capítulos: os primeiros analisam a relação das mensagens das letras das canções com os primeiros filósofos ocidentais [Platão, Aristóteles, Sócrates], seguindo para os orientais, franceses e alemães e daí para os filósofos modernos.

O mesmo esquema dos três anteriores que li, também [Matrix, Harry Potter e House].

Mas, desta vez, não gostei muito do material de alguns artigos que usaram trechos de letras de músicas para fazer a tal análise filosófica – isso aconteceu principalmente no volume dedicado ao Metallica: usaram trechos ou frases fora do contexto da canção para encaixar na ideia que o autor do texto queria demonstrar.

No GoogleBooks tem uma boa parte do livro disponível para leitura online [clique aqui].

Tradução de resenha da Babblermouth na Whiplash, em português.

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[TrueBlood] New World in My View

O Deus Cornudo

O Deus Cornudo

[Marjorie M.] Liu, autora das séries Dirk & Steele e Hunter Kiss, diz que o [gênero] romance sobrenatural “é a respeito do empoderamento feminino. Abrigos para mulheres vítimas de abuso costumam distribuir esses romances, e há uma razão para isso. Heroínas que matam demônios e caçam vampiros – elas são garotas duronas.” [Philadelphia Inquirer, 02/08/09]

O artigo de John Timpane não se estende muito sobre o tema do empoderamento, é mais uma espécie de apanhado da nova onda dos livros, filmes e shows de TV. Entretanto, este trechinho que serviu de introdução ao post tem a ver com o décimo episódio de True Blood na medida em que Sookie e Jessica tomam o controle das coisas em suas mãos.

Antes de continuar, cê tá sabendo que não haverá exibição de True Blood na véspera do Labor Day [7 de setembro], né? O penúltimo episódio será transmitido no próximo domingo, 30 de agosto, e então teremos de esperar duas semanas para acompanhar a season finale no dia 13 de setembro – ou 31 de agosto e 14 de setembro no meu caso, caus que sempre aguardo o rmvb legendado sair pela FangTeam.

A partir deste ponto há spoilers. Imagem não é nada. Sede é tudo. Obedeça sua sede

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[TrueBlood] Never Let Me Go

Bill Compton e ERIC NORTHMAN

Bill Compton e ERIC NORTHMAN

As histórias de vampiros tradicionais costumam ser moldadas de acordo com a visão do mundo do Cristianismo, cuja estrita separação metafísica entre o bem e o mal gera imagens de vampiros como criaturas demoníacas, com um poder sedutor e destrutivo. Um tipo alternativo de ficção acerca de vampiros que surgiu nas últimas décadas, e hoje é a forma dominante no gênero, rejeita veementemente a visão cristã e favorece uma interpretação niilista com raízes no pensamento de Friedrich Nietzsche. Nessas histórias, o vampiro aparece como o herói (às vezes trágico, às vezes não) que supera a moralidade convencional. [William Irwin [Org.], Buffy a Caça-Vampiros E A Filosofia, cap. 1, 1º parágrafo]

O primeiro artigo do livro Buffy e a Filosofia prossegue com uma terceira visão do universo das histórias de vampiro, que é a “escola de ética conhecida como ‘eudemonismo’, que dita que a base da bondade moral é a realização da natureza humana em seu mais alto potencial” [parágrafo seguinte]. E foi neste ponto que parei a leitura, caus que estava usando os óculos velhos enquanto o atual estava na óptica repondo a lente que quebrei ao escorregar no banheiro. Longa história. Ou não, levou menos de 140 caracteres. Desculpaê, amiguinho do Twitter que está a reler isso. Voltando ao tópico, óculos velhos e ler no computador não combinam.

Este artigo português de Francisco Limpo de Faria Queiroz esclarece a diferença entre hedonismo e eudemonismo.

Chega de filosofia. Bamos ao que me trouxe aqui, em primeiro lugar. Não, não foi uma bicicleta. Prestenção. No quinto episódio da temporada, finalmente vemos a Sookie pensar e tomar a iniciativa, ê! *Bate palminha* Bom pra você, mocinha!

A partir deste ponto pode haver spoiler. Agite antes de usar.

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